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por Roque Roberto Pires de Carvalho

 

Auta de Souza


O nome dessa moça ouço falar desde 1956, quando, no quartel, um capitão, espontaneamente, era responsável pela venda de um carnê de obras assistenciais com o nome de Auta de Souza. Porém, não perguntei de quem se tratava; apenas fiz pequeno aporte com a intenção de colaborar. Registrado o nome no computador da memória, passados 70 anos eis que estou aqui escrevendo e até mesmo atribuindo aos longevos como eu o privilégio de testemunhar e, quando possível, divulgar a importância de certos fatos, como este...

Auta de Souza nasceu em 12 de setembro de 1876, na cidade de Macaíba, estado do Rio Grande do Norte, filha de Elói Castriciano de Souza e de Henriqueta Leopoldina Rodrigues, irmã de políticos influentes no Estado potiguar.

Ficou órfã aos três anos, com a morte de sua mãe por tuberculose, e, no ano seguinte, faleceu seu pai pela mesma doença; ambos eram muito jovens. Desde a infância vivenciou grandes lições do sofrimento humano. Após a morte de seus pais, ela e seus irmãos foram criados por sua avó materna, Silvina Maria da Conceição de Paula Rodrigues, em uma chácara no Recife, onde foi alfabetizada por professores particulares. A avó, apesar de analfabeta, conseguiu proporcionar boa educação para seus netos.

Aos sete anos, sabendo ler e escrever, lia para as crianças pobres e filhos de escravos as primeiras lições de religião. Aos onze anos, foi matriculada no Colégio São Vicente de Paula, dirigido por freiras vicentinas francesas, onde aprendeu Francês, Inglês, Literatura (inclusive muita literatura religiosa), Música e Desenho. Lia no original as obras de Victor Hugo (1802-1885), Lamartine (1790-1869), Chateaubriand (1768-1848) e Fénelon (1651-1715); estudava, recitava, sendo muito influenciada por eles em sua alma poética.

Lamentavelmente, aos 14 anos, a tuberculose, mal conhecida e, na época, identificada como “dama de branco”, começa a ação devastadora e, mesmo atingida pela doença implacável, Auta se mantém firme; com seu talento e perseverança venceu a resistência dos círculos literários, cujo ambiente era predominantemente masculino.

Mesmo com essas dificuldades, conseguiu publicar seus poemas, vencendo os adversários; inclusive, ganhou o respeito e a admiração de Olavo Bilac, poeta renomado que, a seu pedido, escreveu o prefácio da 1ª edição de seu único livro, Horto, de poesias.

Assim se expressou o notável poeta:

“Encontrar entre os livros de versos (tantos, Santo Deus!) que por ahi se publicam, um livro como este, de uma tão simples e ingênua sinceridade, é coisa que surpreende e encanta. Não há nas estrofes do HORTO o labor pertinaz de um artista, transformando as suas ideias, as suas torturas, as suas esperanças, os seus desenganos em pequeninas joias; aqui a alma vibra em liberdade, sem a preocupação dos efeitos da Forma, livre da complicada teia de artifícios. Ingenuamente, comovida e meiga, essa alma de mulher vae traduzindo em versos os mundos de sensações, agora ardentes, agora tristes, que o espetáculo da vida lhes vai sugerindo. Às vezes, é um aspecto da Natureza. Mas... não convém privar o leitor das surpresa que encontrará, de página em página, neste formoso volume, que vem revelar uma poetisa de raro merecimento. HORTO será, para os que amam a linguagem divina do verso, um desses raros livro que se leem e relem com um encanto crescente.” (Olavo Bilac).

Outros escritores, como Chico Xavier e Câmara Cascudo, registraram para a posteridade o nome da poetisa, que faleceu no dia 7 de fevereiro de 1901, aos 24 anos de idade.

Sua trajetória inspirou dissertações de mestrado e teses de doutorado, sendo tema de campanhas humanistas e de auxílio aos menos favorecidos.

 

Fontes consultadas:

Wikisource.

Instagram.

Biblioteca Espírita.

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita