Rituais e práticas religiosas
Nem todos os espíritas admitem que o Espiritismo seja
uma religião, mas aqueles que o fazem garantem que se
trata de uma religião diferente, sem rituais ou práticas
exteriores. Isso porque o foco na dimensão ritualística
e cerimonial das instituições religiosas suprime a
atenção do que é essencial: a conduta ética, que inspira
o respeito e o cuidado com os semelhantes. As religiões
se valem de um viés universal humano, os rituais
coletivos, que em quase nada colaboram no
aperfeiçoamento moral.
No entanto, segundo estudos recentes, essa forma de
pensar está equivocada. Essa é a conclusão de David
DeSteno, Ph.D. em psicologia pela Universidade de Yale e
professor de psicologia na Universidade de Northeastern.
DeSteno apresenta suas conclusões no livro Como Deus
funciona. Ele coloca que ao estudar cientificamente
as questões sobre como melhorar a condição humana, ficou
surpreso ao perceber que muitas das respostas que ia
encontrando estavam em sintonia com as ideias
religiosas. Certos aspectos das práticas religiosas
tinham um impacto profundo sobre as mentes das pessoas.
Muito do que os psicólogos estavam revelando sobre como
mudar as crenças, sentimentos e comportamentos das
pessoas – de que modo as apoiar quando se entristecem,
ou ajudá-las a encontrar conexões e a felicidade –
parecia ecoar ideias e técnicas que as religiões já
usavam havia milhares de anos.
Ao longo de milhares de anos, experimentos religiosos,
realizados no contexto complicado do cotidiano e não em
laboratórios estéreis, levaram à criação do que DeSteno
chama de tecnologias espirituais – ferramentas e
processos pensados para acalmar, comover, convencer ou
afetar a mente de alguma forma. É nisso, na repetição de
orações, na imobilidade da contemplação, nas mãos unidas
para celebrar, nas danças, nos cantos, nos movimentos e
posições do corpo que (de forma real ou metafórica)
podemos ver Deus agindo.
Em essência, quase todos os rituais buscam trazer algum
tipo de mudança. Ao alterar o modo como nossas mentes
codificam e processam informações, a maneira como
movimentamos nosso corpo no espaço e em relação a outros
corpos, assim como os valores e expectativas que temos
sobre nós mesmos e sobre quem está à nossa volta, os
rituais influenciam nossas crenças, comportamentos e
elos com os outros. Ao fazer isso, ajudam-nos a
experimentar alegria, a lidar com a dor, a ter
perseverança para atingir objetivos difíceis e nos
recuperar de perdas dolorosas.
A ciência passou a reconhecer o poder especial contido
nos rituais. Experimentos recentes mostraram que até um
conjunto arbitrário de ações, quando ritualizado, pode
ajudar. Rituais inventados ajudam as pessoas a melhorar
seu autocontrole. Alguns tipos de ações podem afetar
nossos desejos e comportamentos.
Possivelmente, alguns rituais funcionam melhor que
outros. Uma espécie de “seleção natural” deve ter
ocorrido. As religiões fizeram, com o passar dos
milênios, um “controle de qualidade” das tecnologias que
têm utilidade maior.
Os rituais favorecem as conexões. Para os seres humanos,
poucos estados são piores que a solidão. Somos seres
sociais. Temos necessidade da companhia de outras
pessoas. Só conseguimos prosperar trabalhando juntos e
apoiando uns aos outros. O preço pago pela falta de
conexões com outras pessoas é alto. A solidão diminui a
imunidade, piora inflamações e aumenta a pressão
arterial. A religião, tal como muitas instituições
sociais, é capaz de combater essa dor ao oferecer às
pessoas oportunidades para ficar juntas. Elas também
conseguem criar elos significativos entre as pessoas por
meio do poder dos próprios rituais.
Afirma DeSteno que a sincronia motora – movimentação de
partes do corpo no mesmo ritmo de outra pessoa – está
presente em muitos rituais mundo afora. Às vezes é algo
como se inclinar e balançar o corpo, às vezes trata-se
de girar e dançar e, em outros casos, cantar e rezar em
uníssono. Mas, seja lá quais forem os movimentos, eles
funcionam como um indicador, para o cérebro, de que as
pessoas que participam são parte de algo maior. O que
acontece com elas é compartilhado. Uma única experiência
de movimento conjunto fez as pessoas se sentirem
suficientemente conectadas a ponto de quase triplicar a
taxa de ajuda a um completo estranho. Muitos outros
pesquisadores chegaram a resultados semelhantes.
Qualquer tipo de sincronia fazia as pessoas se sentirem
mais próximas umas das outras, confiando nos
companheiros e cooperando mais com eles, a maioria
desses efeitos foi amplificada quando a sincronia tinha
algum elemento sagrado associado a ela – isto é, quando
as pessoas entoavam cânticos de acordo com um ritual de
sua fé. A crença de que essa atividade fosse
espiritualmente significativa intensificou o impacto da
sincronia sobre a mente das pessoas. Enquanto a
capacidade de criar elos entre as pessoas é evidente, a
magnitude e a longevidade de tais elos provavelmente
serão ainda maiores quando essas práticas forem
repetidas regularmente por aqueles que participam de
cultos juntos. As religiões do mundo todo parecem ter
adotado a sincronia de forma convergente, como
ferramenta para criar conexões.
DeSteno crê que os cientistas estão descobrindo coisas
que as religiões têm compreendido e aplicado há muito
tempo. Os líderes espirituais muitas vezes sabiam – de
maneiras que nós agora conseguimos confirmar
cientificamente – como ajudar as pessoas a viver melhor.
Afirmou: os cientistas sociais subiram no bonde só
agora, querendo sentar na janelinha.
|