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por João Márcio F. Cruz

 

Abuso sexual é planejamento reencarnatório?


O Brasil é um dos piores lugares do mundo para as mulheres. Feminicídio, relacionamentos abusivos, estupro coletivo, abusos sexuais na infância: o número de crimes cometidos contra elas é imenso. É comum utilizarmos a Doutrina Espírita para tentar explicar e compreender tais circunstâncias.

Existe uma corrente de pensamento dentro do movimento espírita que defende a ideia de que “tudo está programado”. Segundo essa visão, se uma criança de três anos de idade é abusada pelo tio, pelo pai ou por um vizinho, esse espírito precisaria passar por essa experiência para galgar saltos evolutivos. Teria sido um criminoso em outra existência e, agora, necessitaria desse “planejamento cármico” para quitar débitos diante da lei divina.

Esse tipo de argumento doutrinário é ensinado, verbalizado e estudado em nossas casas espíritas. Mas será que esclarece? Será que consola? Ou estaremos nos satisfazendo com qualquer explicação, por mais insensata que seja?

Sabemos que existe um planejamento reencarnatório. Esse planejamento seria realizado por espíritos superiores, conhecedores de genética, carma, expiações e provações. Mas um abuso sexual seria realmente uma experiência necessária para uma alma evoluir? Não existiria outro meio menos traumático para ajudar esse espírito a “quitar” suas dívidas?

Não é preciso ser especialista na área da saúde mental para saber que um abuso físico deixa sequelas emocionais, cicatrizes psicológicas e profundos traumas que comprometem toda uma reencarnação. Que tipo de espírito superior planejaria um “estupro” para uma alma? De onde tiraram que o abuso sexual torna o espírito mais humilde, menos egoísta ou mais solidário? Quem inventou essa narrativa de que “o trauma nos torna mais fortes”?

O trauma destrói a psique de uma pessoa. Depois de uma experiência traumática, o espírito sofre grande comprometimento em sua sanidade emocional e poderá necessitar de ajuda psicológica — às vezes até medicamentosa — durante a vida inteira.

Um abuso sexual atrapalha mais do que ajuda na evolução. Você acha mesmo que um espírito superior, dotado de grande evolução moral e intelectual, escolheria, para a reencarnação de uma alma, uma situação tão violenta, brutal e desumana?

Que tipo de espírito “planejaria” abusos sexuais?

Precisamos, urgentemente, rever nossos conceitos deterministas, que mais aterrorizam do que consolam. Deus é bom. A lei divina é de amor. Entretanto, existem muitas circunstâncias nesta jornada material para as quais certas explicações são piores do que a ausência delas.

Diante de crimes tão graves contra uma população vulnerável, como as mulheres, reconhecer nossa ignorância e oferecer consolo sem julgamento talvez seja uma atitude mais cristã e doutrinariamente mais fraterna.

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita