O ateísmo perante o Sempiterno
Em A Gênese¹,
capítulo II – Deus –, Allan
Kardec desenvolveu, em torno do Criador, os
subtítulos: Existência de Deus, Da Natureza Divina, A
Providência e A Visão de Deus. Em síntese, poderemos
entender que a Causa Primária se estabelece por seus
efeitos originados a um início, para nós, indefinido. Se
observarmos a natureza e como ela se move, alguns
detalhes que intrigam observadores e cientistas hão de
nos dar uma ideia dessa grandeza. Por exemplo: o ciclo
vegetal, desde quando brotam as sementes e os grãos até
a floração ou a colheita, é um espetáculo natural.
Hoje em dia, com inúmeros recursos tecnológicos, muitos
vídeos são disponibilizados amplamente, mostrando-nos o
desabrochar de uma flor, como também as outras fases de
um processo produtivo. Assim como câmeras minúsculas e
instrumentos possantes exibem imagens impressionantes, o
microscópio apresentou para a humanidade, há tempos, a
movimentação dos seres vivos em termos biológicos. Daí,
Allan Kardec lançou uma sensata ponderação:
“Pois bem, olhando em torno de si para as obras da
natureza, observando-se a previdência, a sabedoria, a
harmonia que a todos presidem, reconhece-se que não há
nenhuma que não supere o mais alto grau da inteligência
humana” (KARDEC, 2020, p. 41).
Deus existe.
Suas obras, como todos nós – as suas criaturas –,
atestam essa veracidade.
Para ilustrar, relembremos, no memorável livro Pai
Nosso², pelo venerando espírito Meimei, livro que
muito apreciamos, psicografado por Chico
Xavier, o apropriado conto “Existência de Deus”.
A narrativa diz-nos que um humilde velho servo
analfabeto, de origem árabe, orava com muita veneração.
Um dia, o líder caravaneiro indagou por que ele rezava
com tamanha fé, já que não sabia ler. Então, o servo
apresentou-lhe três perguntas: como reconhecia o
remetente de uma carta? A marca de uma joia? Os caminhos
de animais próximos ao acampamento? E, respectivamente,
o senhor respondeu, pela ordem: pela letra, pelo ourives
e conforme os rastros.
Em seguida, o ancião chamou o rico ateu para fora da
tenda, mostrou-lhe o céu cintilante de estrelas com a
lua brilhante e afirmou: aquelas estrelas não seriam
obras humanas. Logo em seguida, o senhor ajoelhou-se com
o servo e juntos se colocaram a orar. Bela demonstração
de um ser redimido.
Deus está no pensamento mais íntimo de suas criaturas;
algumas delas insistem em desacreditar uma grandeza
superior, porém o ser inteligente possui a ideia inata
armazenada no inconsciente, a qual favorece a percepção
de que existe um Ser Supremo, e os homens sempre recebem
testemunhos incontestáveis dessa grandeza infindável.
Com um caráter investigativo, Kardec enumerou oito
atributos³ sobre a natureza divina, com base naquilo que
o homem poderia absorver: suprema e soberana
inteligência, eterno, imutável, imaterial, onipotente,
soberanamente justo e bom, infinito em suas perfeições e
único. Tais itens foram catalogados conforme uma
proposição humana limitada, tendo em vista nossa
imperfeição para alcançar a Divindade em plenitude,
porém uma qualificação capaz de fornecer conhecimento ao
homem sobre a essência divina.
A solicitude de Deus se manifesta em todo lugar;
contudo, o homem rotulou o Criador com imagens diversas,
comparando-o a si próprio. São figuras de anciãos
sentados em tronos; em decorrência disso, foi imaginado
um ser austero, vingativo, cruel...
Para uma analogia em torno do Supremo, o Codificador
utilizou-se de um ponto de vista racional:
“As obras ditas da natureza são o produto de forças
materiais que atuam, mecanicamente, em consequência das
leis de atração e repulsão; as moléculas dos corpos
inertes agregam-se e desagregam-se sob o império de tais
leis” (IBIDEM, p. 41).
Desse modo, estamos continuamente relacionados a essa
Força Superior que emana o controle e o poder sobre
todos os seres distribuídos pela natureza. Kardec
destacou como se processa a solicitude divina.
Durante séculos, o homem quis ver Deus e, em função
disso, imaginou as mais diversas caracterizações em face
de nossas limitações próprias. As comparações grotescas
criadas ao longo dos tempos fizeram do Divino uma figura
humana; o homem, uma vez equivocado, tenta vê-lo com os
olhos naturais. Kardec destacou que:
“Deus, sendo a essência divina por excelência, só pode
ser percebido em todo Seu esplendor pelos espíritos que
alcançaram o mais alto grau de desmaterialização”
(IBIDEM, p. 50).
A linguagem humana é incapaz de descrever o Pai – assim
“reapresentado” por Jesus
Cristo em um ambiente propício, em face de os
judeus acreditarem no Deus Único (monoteísmo). O Mestre
elevou a figura de um “deus” envolvido em mitologia e
contextos de um cotidiano daquela época, envolto em
atividades cotidianas, tais como: as pragas na
agricultura, oferendas em altares, usurpações e domínio
do mais forte em relação ao mais fraco, para Amor e
Bondade. Por isso, não existe para nós nenhum ponto de
comparação que possa dar ideia a respeito d’Ele.
A excelsitude do Criador está nas ações voltadas ao bem.
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Roni Ricardo Osorio Maia reside em Santa
Rita de Jacutinga (MG).