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por Rogério Miguez

 

O trabalho assistencial


Tão logo o neófito nas lides espíritas compreende o alcance da legenda “Fora da caridade não há salvação”, norteando o movimento espírita, surge intimamente o desejo de viver intensamente as muitas possibilidades da caridade, em todos os seus aspectos e alcance.

As variadas atividades doutrinárias lhe atraem e possuem o poder de satisfazê-lo, mas, consigo mesmo, percebe faltar algo para completar a sua expectativa de contribuir na divulgação do Espiritismo, não apenas pelas variadas atividades nas casas espíritas; sente ser necessário interagir com mais intimidade com as tantas e aparentemente infindáveis necessidades do povo.

Afinal, ele deseja e busca a salvação, já sabe aplicar os conceitos da caridade moral durante o seu cotidiano, mas aprende com os estudos evangélicos que a paixão do Cristo era o povo, conforme também entendeu e agiu Chico Xavier, interagindo com milhares de pessoas que o procuraram durante a sua profícua existência.

Já percorreu, avidamente, com seus olhos, os textos do capítulo XV de O Evangelho segundo o Espiritismo e se conscientizou de que precisa fazer além do que já faz: viver um pouco do dia a dia dos necessitados, talvez fora da instituição, nas muitas vertentes da área da caridade material.

São tantas bocas famintas, são tantos desabrigados, são tantas crianças sozinhas... Uma triste realidade em um planeta ainda governado quase exclusivamente pelo mais puro e cruel egoísmo. Esta praga que, não satisfeita com as mazelas que espalha, ainda faz surgir o orgulho, tão prejudicial à imensa população deste orbe de provas e expiações.

Compreende, por outro lado, não haver injustiças e, por consequência, injustiçados pelas leis divinas, muito menos desleixo dos luminares encarregados de cuidar amorosamente deste planeta. Mesmo assim, embora ciente de não existir sofrimento por acaso, possui o desejo de minorar as aflições alheias, mesmo com o pouco que puder oferecer. Sabe que o que vai dividir em termos de recursos materiais não vai estancar definitivamente as necessidades dos que padecem tantas agruras, mas poderá sentir, mesmo palidamente, o que sentiu o Cristo quando, sem cessar, escutava e participava dos muitos dilemas e infortúnios daqueles com quem esteve há dois mil anos.

Sim, pensa consigo mesmo: eu quero, eu posso, eu preciso!

Se a instituição espírita de sua preferência ainda não oferecer uma possibilidade como essa, procura alguma atividade já estabelecida, apresenta-se e inicia sua tarefa social na área escolhida.

No começo, embora ainda aprendiz deste tipo de caridade, envolve-se com afinco, pois percebe, agora com outros olhos, o que é a fome ao ofertar um prato de sopa àqueles famintos que se encontravam distantes dele, mas agora estão ao seu lado.

Feliz e realizado, deixa o trabalho ao fim do dia para retornar à sua residência, mas sua cabeça fervilha com os olhares de agradecimento dos que pôde saciar a fome, pelo menos temporariamente. Sabe que a fome não tem hora marcada para surgir e não se extingue com apenas um prato de sopa. Adormece já pensando em outro dia, quando de novo poderá sentir, mais uma vez, as alegrias proporcionadas pela caridade material.

Caso o centro espírita possua atividades nessa área, tanto melhor; basta integrar-se ao grupo, observar como é feito o trabalho e seguir em frente, seja: na costura para as roupinhas das crianças que ainda não surgiram no mundo, mas estão a caminho, desenvolvendo-se nos corpos das futuras mães; na organização e distribuição de cestas de alimentos para os assistidos, minorando as dificuldades da família; visitando instituições beneméritas que abrigam órfãos, idosos ou doentes; buscando instituições espíritas que atendem perturbados da mediunidade, os quais desconhecem a causa básica de suas visões, alucinações, tremores, insônias e medos; na atividade do bazar da pechincha, relativamente comum em centros espíritas... Há um campo imenso de trabalho, pois, na Terra, estamos quase todos incluídos na terceira ordem da escala espírita.

Entretanto, como em qualquer atividade em grupo, onde interagem Espíritos com diversas visões de vida, seja no âmbito espírita ou fora dele, logo surgem rusgas e atritos, pois o irrestrito cumprimento do dever ainda é raro nesta morada do Pai e, quando as pessoas esquecem de fazer ao próximo aquilo que gostariam que lhes fosse feito, as muitas dificuldades do cotidiano surgem naturalmente e em quantidade, umas mais graves, outras nem tanto.

A partir deste momento, e com o passar do tempo, aquele entusiasmo inicial pode começar a esmaecer. Afinal, lidar com o povo não é tarefa para qualquer um, ainda mais quando há opção religiosa diversa entre aqueles que surgem em busca do sopão.

O trabalho assistencial, invariavelmente, pede: paciência, compreensão, tolerância, mente aberta, humildade, fé... Virtudes-desafios não tão presentes nesta parcela da Humanidade universal. Ao contrário, ainda temos muito a corrigir na forma como vemos as pessoas e o mundo em que vivemos.

Questão grave que precisa ser lembrada é a de conduzir o trabalho social na casa espírita com base no Espiritismo; nada de escrúpulos inexistentes de que não se possa falar de Doutrina Espírita para crentes de outras religiões participantes da atividade, pois isso seria uma violência religiosa, afirmam alguns desavisados.

Exposições, se houver, devem tratar de Espiritismo, mesmo que os atendidos não sigam a nossa fé. Assistência social sem Espiritismo ocorre nas muitas ONGs do país e, afinal, espera-se algo mais dos espíritas.

 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita