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por Ricardo Baesso de Oliveira

 

Rituais e práticas religiosas


Nem todos os espíritas admitem que o Espiritismo seja uma religião, mas aqueles que o fazem garantem que se trata de uma religião diferente, sem rituais ou práticas exteriores. Isso porque o foco na dimensão ritualística e cerimonial das instituições religiosas suprime a atenção do que é essencial: a conduta ética, que inspira o respeito e o cuidado com os semelhantes. As religiões se valem de um viés universal humano, os rituais coletivos, que em quase nada colaboram no aperfeiçoamento moral.

No entanto, segundo estudos recentes, essa forma de pensar está equivocada. Essa é a conclusão de David DeSteno, Ph.D. em psicologia pela Universidade de Yale e professor de psicologia na Universidade de Northeastern.

DeSteno apresenta suas conclusões no livro Como Deus funciona. Ele coloca que ao estudar cientificamente as questões sobre como melhorar a condição humana, ficou surpreso ao perceber que muitas das respostas que ia encontrando estavam em sintonia com as ideias religiosas. Certos aspectos das práticas religiosas tinham um impacto profundo sobre as mentes das pessoas. Muito do que os psicólogos estavam revelando sobre como mudar as crenças, sentimentos e comportamentos das pessoas – de que modo as apoiar quando se entristecem, ou ajudá-las a encontrar conexões e a felicidade – parecia ecoar ideias e técnicas que as religiões já usavam havia milhares de anos.

Ao longo de milhares de anos, experimentos religiosos, realizados no contexto complicado do cotidiano e não em laboratórios estéreis, levaram à criação do que DeSteno chama de tecnologias espirituais – ferramentas e processos pensados para acalmar, comover, convencer ou afetar a mente de alguma forma. É nisso, na repetição de orações, na imobilidade da contemplação, nas mãos unidas para celebrar, nas danças, nos cantos, nos movimentos e posições do corpo que (de forma real ou metafórica) podemos ver Deus agindo.

Em essência, quase todos os rituais buscam trazer algum tipo de mudança. Ao alterar o modo como nossas mentes codificam e processam informações, a maneira como movimentamos nosso corpo no espaço e em relação a outros corpos, assim como os valores e expectativas que temos sobre nós mesmos e sobre quem está à nossa volta, os rituais influenciam nossas crenças, comportamentos e elos com os outros. Ao fazer isso, ajudam-nos a experimentar alegria, a lidar com a dor, a ter perseverança para atingir objetivos difíceis e nos recuperar de perdas dolorosas.

A ciência passou a reconhecer o poder especial contido nos rituais. Experimentos recentes mostraram que até um conjunto arbitrário de ações, quando ritualizado, pode ajudar. Rituais inventados ajudam as pessoas a melhorar seu autocontrole. Alguns tipos de ações podem afetar nossos desejos e comportamentos.

Possivelmente, alguns rituais funcionam melhor que outros. Uma espécie de “seleção natural” deve ter ocorrido. As religiões fizeram, com o passar dos milênios, um “controle de qualidade” das tecnologias que têm utilidade maior.

Os rituais favorecem as conexões. Para os seres humanos, poucos estados são piores que a solidão. Somos seres sociais. Temos necessidade da companhia de outras pessoas. Só conseguimos prosperar trabalhando juntos e apoiando uns aos outros. O preço pago pela falta de conexões com outras pessoas é alto. A solidão diminui a imunidade, piora inflamações e aumenta a pressão arterial. A religião, tal como muitas instituições sociais, é capaz de combater essa dor ao oferecer às pessoas oportunidades para ficar juntas. Elas também conseguem criar elos significativos entre as pessoas por meio do poder dos próprios rituais.

Afirma DeSteno que a sincronia motora – movimentação de partes do corpo no mesmo ritmo de outra pessoa – está presente em muitos rituais mundo afora. Às vezes é algo como se inclinar e balançar o corpo, às vezes trata-se de girar e dançar e, em outros casos, cantar e rezar em uníssono. Mas, seja lá quais forem os movimentos, eles funcionam como um indicador, para o cérebro, de que as pessoas que participam são parte de algo maior. O que acontece com elas é compartilhado. Uma única experiência de movimento conjunto fez as pessoas se sentirem suficientemente conectadas a ponto de quase triplicar a taxa de ajuda a um completo estranho. Muitos outros pesquisadores chegaram a resultados semelhantes.

Qualquer tipo de sincronia fazia as pessoas se sentirem mais próximas umas das outras, confiando nos companheiros e cooperando mais com eles, a maioria desses efeitos foi amplificada quando a sincronia tinha algum elemento sagrado associado a ela – isto é, quando as pessoas entoavam cânticos de acordo com um ritual de sua fé. A crença de que essa atividade fosse espiritualmente significativa intensificou o impacto da sincronia sobre a mente das pessoas. Enquanto a capacidade de criar elos entre as pessoas é evidente, a magnitude e a longevidade de tais elos provavelmente serão ainda maiores quando essas práticas forem repetidas regularmente por aqueles que participam de cultos juntos. As religiões do mundo todo parecem ter adotado a sincronia de forma convergente, como ferramenta para criar conexões.

DeSteno crê que os cientistas estão descobrindo coisas que as religiões têm compreendido e aplicado há muito tempo. Os líderes espirituais muitas vezes sabiam – de maneiras que nós agora conseguimos confirmar cientificamente – como ajudar as pessoas a viver melhor.

Afirmou: os cientistas sociais subiram no bonde só agora, querendo sentar na janelinha.


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita