Viagem do renascimento
Achava-me numa ilha de esperança, em pleno mar da
Espiritualidade, consciente de que me aproximava do
retorno à vida física.
Pensava na jovem que me receberia nos braços.
Lembrava-me de havê-la conhecido em outras estâncias. A
memória, porém, lutava para reconstituir-lhe a imagem
dentro de mim. Só ela conseguiria fixar-me de novo na
Terra, pela força do amor.
Cerrei os olhos, como quem se preparava para uma jornada
intuitiva de volta ao passado, no intuito de refazer-lhe
os traços.
Era ela, sim, que devia esperar-me.
Sentia-lhe as mãos de veludo, resguardando-me a
segurança, enquanto os seus pensamentos perpassavam por
minha cabeça, com a suavidade das brisas que se
movimentam no alvorecer.
Revia-lhe os olhos, na tela de minhas reminiscências, à
feição de estrelas que me descobriam a alma.
No íntimo, registrava-lhe o calor da fé em Deus e em si
mesma, refundindo-me as energias, de modo a retomar-me
na existência terrestre.
Percebia-lhe, de novo, nas fibras recônditas do
espírito, a coragem sem temeridade, a beleza sem
orgulho, a bondade sem afetação, a lealdade sem
fraqueza, a confiança sem desânimo, o amor sem
vacilações e a luz sem sombra…
Só então notei que a meditação se me transformara numa
viagem maravilhosa.
Desligara-me da ilha em que me achava e reconhecia-me
sob o poder de atração inexplicável.
Vi-me no aconchego de um lar em que ela me aguardava.
A irradiação estelar que lhe fluía do peito era o seu
coração a falar-me de seus sonhos e aspirações.
Queria um filho que era eu mesmo. Nunca a julguei tão
linda a esperar-me, a fim de instilar-me vida nova.
Beijei-lhe a face com a simplicidade da flor humana em
que passara a transfigurar-me.
Ela chorou e envolvi-lhe os cabelos, com as minhas
próprias lágrimas.
Observei-me na condição do menino que ela própria
mentalizara e, recolhendo-me ao seu colo, descansei com
a despreocupação da criança que novamente começara a
ser.
Quis gritar a minha felicidade em cânticos de louvor a
Deus, mas repousando junto àquele coração, à maneira da
ave cansada que se reacomoda no ninho, pude apenas
dizer: “Minha mãe!… Minha mãe!…”
Do livro Presença de luz, obra
psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.
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