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A criança mimada que habita em nós
Meus amigos leitores, entre tantos afazeres que ocupam
praticamente todo o meu dia, todos os dias da semana, eu
mesma me deparei com uma situação que me fez parar a
roda do cotidiano e refletir. Por isso, resolvi
compartilhar com os queridos leitores uma reflexão sobre
os caprichos e desejos que carregamos ao longo da vida.
Sempre revelei minha idade e, ontem, na live que
mantemos semanalmente, todas as quartas-feiras, às 21
horas de Londres, no Reino Unido, chamada Spiritual
Light, pelo YouTube e Facebook, fui clara ao falar
do amor ensinado por Jesus, mas também do amor entre
casais que convivem na mesma casa por 50 anos ou mais,
dividindo experiências e conhecendo um ao outro tão bem
que a comunicação se faz pelos gestos das mãos e pelos
olhares. Conheço muitas amigas e amigos na faixa etária
dos 70 aos 80 anos que ainda têm sonhos, mas também
revelam suas birras, como uma criança. No Reino Unido, o
Dia dos Namorados é celebrado em fevereiro, enquanto no
Brasil ocorre em junho. Aqui é chamado de Valentine’s
Day.
Dizem que envelhecer é amadurecer, mas será mesmo
possível apagar totalmente os traços daquela criança
mimada que mora dentro de cada um de nós? Olho pela
janela e vejo adultos apressados, tão ocupados em
cumprir obrigações; mas basta um pequeno contratempo
para revelar, às vezes de forma desconcertante, aquele
impulso de teimosia, de querer porque quer, como se nada
mais importasse.
Carregamos conosco, escondidos sob a postura de
responsabilidade, desejos quase infantis. É o querer ser
notado, o desejo de ter sempre razão, a vontade de
ganhar a última fatia do bolo da vida. E, por vezes,
diante dos obstáculos, soltamos o velho choramingo,
ainda que em silêncio, esperando que alguém venha nos
consolar, como faziam nossos pais quando éramos
pequenos.
Talvez o segredo não seja negar essa criança, mas
aprender a conversar com ela: ouvir seus medos, entender
suas carências e, acima de tudo, ensinar-lhe que o mundo
não gira ao redor dos nossos caprichos. Crescer é
reconhecer esse lado mimado, mas também saber colocá-lo
no devido lugar. Afinal, todos temos nossas birras,
nossos desejos inconfessáveis, mas é na convivência com
eles que aprendemos a ser mais humanos.
No entanto, é fundamental que busquemos nos conhecer
cada vez mais profundamente. Amar essa criança mimada
que habita em nós é um gesto de autocompaixão, mas é
igualmente importante ajudá-la a crescer, amadurecer e
evoluir. Se não fizermos esse movimento interno,
dificilmente conseguiremos manter ao nosso lado um
parceiro, uma companheira, alguém disposto a caminhar de
mãos dadas conosco rumo a um futuro que, por sua
natureza, é sempre incerto. Afinal, não vivemos para
sempre no mesmo corpo; somos espíritos imortais em
constante aprendizado e transformação.
No fim, a criança mimada que habita em nós não é motivo
de vergonha, mas de compreensão. Ela nos lembra que, por
trás das máscaras da maturidade, ainda existe um coração
que deseja, sonha e, de vez em quando, bate o pé no
chão, esperando que alguém lhe entregue o universo
embrulhado para presente. Muitos psicólogos que
trabalham com aconselhamento na área afetiva estimulam
pessoas na faixa dos 70 anos a encontrar uma companhia
que lhes toque o coração, pois o conceito de
envelhecimento já mudou: hoje, aos 60 anos, não somos
velhos; somos maduros e responsáveis por manter a
jovialidade da alma, mesmo que o corpo exija paciência.
Aprendemos, então, a valorizar cada passo que damos,
cada noite bem dormida, cada passeio; enfim, continuamos
a valorizar a vida.
E assim, queridos leitores, vamos envelhecendo felizes,
em todas as terras de além-mar.
Elsa Rossi, escritora espírita
radicada no Reino Unido, é presidente do Allan Kardec
Study Group-Centre for Spiritist Teachings e
da União das Sociedades Espíritas Britânicas – BUSS.
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