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Fernanda Schmitt Ribeiro (foto) nasceu em
Porto Alegre (RS) e reside em Montpellier, na
França. Psicóloga clínica há 16 anos, com
graduação e mestrado em Psicologia pela UFRGS e
doutorado em Psicologia na PUC-Rio, em parceria
com a Sorbonne (Paris 5), na França. Atualmente,
concluiu uma especialização em atendimento
conjugal e familiar na ADTFA, em Marseille.
Acompanha de forma on-line o Centro Espírita
Joanna de Ângelis – (CEJA Barra), no Rio de
Janeiro, não exercendo cargo na instituição.
Respondeu à nossa entrevista sobre sua
experiência profissional e a influência do
conhecimento espírita nesse processo de auxílio
aos dramas da alma humana.
Como conheceu o Espiritismo?
Minha avó paterna era espírita e tinha
participação ativa em uma casa espírita de Porto
Alegre (infelizmente, não lembro o nome). A
partir dos 18 anos, espontaneamente comecei a
frequentar o Centro Espírita Bezerra de Menezes,
na mesma capital. Em seguida, meus pais, até
então católicos, começaram a frequentar também.
Lembro-me de que foi aos 20 anos que li O
Evangelho Segundo o Espiritismo pela
primeira vez, e então minha identificação com a
doutrina se tornou ainda maior.
E o que mais lhe chama atenção em seu conteúdo?
Fui atraída pela doutrina porque buscava
compreender a pluralidade das existências. Desde
sempre, sentia claramente que já havia vivido
muitas vidas. Quando entrei na faculdade de
Psicologia, conheci a teoria de Carl Gustav
Jung, a Psicologia Analítica, e comecei a
estudá-la em paralelo com a Psicanálise
Freudiana. Jung desenvolveu o conceito de
inconsciente coletivo e discorreu abertamente
sobre seus estudos acerca de diversas religiões,
destacando o fato de que, em algumas delas, a
reencarnação é reconhecida. Na época, isso me
levou a buscar o Espiritismo e também o Yôga,
pois eu desejava compreender tudo isso de forma
mais clara. O Espiritismo, em particular,
trouxe-me clareza não apenas sobre a
reencarnação em si, mas também sobre a noção da
evolução dos mundos habitados, a vida no mundo
espiritual, bem como o acesso a uma compreensão
mais lúcida dos motivos pelos quais passamos por
desafios para evoluirmos espiritualmente, um
melhor entendimento do conceito de karma, entre
outros.
E como foi o interesse pela Psicologia?
Meus pais contam que, desde cerca dos 6 anos de
idade, eu dizia que queria ser psicóloga. O
curioso é que, na época, não havia nenhuma
psicóloga na família ou no entorno, o que me
leva a acreditar que devo ter tido contato com
alguma profissional, talvez na escola, e que me
encantei com o propósito da profissão. Escutar
as dores alheias, as histórias e os aprendizados
dos outros, buscar compreender as diferentes
culturas e formas de viver — tudo isso sempre
foi muito natural para mim. Poder trabalhar com
a dor humana e procurar transmutá-la em
aprendizados e significado é algo que me encanta
imensamente.
Atuando profissionalmente com a Psicologia, como
a vê agora, considerando seu conhecimento
espírita?
Para mim, são conhecimentos absolutamente
complementares. Ambos, em sua essência, buscam
compreender a alma humana e auxiliar os
indivíduos a aprenderem a acolher seus processos
e desafios para, então, buscar uma evolução a
partir deles, tornando-nos ativos diante das
circunstâncias desafiadoras da vida. Inclusive,
a obra psicológica de Joanna de Ângelis, a meu
ver, serve muito a esse propósito de conectar
essas duas áreas. Acredito que, no ambiente
espírita, Joanna nos mostra que, para além de
estudarmos e termos consciência da teoria
espírita, nada disso “adiantaria” se não
trabalharmos constantemente em nossa reforma
íntima, mantendo-nos vigilantes e implicados
como seres cocriadores diante das circunstâncias
da vida e das situações que experienciamos. Da
mesma forma, ela nos auxilia a nos apropriarmos
conscientemente de nossas tendências,
implicando-nos, assim, de forma consciente, no
trabalho de transformá-las.
Seus atendimentos têm sido exclusivamente
on-line? Para brasileiros apenas ou atende
também outros países com idiomas diferentes?
Atendo brasileiros que estão não apenas no
Brasil, mas também em diversos países do mundo,
como Estados Unidos, Alemanha, Portugal, Angola,
Hong Kong e Singapura. Além disso, atendo
pacientes no país onde moro, a França, e, da
mesma forma, tenho aqui não apenas pacientes
franceses, mas também de outras nacionalidades,
como libaneses e americanos. Meus atendimentos
são realizados em português, francês e inglês.
Já vinha atendendo pacientes brasileiros de
forma 100% on-line desde 2017, quando vim para
Paris para realizar meu doutorado. Contudo,
mantive por um período um consultório físico na
França, mas recentemente também migrei meus
pacientes daqui para o atendimento remoto, de
modo que hoje trabalho integralmente on-line.
Como sente as angústias humanas?
Vejo as angústias humanas como uma experiência
intrinsecamente humana e natural. Costumo
olhá-las como mensageiras. É como se, por meio
da dor, acessássemos uma verdadeira bússola
interna, que tem o potencial de nos convidar a
olhar para aspectos da nossa alma que não estão
coerentes com nossa vida ou nossas atitudes.
Claro, esse seria o lado “solar” de lidarmos com
a angústia: por meio do acolhimento e da
compreensão de que ela nos convida a trabalhar
questões internas e, em algumas circunstâncias,
também a realizar ajustes externos. Contudo,
infelizmente, o que acontece com frequência é
que essas angústias não são acolhidas nem
“aproveitadas”. Nesses casos, o sujeito acaba
tentando abafá-las, distraindo-se de si mesmo,
muitas vezes por meio de vícios ou outros
hábitos, culpando os outros ou o contexto e, não
raro, buscando ajuda em algo milagroso, como uma
medicação não acompanhada de reflexão. Assim,
acaba-se desperdiçando a oportunidade de
aprendizado e postergando um confronto consigo
mesmo que, em algum momento, será inevitável.
Qual tem sido o fator mais preponderante nessas
angústias desses atendimentos?
Acredito que cerca de 90% dos gatilhos que levam
à busca por psicoterapia têm origem em algum
tipo de sofrimento, no qual, muitas vezes, o
paciente relata a presença de sintomas de
depressão e/ou ansiedade. Contudo, quando
olhamos para além dos sintomas, frequentemente
encontramos insatisfações nos relacionamentos de
forma geral, bem como questões relacionadas ao
trabalho e à vida cotidiana, que muitas vezes
revelam, em um nível mais profundo, uma falta de
sentido na vida.
Também é comum observar o paciente enredado em
perpetuações de traumas transgeracionais, que o
conduzem a padrões repetitivos de sofrimento,
assim como a formas de se relacionar não
saudáveis, geradoras de um nível profundo de
frustração. Por fim, destaco os vícios dos mais
diversos — incluindo a má administração da
inserção das redes sociais em nossas vidas —, o
que leva a outra causa também muito frequente:
as comparações constantes, que,
consequentemente, despertam o sentimento de
insatisfação.
Embora separando o Espiritismo no atendimento,
considerando a diversidade dos pacientes, o
conhecimento espírita a tem ajudado? Como?
O Espiritismo nos ensina que tudo o que nos
acontece, inclusive nossos equívocos, está a
serviço da nossa evolução enquanto seres
humanos. Quando temos essa compreensão,
naturalmente passamos a ver os sofrimentos e os
acontecimentos desafiadores sob uma perspectiva
mais ampla. Enquanto psicóloga, não estou em
posição de trazer ativamente o tema da
religiosidade aos pacientes. Contudo, aqueles
que naturalmente expressam algum nível de fé —
seja por meio de uma vivência religiosa ou não —
oferecem-me uma oportunidade para abordarmos
seus sofrimentos a partir de outra perspectiva.
Sempre comento com os pacientes que vivenciam a
fé de forma ativa que temos uma ferramenta a
mais para analisar suas experiências; e, nesse
caso, é uma ferramenta que muda completamente o
jogo em questão.
De sua vivência espírita, alguma recordação
marcante?
Quando eu tinha 20 anos, fui fazer um
intercâmbio na Austrália para aprender inglês.
Sempre fui muito próxima das minhas avós e
procurava telefonar com alguma frequência para
elas — na época, era necessário ir até um
orelhão para efetuar essas chamadas. Em uma
determinada semana, telefonei para minha avó
paterna, que estava muito emotiva. Naquele
período, eu trabalhava em um café enquanto não
estava estudando. Alguns dias após essa ligação,
enquanto trabalhava, comecei a sentir um cheiro
de flores muito característico e intenso. Em
seguida, visualizei a imagem de um velório e
tive a intuição de que minha avó paterna havia
desencarnado. Meu lado racional rejeitava a
ideia, mas as imagens e o cheiro das flores
tornavam-se cada vez mais fortes. Quando saí do
trabalho, liguei para minha casa, e minha mãe
confirmou que minha avó havia desencarnado,
surpreendendo a todos, pois não era algo
esperado. Naquela época, eu meditava diariamente
e estava lendo O
Evangelho Segundo o Espiritismo pela
primeira vez. Acredito que essa experiência
tenha sido um presente da espiritualidade, que
me trouxe a confirmação de tudo aquilo que eu
estava estudando, além de me permitir
despedir-me da minha avó por meio dessa
experiência.
De sua vivência psicológica com pacientes, algo
também que gostaria de relatar?
Gostaria de refletir que a dor é um convite da
vida em vários aspectos. Primeiramente, ela nos
chama a ressignificar o que aconteceu conosco e
que não podemos mudar, sabendo, contudo, que
sempre podemos acolher a nós mesmos, reconhecer
com lucidez o que se passou e, então, dar um
novo significado a essas experiências. Além
disso, acredito que a dor nunca surge para nos
ferir aleatoriamente, mas sim para nos mostrar
que ajustes se fazem necessários em nossa
caminhada — sejam eles internos ou externos, na
nossa realidade objetiva. Naturalmente, surge
então a pergunta: como lidar com essa dor?
Acredito que todas as ferramentas que nos
auxiliam no processo de autoconhecimento são
essenciais nesse caminho. Entre essas
ferramentas, destacaria especialmente a
psicoterapia e a vivência ativa da
espiritualidade.
Algo mais a acrescentar?
Falamos muito sobre dor e angústia, mas é
importante lembrar que também estamos aqui para
trazer luz para a nossa vida e para o nosso
entorno. Buscar a nossa luz interna é um
exercício diário que nos auxilia a trazer leveza
para a nossa caminhada. Para isso, é importante
lembrarmos que nunca estamos sozinhos: o mundo
espiritual está constantemente nos orientando e
acolhendo. Além disso, gosto de lembrar que
somos seres relacionais: estamos aqui para amar
e ser amados, no sentido amplo do termo. Como
diz Emmanuel, Deus ajuda o homem por meio do
próprio homem. Ou seja, nos momentos de
dificuldade, sempre podemos buscar — tanto neste
quanto no outro plano — o amparo necessário para
tornar nossa caminhada mais leve.
Suas palavras finais.
Foi uma imensa oportunidade compartilhar com
vocês um pouco de como enxergo o entrelaçamento
da Psicologia com o Espiritismo e de que forma
essas duas áreas se articulam e se complementam
no processo de autoconhecimento.
Convido todos que desejam conhecer um pouco mais
do meu trabalho a acompanharem minha página
profissional no Instagram:
@fernandaschmitt.psico.
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