Entrevista

por Orson Peter Carrara

Melhora moral individual, proposta que pede firmeza e decisão


Natural de Pouso Alegre (MG), onde também reside, Leonardo de Souza Hallak (foto) exerce a profissão de contador e vincula-se ao Centro Espírita Amor e Humildade – Casa de Eurípedes Barsanulfo. Não ocupa cargo diretivo, mas atua nos passes, no atendimento fraterno e como coordenador de estudos. Também palestrante, conversamos sobre sua vivência espírita.


Como conheceu o Espiritismo?

Minha mãe é espírita e, apesar de meu pai não ser adepto de nenhuma religião quando em vida (mas tinha uma confiança em Deus invejável), posso me considerar um espírita de berço, pois minha mãe sempre nos levava aos centros, já que buscava ser uma trabalhadora na causa. Desta forma, desde pequeno eu e minha irmã frequentávamos o centro espírita e conhecíamos a doutrina.

O que mais lhe chamou atenção?

Quando criança, sempre me chamavam a atenção a vontade de minha mãe (e dos demais trabalhadores) de ajudar nos trabalhos da Casa Espírita, seja nas funções de limpeza ou nas atividades doutrinárias. Quando fui ficando mais velho – na juventude nunca frequentei a mocidade, pois, sinceramente, tinha dificuldades de socialização –, frequentava as palestras com minha mãe, e o que me chamava a atenção era como parecia que o que era falado nas palestras, tanto a parte evangélica (moral) quanto a parte doutrinária, parecia estar relembrando um conhecimento que já estava presente em meu Espírito. Desde o começo, o Evangelho de Jesus e a lógica da Doutrina me despertavam grande interesse.

E atualmente como considera a contribuição do Espiritismo para uma sociedade melhor?

Como praticante do Espiritismo, consigo claramente entender que o entendimento da verdadeira vida (espiritual) acontece quando voltamos nossos olhos para esta vivência espiritual. Agora estamos neste plano material, em um processo para desenvolver o Espírito. Quando todos, no futuro, tiverem esta consciência, a mudança dos hábitos e a aniquilação do egoísmo certamente serão a alavanca transformadora de nosso mundo.

Mas, no momento atual, olhando como um todo, creio que a principal missão do Espiritismo é a formação do homem de bem, o lado moral, a formação do caráter. Creio que isso está mais ligado às necessidades da sociedade no momento.

Nesse contexto de melhora individual, como situa a proposta de Jesus?

Neste contexto, como não poderia ser diferente, tendo em vista que a Doutrina Espírita tem, em essência, nosso Mestre Jesus Cristo, seus ensinamentos morais e todo o seu evangelho de amor, perdão, caridade e compaixão, a proposta de Jesus se torna clara: devemos alcançar estes objetivos.

Quando diz “se quiser vir a mim, renuncie a si mesmo, pegue sua cruz e siga-me”, aponta a necessidade de transformação íntima, no controle das paixões e no desenvolvimento deste homem integral, um homem em que o lado moral está acima de qualquer interesse pessoal e em que só podemos alcançar isso com os ensinos de Jesus, colocando em prática, em nossa vivência diária, seus ensinamentos.

Considera que esse esforço é capaz de contribuir para a felicidade pessoal e coletiva, diante da diversidade reinante no planeta, especialmente considerando os diferentes estágios de amadurecimento e interesse?

Na verdade, este processo de reforma individual é o único processo que existe para esta transformação. Quando todos tiverem realizado esta transformação moral, o mundo terá realizado sua transição. Individualmente, sei que pode parecer utópico, mas nossa primeira missão é conosco mesmos. Quando nos esforçamos para esta transformação individual, apesar do contraste com o mundo, vamos conquistando a paz de consciência e alcançando o objetivo que foi proposto por Deus, nosso Criador. Apesar das dificuldades, vamos encontrando sentido e propósito em nossa vida e, desta forma, vamos encontrando, aos poucos, a verdadeira felicidade possível neste planeta.

Muitos desconhecem ou desprezam a necessidade de mudança interior para melhor, permanecendo com ampla valorização aos vícios, ao materialismo etc. De que forma podemos, como espíritas, contribuir para nosso próprio despertamento individual e também sensibilizar outras pessoas, próximas ou não?

