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por Eder Andrade

 

Migalha da boa vontade


A prática do amor ao próximo foi a caridade ensinada por Jesus, transmitida de geração em geração para que todos entendessem a importância da fraternidade em nosso processo de transformação moral.

A expressão bíblica que diz “fora da caridade não há salvação” procura ensinar que a mudança do nosso sentimento materialista para uma atitude altruísta, de desprendimento dos valores terrenos, só é possível por meio do exercício da caridade, aproximando-nos dos necessitados e sendo empáticos ao sofrimento do próximo.

Paulo de Tarso fala sobre a caridade e diz que é o sentimento que mais aproxima as pessoas, porque permite que nos identifiquemos com o semelhante, na proporção em que procuramos compreendê-lo e ajudá-lo.

Emmanuel nos ensina que existem dois tipos de caridade: a caridade material e a caridade moral.

A caridade material é aquela em que doamos alimentos, roupas e agasalhos aos necessitados. Já a caridade moral consiste no acolhimento afetivo, no atendimento fraterno realizado em uma conversa, procurando conhecer e tentar aliviar as dores emocionais de que o semelhante é portador.

Ambas são extremamente importantes. Existe ainda uma caridade da qual poucos falam: a caridade do esclarecimento aos sofredores, quando temos a oportunidade, em uma palestra pública ou em uma reunião doutrinária, de esclarecermos os desencarnados de que a vida continua após a morte do corpo físico.

O esclarecimento realizado nas reuniões de desobsessão liberta espíritos em sofrimento, que permanecem presos às suas formas de pensamento por muito mais tempo do que podemos imaginar. Essa é a caridade moral da consolação e do esclarecimento libertador.

Chico Xavier, ao longo de seu mandato mediúnico, procurou, por meio das psicografias, deixar-nos um grande legado de conhecimento de ordem moral, organizado por seu mentor Emmanuel. Apesar de sua missão ser de esclarecimento e consolação, procurou, sempre que possível, realizar um trabalho social, atendendo pessoas necessitadas com a distribuição de alimentos, cestas básicas, remédios, roupas e até material escolar para as crianças das famílias assistidas.

Chico Xavier procurou exemplificar o verdadeiro sentido da caridade para com o semelhante ao longo de toda a sua vida.

No livro de Marcel Souto Mayor, Chico deixou um carinhoso depoimento: na véspera do Natal, procurava famílias muito pobres na periferia de Pedro Leopoldo e buscava levar ajuda àqueles tão humildes que não tivessem condição sequer de lhe agradecer pela caridade realizada. Segundo Chico, essa seria a verdadeira caridade: ajudar aqueles que nem sequer tinham condições de dizer um “obrigado”.

Com o máximo de discrição, acompanhado de poucos amigos, Chico fazia questão de percorrer os barracos para visitar doentes pobres nos bairros da periferia, na noite de 24 para 25 de dezembro. Todo Natal, ele liderava uma comitiva formada por vários carros, repletos de cestas com alimentos, brinquedos e doces. O Papai Noel franzino, com sua peruca bem penteada e o sorriso sempre aberto, entrava nas casas e era recebido com aplausos pelos adultos. Algumas crianças cantavam “Noite Feliz” e outras músicas natalinas.¹

Entre as muitas histórias que Kardec registrou, contadas pelos espíritos, existe uma muito interessante para nossa reflexão:

“...Uma senhora, trajando roupas simples e acompanhada de uma jovem também modestamente vestida, visitava uma família necessitada que residia em um sótão de uma casa, uma mansarda. Um ambiente humilde, onde vive uma mãe cercada de crianças. O pai está no hospital e, enquanto lá permanece, a mãe não consegue, com o seu trabalho, prover as necessidades da família. Graças à boa senhora, aquelas pobres crianças não mais sentirão frio nem fome; irão à escola agasalhadas e, para as menorzinhas, o leite não secará no seio que as amamenta.

Por que tão singelo traje da senhora e da jovem? Para não insultar a miséria com o seu luxo. Por que se faz acompanhar da filha? Para que aprenda como se deve praticar a beneficência.

Certo dia, no entanto, imprevista circunstância leva-lhe à casa uma de suas protegidas, que andava a vender trabalhos executados por suas mãos. Esta última, ao vê-la, reconheceu nela a sua benfeitora.

— Silêncio! — ordena-lhe a senhora. — Não o digas a ninguém. — Falava assim Jesus.”²

A simplicidade na forma de realizar o bem refletia, por parte dela, a preocupação de não constranger a família que passava por necessidade.

Outra história bíblica interessante é a do óbolo da viúva, em que Jesus fala sobre compartilhar com os necessitados o pouco que se tem, em atenção à necessidade do semelhante. A viúva doa tudo o que possui, superando os ricos que oferecem apenas o supérfluo.

“Aqueles cuja intenção está isenta de qualquer ideia pessoal devem consolar-se da impossibilidade em que se veem de fazer todo o bem que desejariam, lembrando-se de que o óbolo do pobre, daquele que dá privando-se do necessário, pesa mais na balança de Deus do que o ouro do rico que dá sem se privar de coisa alguma.”²


Referências:

1. Maior, Marcel Souto; As Vidas de Chico Xavier (2022) — Nova edição ampliada e revisada; Ed. Planeta.

2. Kardec, Allan; O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864); Capítulo XIII — “Não saiba a vossa mão esquerda o que dê a vossa mão direita”: itens 4 (Infortúnios ocultos) e 5 (O óbolo da viúva); Ed. FEB.

3. Wikipédia (Enciclopédia Livre).


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita