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por Bruno Abreu

 

O que pensa que vai reencarnar?


Alguma vez ponderou nisto ou limita-se a dizer: “Eu vou reencarnar”?

Olhe para si e pergunte-se: que parte deste ser irá existir numa próxima vida? Se perceber o processo, poderá beneficiar-se dessa sabedoria.

Vamos começar por algo bem próximo, olhando para nós mesmos. Será que consegue perceber que uma grande parte de si é criada nesta vida? A língua que fala foi transmitida pela zona do globo onde nasceu; os hábitos diários foram adquiridos na infância, com a família, na adaptação ao casamento, nos resultados da gestão do seu tempo, pela influência da profissão, pela transmissão cultural, pela religião que frequenta e pelas experiências por que passou.

Quando respondemos a uma situação em nossa vida, toda esta formação, obtida nesta existência, é muito influente, por vezes decisiva.

Imagine que, numa outra vida, nasceu numa região do globo completamente diferente, por exemplo, numa zona remota da China ou numa região muçulmana isolada. Podemos afirmar que as influências acima descritas seriam completamente diferentes, criando um ser humano diferente, correto?

Podemos afirmar que a parte do ser que pertence a cada reencarnação é completamente diferente e que dela nada sobra para a vida seguinte.

Vamos chamar-lhe conhecimento: conhecimento do que sou e do que sei.

Sabemos que existe uma continuação de uma vida para outra. O que será?

As tendências que existem por detrás de todo este conhecimento, que o organizam e o utilizam da melhor forma que julgamos possível, são o que mais salta à vista no que passa de uma vida para outra.

Por exemplo: uma pessoa agressiva, movida por alguma maldade, na próxima vida não nascerá como uma boa pessoa. Uma pessoa egoísta, dominada pelas tendências do ego, que dá cada passo movida pela energia do egoísmo, não nascerá caridosa. Uma pessoa orgulhosa, que não veja em si nada de errado, continuará cega numa próxima vida.

Então, podemos afirmar que o conhecimento ficará todo para trás, mas as tendências que movimentam esse conhecimento passarão para uma próxima vida. Podemos utilizar o termo Alma, que vem do latim almus, “o que alimenta”, “o que nutre”; no meu ver, aquilo que movimenta o conhecimento de cada vida.

Podemos concluir que somos as tendências que se movimentam de vida para vida?

Isso é mais real do que o conhecimento de uma vida, pois existe em várias; movimenta-se através dos tempos, através das vidas na Terra.

Claro que esta é uma explicação muito simples, mas é real.

Siga a sua própria ponderação nestas questões; não aceite simplesmente o que lhe digo. Podemos constatar isto por nós mesmos, se nos dermos ao trabalho de “perder” um tempo que nos levará a um “ganho” de consciência.

As tendências são fortes e persistentes, difíceis de diminuir numa única vida; por isso, levamos várias reencarnações para trabalhar apenas uma má tendência.

São como raízes no ser, que permanecem de uma vida para outra, mas temos de afirmar que não são o Espírito, o ser.

Alimentam-se da energia deste, tal como a raiz da árvore se alimenta da terra, mas não são ele.

Porque afirmo que não são ele?

O ser é eterno, correto? As tendências, embora possam permanecer por muitas vidas, vão-se modificando. Então, podemos afirmar que não são eternas; logo, não são o ser.

Quando atingirmos a sabedoria, que é o completo desapego ou afastamento da ignorância, não teremos essas tendências. Na realidade, não teremos tendência alguma, pois a tendência é uma construção do passado que nos leva a organizar o conhecimento da vida em direção a algo. Podemos ver isso no orgulho, no egoísmo, na vaidade etc.

A paz não é uma tendência. Se achar que é, então o caminho para a paz, a direção para a paz, é apenas o desejo da paz, que não é a própria paz. A sede é o desejo da água, mas não é a água.

Repare: a tendência do orgulho leva-nos ao orgulho; a tendência do egoísmo leva-nos ao egoísmo. Um dia, essas tendências desaparecerão.

Quando todas as más tendências da ignorância desaparecerem, sobrará o Amor, a paz e a felicidade, que são o ser, filho de Deus, em si. O amor, a paz e a felicidade não são tendências; são a descrição dos raios de “pura luz” que o ser, “filho de Deus”, emana. Portanto, não podem ser tendências, mas sim uma realidade que brilha na ausência da ignorância.

Por isso, afirmo que o ser, o “espírito” puro, não tem tendências; brilha em sua constituição, criando harmonia por onde passa.

Chegamos à fase mais difícil para nós. Não somos o conhecimento de cada vida; não somos as tendências, pois a vida serve justamente para as ultrapassar. Então, somos o quê?

Aqui está o limite do pensamento: ele não poderá ir mais além, pois é limitado.

Quando Kardec pergunta à Espiritualidade Superior o que é o Espírito, estes respondem que, para nós, nada é, mas que, ainda assim, é algo.

Muitos de nós criam a crença de que o espírito é aquilo que permanece junto aos orbes terrestres, com corpo semelhante ao nosso. Não acham que teria sido fácil, para a Espiritualidade Superior, descrever o que é o Espírito?

Esses irmãos que permanecem junto ao orbe dos planetas são tendências apegadas ao conhecimento, materializadas, que ainda estão longe de perceber o que realmente são.

Não estão na condição de espírito, como a mãe de André Luiz estava — e isso percebe-se pela descrição que ele faz quando ela o visita —, ou como a mãe de Chico Xavier, filmada como uma luz a entrar no seu quarto.

Temos estado presos a ideias erradas, ilusões, como o Mestre chamou, pela necessidade de sermos algo físico, material. Sobre essas ideias construímos as nossas “verdades”, nas quais passamos a acreditar coletivamente, afastando-nos do caminho certo.

Após dizer que, para nós, o Espírito nada é, a Espiritualidade afirma que manteremos a individualidade, o que nos leva a imaginar o Espírito materialmente formado, pois não conseguimos perceber como individualidade aquilo que desconhecemos. Só conhecemos a individualidade através da matéria, da separação que nela existe, tornando os objetos materiais — incluindo o corpo — separados uns dos outros e, portanto, individuais.

Chegando ao fim deste texto, nesta fase de nossa caminhada, é impossível sabermos o que somos, porque utilizamos o conhecimento, o pensamento, que é limitado; mas é possível sabermos o que não somos.

Não somos o conhecimento; não somos as tendências, embora elas nos movimentem de reencarnação em reencarnação, até acontecer o desapego total.

Quando temos consciência disto, começamos a saber o que somos.

Tal como o Mestre nos indicou, o desapego é o caminho da libertação das tendências e da consciência da Verdade. O “Vigia” é a ferramenta indispensável.

 

Bruno Abreu reside em Lisboa, Portugal.

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita