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por Marcus De Mario

 

Gestação do progresso moral


Na leitura da obra A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo — encontramos, no item 14 do capítulo 9, importante pensamento para nossa reflexão, quando o codificador do Espiritismo encerra o estudo sobre os cataclismos futuros. Vejamos o que ele afirma:

“Fisicamente, a Terra teve as convulsões da sua infância; entrou agora num período de relativa estabilidade: na do progresso pacífico, que se realiza pelo retorno regular dos mesmos fenômenos físicos e pelo concurso inteligente do homem. Mas ainda está em pleno trabalho de gestação do progresso moral. Aí residirá a causa de suas maiores comoções. Até que a humanidade haja crescido suficientemente em perfeição, pela inteligência e pela prática das Leis divinas, as maiores perturbações serão causadas mais pelos homens do que pela natureza, isto é, serão antes morais do que físicas.” (destaques originais)

Chama-nos a atenção a afirmação de que as convulsões físicas e geológicas, oriundas da própria natureza, encontram-se em período de relativa estabilidade, pois os acontecimentos são locais e isolados, ao contrário do que ocorria em eras passadas, quando convulsionavam regiões extensas e até mesmo todo o planeta. Entretanto, Kardec ressalta que agora estamos vivendo outro tipo de convulsão: a luta pelo progresso moral, que muitas vezes sacode as entranhas da sociedade, com a quebra de paradigmas ocorrendo de forma violenta, no embate entre pensamentos antagônicos, chegando o ser humano, inclusive, a entrar em guerra com seus irmãos que pensam de maneira diferente.

Infelizmente, nem sempre o progresso moral acontece de forma pacífica, pois muitos são os interesses que movem os seres humanos, regidos que ainda estamos pelo egoísmo e pelo orgulho, apresentados pelos Espíritos Superiores como as duas grandes chagas da humanidade, que somente a educação moral pode destruir, como vemos na questão 917 de O Livro dos Espíritos.

No texto que estamos comentando, Kardec acende uma luz para todos nós, espíritos reencarnados, quando observa que essa convulsão de ordem moral tenderá a pacificar-se à medida que crescermos em perfeição, o que acontecerá por meio do uso da inteligência e da prática das leis divinas. Observemos que o uso da inteligência deve estar unido à prática das leis divinas, pois, de outra forma, a inteligência, sozinha, tende a tornar o ser humano mais egoísta e orgulhoso, mais indiferente e insensível à coletividade à qual pertence.

Praticar as leis divinas significa colocar em ação o “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, código amplamente ensinado e vivido por Jesus, o Mestre dos mestres, aquele que veio nos orientar quanto ao cumprimento dos desígnios divinos que regem a vida humana. A vivência desse código de conduta é o que nos compete, se queremos crescer espiritualmente, e essa vivência exige luta íntima contra os vícios e as paixões de toda ordem, pois a transformação moral da humanidade depende da transformação moral das individualidades que a compõem.

Ainda em A Gênese, encontramos outro texto de Kardec muito importante e que se conjuga com o que destacamos anteriormente. Vamos reproduzi-lo do item 5 do capítulo 18, intitulado “Sinais dos Tempos”. Vejamos:

“Até aqui, a humanidade tem realizado incontestáveis progressos. Os homens, com a sua inteligência, chegaram a resultados que jamais haviam alcançado, sob o ponto de vista das ciências, das artes e do bem-estar material. Resta-lhes, ainda, um imenso progresso a realizar: fazerem que reinem entre si a caridade, a fraternidade e a solidariedade, que lhes assegurem o bem-estar moral. Não poderiam consegui-lo nem com as suas crenças, nem com as suas instituições antiquadas, resquícios de outra idade, boas para certa época, suficientes para um estado transitório, mas que, havendo dado tudo o que comportavam, hoje seriam um entrave. O homem já não necessita somente de desenvolver a inteligência, mas de elevar o sentimento; para isso, faz-se preciso destruir tudo o que superexcite nele o egoísmo e o orgulho. Tal o período em que vão entrar de agora em diante e que marcará uma das fases principais da humanidade. Esta fase, que neste momento se elabora, é o complemento indispensável do estado precedente, como a idade viril é o complemento da juventude. Ela podia, pois, ser prevista e predita com antecedência e é por isso que se diz que os tempos marcados por Deus são chegados.” (destaque do original)

Sim, temos um imenso progresso a realizar, mas não exclusivamente do ponto de vista intelectual, científico e tecnológico, e sim do ponto de vista moral, pois ainda estamos muito longe de viver entre nós a fraternidade e a solidariedade.

Coloquemos em destaque este trecho: “O homem já não necessita somente de desenvolver a inteligência, mas de elevar o sentimento; para isso, faz-se preciso destruir tudo o que superexcite nele o egoísmo e o orgulho.” O pensamento é muito claro e não deixa dúvidas quanto ao que temos de fazer. Observamos, porém, que, passados mais de cento e cinquenta anos — já que A Gênese foi publicada em 1868 —, encontramo-nos às voltas com imensas dificuldades no campo do sentimento. O materialismo, o ateísmo, o imediatismo e o sensualismo predominam, regados por ideias perniciosas, motivações escusas e pela exaltação de emoções e prazeres meramente corporais, deixando a alma em segundo plano, ou mesmo fora de qualquer cogitação.

Aqueles que permanecem de plantão para anunciar o fim do mundo estão totalmente equivocados, pois esse não é o pensamento do Espiritismo, que destaca a lei divina do progresso, segundo a qual tudo é transformação, tanto de ordem física quanto moral. Estamos vivendo plenamente as convulsões da transformação moral, no embate entre o bem e o mal, entre o egoísmo e a caridade, entre o orgulho e a humildade; mas temos plena e inabalável certeza de que o bem, a caridade e a humildade sairão triunfantes, mesmo que isso demande tempo. Mas que importa, se temos a eternidade pela frente?

Façamos nossa parte hoje, realizando a própria transformação moral, para que sejamos bons exemplos, influenciando os outros a também realizarem a sua transformação. Trata-se de um processo genuinamente educacional, no qual pessoas transformadas transformarão, pouco a pouco, a humanidade, geração após geração, colocando a inteligência a serviço do bem comum, até que chegará o dia em que assistiremos, felizes, ao resultado desse esforço: a realização do progresso moral, que hoje está em gestação, mas que amanhã será realidade.


Marcus De Mario
 é escritor, educador e palestrante; coordena o Seara de Luz, grupo on-line de estudo espírita; edita o canal Orientação Espírita no YouTube; é editor-chefe da Revista Educação Espírita; produz e apresenta programas espíritas na internet; e possui 40 livros publicados.


  
    

     
     

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