Migalha da boa vontade
A prática do amor ao próximo foi a caridade ensinada por
Jesus, transmitida de geração em geração para que todos
entendessem a importância da fraternidade em nosso
processo de transformação moral.
A expressão bíblica que diz “fora da caridade não há
salvação” procura ensinar que a mudança do nosso
sentimento materialista para uma atitude altruísta, de
desprendimento dos valores terrenos, só é possível por
meio do exercício da caridade, aproximando-nos dos
necessitados e sendo empáticos ao sofrimento do próximo.
Paulo de Tarso fala sobre a caridade e diz que é o
sentimento que mais aproxima as pessoas, porque permite
que nos identifiquemos com o semelhante, na proporção em
que procuramos compreendê-lo e ajudá-lo.
Emmanuel nos ensina que existem dois tipos de caridade:
a caridade material e a caridade moral.
A caridade material é aquela em que doamos alimentos,
roupas e agasalhos aos necessitados. Já a caridade moral
consiste no acolhimento afetivo, no atendimento fraterno
realizado em uma conversa, procurando conhecer e tentar
aliviar as dores emocionais de que o semelhante é
portador.
Ambas são extremamente importantes. Existe ainda uma
caridade da qual poucos falam: a caridade do
esclarecimento aos sofredores, quando temos a
oportunidade, em uma palestra pública ou em uma reunião
doutrinária, de esclarecermos os desencarnados de que a
vida continua após a morte do corpo físico.
O esclarecimento realizado nas reuniões de desobsessão
liberta espíritos em sofrimento, que permanecem presos
às suas formas de pensamento por muito mais tempo do que
podemos imaginar. Essa é a caridade moral da consolação
e do esclarecimento libertador.
Chico Xavier, ao longo de seu mandato mediúnico,
procurou, por meio das psicografias, deixar-nos um
grande legado de conhecimento de ordem moral, organizado
por seu mentor Emmanuel. Apesar de sua missão ser de
esclarecimento e consolação, procurou, sempre que
possível, realizar um trabalho social, atendendo pessoas
necessitadas com a distribuição de alimentos, cestas
básicas, remédios, roupas e até material escolar para as
crianças das famílias assistidas.
Chico Xavier procurou exemplificar o verdadeiro sentido
da caridade para com o semelhante ao longo de toda a sua
vida.
No livro de Marcel Souto Mayor, Chico deixou um
carinhoso depoimento: na véspera do Natal, procurava
famílias muito pobres na periferia de Pedro Leopoldo e
buscava levar ajuda àqueles tão humildes que não
tivessem condição sequer de lhe agradecer pela caridade
realizada. Segundo Chico, essa seria a verdadeira
caridade: ajudar aqueles que nem sequer tinham condições
de dizer um “obrigado”.
Com o máximo de discrição, acompanhado de poucos amigos,
Chico fazia questão de percorrer os barracos para
visitar doentes pobres nos bairros da periferia, na
noite de 24 para 25 de dezembro. Todo Natal, ele
liderava uma comitiva formada por vários carros,
repletos de cestas com alimentos, brinquedos e doces. O
Papai Noel franzino, com sua peruca bem penteada e o
sorriso sempre aberto, entrava nas casas e era recebido
com aplausos pelos adultos. Algumas crianças cantavam
“Noite Feliz” e outras músicas natalinas.¹
Entre as muitas histórias que Kardec registrou, contadas
pelos espíritos, existe uma muito interessante para
nossa reflexão:
“...Uma senhora, trajando roupas simples e acompanhada
de uma jovem também modestamente vestida, visitava uma
família necessitada que residia em um sótão de uma casa,
uma mansarda. Um ambiente humilde, onde vive uma mãe
cercada de crianças. O pai está no hospital e, enquanto
lá permanece, a mãe não consegue, com o seu trabalho,
prover as necessidades da família. Graças à boa senhora,
aquelas pobres crianças não mais sentirão frio nem fome;
irão à escola agasalhadas e, para as menorzinhas, o
leite não secará no seio que as amamenta.
Por que tão singelo traje da senhora e da jovem? Para
não insultar a miséria com o seu luxo. Por que se faz
acompanhar da filha? Para que aprenda como se deve
praticar a beneficência.
Certo dia, no entanto, imprevista circunstância leva-lhe
à casa uma de suas protegidas, que andava a vender
trabalhos executados por suas mãos. Esta última, ao
vê-la, reconheceu nela a sua benfeitora.
— Silêncio! — ordena-lhe a senhora. — Não o digas a
ninguém. — Falava assim Jesus.”²
A simplicidade na forma de realizar o bem refletia, por
parte dela, a preocupação de não constranger a família
que passava por necessidade.
Outra história bíblica interessante é a do óbolo da
viúva, em que Jesus fala sobre compartilhar com os
necessitados o pouco que se tem, em atenção à
necessidade do semelhante. A viúva doa tudo o que
possui, superando os ricos que oferecem apenas o
supérfluo.
“Aqueles cuja intenção está isenta de qualquer ideia
pessoal devem consolar-se da impossibilidade em que se
veem de fazer todo o bem que desejariam, lembrando-se de
que o óbolo do pobre, daquele que dá privando-se do
necessário, pesa mais na balança de Deus do que o ouro
do rico que dá sem se privar de coisa alguma.”²
Referências:
1. Maior,
Marcel Souto; As Vidas de Chico Xavier (2022) —
Nova edição ampliada e revisada; Ed. Planeta.
2. Kardec,
Allan; O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864);
Capítulo XIII — “Não saiba a vossa mão esquerda o que dê
a vossa mão direita”: itens 4 (Infortúnios ocultos)
e 5 (O óbolo da viúva); Ed. FEB.
3. Wikipédia
(Enciclopédia Livre).
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