Mesmo sendo espíritas e tendo todo o conhecimento da vida espiritual, temos muitas dificuldades em não viver este materialismo que o mundo nos exige e viver a verdadeira vida espiritual. Não negamos a necessidade da vida material, pois é neste mundo material que o Espírito é justamente colocado à prova.

Mas lembremos o próprio Cristo ao dizer: “Dê a César o que é de César, mas dê a Deus o que é de Deus”, ou quando diz: “Viva para o Reino de Deus e tudo o mais será acrescentado”. Mas estamos longe de entender e viver estes ensinamentos. Nos perdemos no mundo e vivemos como se esta nossa vida terrena fosse o fim, mas o Espiritismo e Jesus nos mostram que ela é o meio, o caminho para se alcançar um objetivo maior, que não é o céu conhecido por diversas tradições, mas a conquista de nós mesmos.

Quando entendemos que nós somos o nosso propósito e nos colocamos no esforço diário de nos melhorarmos, passamos a sensibilizar os que estão à nossa volta com o nosso imperfeito, mas verdadeiro esforço de aplicar os ensinos de Jesus.

Considera que a atuação dos centros espíritas corresponde a esse objetivo ou necessitam aprimorar-se também, como instituições? Como?

Os centros espíritas sempre foram e sempre vão ser uma casa de Jesus – uma casa de socorro para aqueles que procuram curar suas dores, uma escola para quem deseja aprender os valores do Cristo. Mas destaco, em minha opinião, cuidados necessários que devemos tomar nas casas.

O primeiro ponto são as atividades sociais. Em tempos de assistencialismo governamental (que é importante), não podemos esquecer nosso dever de assistir os mais necessitados, pois, senão, as casas espíritas vão se tornar apenas locais de estudo, o que é extremamente importante para desenvolver o autoconhecimento e a necessidade de mudança íntima, mas que precisa estar acompanhado da prática da caridade, seja dentro ou fora do centro.

Todavia, destaco a importância de a casa ser um ponto de partida para esta prática da caridade, não somente material, mas também da fraternidade com o próximo.

Outro ponto que destaco é que, apesar de não ser uma religião proselitista, não podemos deixar de ver que os tempos mudaram, e hoje há uma maior necessidade de divulgação da causa espírita através das redes sociais e meios tecnológicos, não no intuito de conversão, mas sim de divulgação.

Algo marcante para relatar de sua vivência espírita?

Tenho alguns relatos em minha vida que muito me marcaram profundamente e fortaleceram minha crença na existência de uma verdadeira vida e de um propósito muito maior do que a vida terrena. Dentre uma das vivências, posso destacar o meu próprio retorno a este propósito.

Dos meus 14 aos 28 anos de idade, não frequentava nenhuma casa espírita ou qualquer ligação religiosa, nem mesmo estava realmente conectado com Deus. Apesar de estar vivendo em relativo conforto material e físico, encontrava-me com um vazio existencial inexplicável, como se nada mais fizesse sentido.

Obviamente influenciado por bons espíritos, surgiu uma grande vontade de procurar uma casa espírita, e o fiz. Lá, através de estudos e trabalhos, pude reencontrar este propósito e, desde então, venho estando ativo no movimento espírita e tentando, na medida do possível, o trabalho com Jesus.

Algo mais a acrescentar?

Não, somente agradecer a oportunidade de, através da divulgação da Doutrina dos Espíritos, ter a oportunidade de divulgar Jesus.

Suas palavras finais.

Acredito sinceramente que nossa melhora íntima, apesar de todas as dificuldades, é possível. Mas não acontece da noite para o dia, nem acontece depois de um despertar espiritual mágico; vem através de muito esforço e vontade, renúncia e sacrifício de nós mesmos.

Mas temos o melhor Mestre, que é o próprio Caminho, Verdade e Vida, e ele nunca nos desampara. Sigamos fortes, pois, como nosso Mestre Jesus disse: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, pois eu venci o mundo”. Com isso, abriu este caminho para que nós também possamos vencer!


 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita