Auta de Souza
O nome dessa moça ouço falar desde 1956, quando, no
quartel, um capitão, espontaneamente, era responsável
pela venda de um carnê de obras assistenciais com o nome
de Auta de Souza. Porém, não perguntei de quem se
tratava; apenas fiz pequeno aporte com a intenção de
colaborar. Registrado o nome no computador da memória,
passados 70 anos eis que estou aqui escrevendo e até
mesmo atribuindo aos longevos como eu o privilégio de
testemunhar e, quando possível, divulgar a importância
de certos fatos, como este...
Auta de Souza nasceu em 12 de setembro de 1876, na
cidade de Macaíba, estado do Rio Grande do Norte, filha
de Elói Castriciano de Souza e de Henriqueta Leopoldina
Rodrigues, irmã de políticos influentes no Estado
potiguar.
Ficou órfã aos três anos, com a morte de sua mãe por
tuberculose, e, no ano seguinte, faleceu seu pai pela
mesma doença; ambos eram muito jovens. Desde a infância
vivenciou grandes lições do sofrimento humano. Após a
morte de seus pais, ela e seus irmãos foram criados por
sua avó materna, Silvina Maria da Conceição de Paula
Rodrigues, em uma chácara no Recife, onde foi
alfabetizada por professores particulares. A avó, apesar
de analfabeta, conseguiu proporcionar boa educação para
seus netos.
Aos sete anos, sabendo ler e escrever, lia para as
crianças pobres e filhos de escravos as primeiras lições
de religião. Aos onze anos, foi matriculada no Colégio
São Vicente de Paula, dirigido por freiras vicentinas
francesas, onde aprendeu Francês, Inglês, Literatura
(inclusive muita literatura religiosa), Música e
Desenho. Lia no original as obras de Victor Hugo
(1802-1885), Lamartine (1790-1869), Chateaubriand
(1768-1848) e Fénelon (1651-1715); estudava, recitava,
sendo muito influenciada por eles em sua alma poética.
Lamentavelmente, aos 14 anos, a tuberculose, mal
conhecida e, na época, identificada como “dama de
branco”, começa a ação devastadora e, mesmo atingida
pela doença implacável, Auta se mantém firme; com seu
talento e perseverança venceu a resistência dos círculos
literários, cujo ambiente era predominantemente
masculino.
Mesmo com essas dificuldades, conseguiu publicar seus
poemas, vencendo os adversários; inclusive, ganhou o
respeito e a admiração de Olavo
Bilac, poeta renomado que, a seu pedido, escreveu
o prefácio da 1ª edição de seu único livro, Horto,
de poesias.
Assim se expressou o notável poeta:
“Encontrar entre os livros de versos (tantos, Santo
Deus!) que por ahi se publicam, um livro como este, de
uma tão simples e ingênua sinceridade, é coisa que
surpreende e encanta. Não há nas estrofes do HORTO o
labor pertinaz de um artista, transformando as suas
ideias, as suas torturas, as suas esperanças, os seus
desenganos em pequeninas joias; aqui a alma vibra em
liberdade, sem a preocupação dos efeitos da Forma, livre
da complicada teia de artifícios. Ingenuamente, comovida
e meiga, essa alma de mulher vae traduzindo em versos os
mundos de sensações, agora ardentes, agora tristes, que
o espetáculo da vida lhes vai sugerindo. Às vezes, é um
aspecto da Natureza. Mas... não convém privar o leitor
das surpresa que encontrará, de página em página, neste
formoso volume, que vem revelar uma poetisa de raro
merecimento. HORTO será, para os que amam a linguagem
divina do verso, um desses raros livro que se leem e
relem com um encanto crescente.” (Olavo Bilac).
Outros escritores, como Chico
Xavier e Câmara
Cascudo, registraram para a posteridade o nome da
poetisa, que faleceu no dia 7 de fevereiro de 1901, aos
24 anos de idade.
Sua trajetória inspirou dissertações de mestrado e teses
de doutorado, sendo tema de campanhas humanistas e de
auxílio aos menos favorecidos.
Fontes consultadas:
Wikisource.
Instagram.
Biblioteca Espírita.