Gestação do
progresso moral
Na
leitura da obra A
Gênese, os Milagres e as Predições
Segundo o Espiritismo — encontramos, no item 14 do
capítulo 9, importante pensamento para nossa reflexão,
quando o codificador do Espiritismo encerra o estudo
sobre os cataclismos futuros. Vejamos o que ele afirma:
“Fisicamente, a Terra teve as convulsões da sua
infância; entrou agora num período de relativa
estabilidade: na do progresso pacífico, que se realiza
pelo retorno regular dos mesmos fenômenos físicos e pelo
concurso inteligente do homem. Mas ainda está em
pleno trabalho de gestação do progresso moral. Aí
residirá a causa de suas maiores comoções. Até que a
humanidade haja crescido suficientemente em perfeição,
pela inteligência e pela prática das Leis divinas, as
maiores perturbações serão causadas mais pelos homens do
que pela natureza, isto é, serão antes morais do que
físicas.” (destaques
originais)
Chama-nos
a atenção a afirmação de que as convulsões físicas e
geológicas, oriundas da própria natureza, encontram-se
em período de relativa estabilidade, pois os
acontecimentos são locais e isolados, ao contrário do
que ocorria em eras passadas, quando convulsionavam
regiões extensas e até mesmo todo o planeta. Entretanto,
Kardec ressalta que agora estamos vivendo outro tipo de
convulsão: a luta pelo progresso moral, que muitas vezes
sacode as entranhas da sociedade, com a quebra de
paradigmas ocorrendo de forma violenta, no embate entre
pensamentos antagônicos, chegando o ser humano,
inclusive, a entrar em guerra com seus irmãos que pensam
de maneira diferente.
Infelizmente, nem sempre o progresso moral acontece de
forma pacífica, pois muitos são os interesses que movem
os seres humanos, regidos que ainda estamos pelo egoísmo
e pelo orgulho, apresentados pelos Espíritos Superiores
como as duas grandes chagas da humanidade, que somente a
educação moral pode destruir, como vemos na questão 917
de O Livro dos
Espíritos.
No texto
que estamos comentando, Kardec acende uma luz para todos
nós, espíritos reencarnados, quando observa que essa
convulsão de ordem moral tenderá a pacificar-se à medida
que crescermos em perfeição, o que acontecerá por meio
do uso da inteligência e da prática das leis divinas.
Observemos que o uso da inteligência deve estar unido à
prática das leis divinas, pois, de outra forma, a
inteligência, sozinha, tende a tornar o ser humano mais
egoísta e orgulhoso, mais indiferente e insensível à
coletividade à qual pertence.
Praticar
as leis divinas significa colocar em ação o “amar a Deus
sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”,
código amplamente ensinado e vivido por Jesus, o Mestre
dos mestres, aquele que veio nos orientar quanto ao
cumprimento dos desígnios divinos que regem a vida
humana. A vivência desse código de conduta é o que nos
compete, se queremos crescer espiritualmente, e essa
vivência exige luta íntima contra os vícios e as paixões
de toda ordem, pois a transformação moral da humanidade
depende da transformação moral das individualidades que
a compõem.
Ainda em A
Gênese, encontramos outro texto de Kardec
muito importante e que se conjuga com o que destacamos
anteriormente. Vamos reproduzi-lo do item 5 do capítulo
18, intitulado “Sinais dos Tempos”. Vejamos:
“Até
aqui, a humanidade tem realizado incontestáveis
progressos. Os homens, com a sua inteligência, chegaram
a resultados que jamais haviam alcançado, sob o ponto de
vista das ciências, das artes e do bem-estar material.
Resta-lhes, ainda, um imenso progresso a realizar: fazerem
que reinem entre si a caridade, a fraternidade e a
solidariedade, que lhes assegurem o bem-estar moral.
Não poderiam consegui-lo nem com as suas crenças, nem
com as suas instituições antiquadas, resquícios de outra
idade, boas para certa época, suficientes para um estado
transitório, mas que, havendo dado tudo o que
comportavam, hoje seriam um entrave. O homem já não
necessita somente de desenvolver a inteligência, mas de
elevar o sentimento; para isso, faz-se preciso destruir
tudo o que superexcite nele o egoísmo e o orgulho. Tal o
período em que vão entrar de agora em diante e que
marcará uma das fases principais da humanidade. Esta
fase, que neste momento se elabora, é o complemento
indispensável do estado precedente, como a idade viril é
o complemento da juventude. Ela podia, pois, ser
prevista e predita com antecedência e é por isso que se
diz que os tempos marcados por Deus são chegados.” (destaque
do original)
Sim, temos
um imenso progresso a realizar, mas não exclusivamente
do ponto de vista intelectual, científico e tecnológico,
e sim do ponto de vista moral, pois ainda estamos muito
longe de viver entre nós a fraternidade e a
solidariedade.
Coloquemos
em destaque este trecho: “O homem já não necessita
somente de desenvolver a inteligência, mas de elevar o
sentimento; para isso, faz-se preciso destruir tudo o
que superexcite nele o egoísmo e o orgulho.” O
pensamento é muito claro e não deixa dúvidas quanto ao
que temos de fazer. Observamos, porém, que, passados
mais de cento e cinquenta anos — já que A
Gênese foi publicada em 1868 —,
encontramo-nos às voltas com imensas dificuldades no
campo do sentimento. O materialismo, o ateísmo, o
imediatismo e o sensualismo predominam, regados por
ideias perniciosas, motivações escusas e pela exaltação
de emoções e prazeres meramente corporais, deixando a
alma em segundo plano, ou mesmo fora de qualquer
cogitação.
Aqueles
que permanecem de plantão para anunciar o fim do mundo
estão totalmente equivocados, pois esse não é o
pensamento do Espiritismo, que destaca a lei divina do
progresso, segundo a qual tudo é transformação, tanto de
ordem física quanto moral. Estamos vivendo plenamente as
convulsões da transformação moral, no embate entre o bem
e o mal, entre o egoísmo e a caridade, entre o orgulho e
a humildade; mas temos plena e inabalável certeza de que
o bem, a caridade e a humildade sairão triunfantes,
mesmo que isso demande tempo. Mas que importa, se temos
a eternidade pela frente?
Façamos
nossa parte hoje, realizando a própria transformação
moral, para que sejamos bons exemplos, influenciando os
outros a também realizarem a sua transformação. Trata-se
de um processo genuinamente educacional, no qual pessoas
transformadas transformarão, pouco a pouco, a
humanidade, geração após geração, colocando a
inteligência a serviço do bem comum, até que chegará o
dia em que assistiremos, felizes, ao resultado desse
esforço: a realização do progresso moral, que hoje está
em gestação, mas que amanhã será realidade.
Marcus De Mario é
escritor, educador e palestrante; coordena o Seara de
Luz, grupo on-line de estudo espírita; edita o canal
Orientação Espírita no YouTube; é editor-chefe da
Revista Educação Espírita; produz e apresenta programas
espíritas na internet; e possui 40 livros publicados.