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O que
pensa que vai
reencarnar?
Alguma vez ponderou
nisto ou limita-se a
dizer: “Eu vou
reencarnar”?
Olhe para si e
pergunte-se: que parte
deste ser irá existir
numa próxima vida? Se
perceber o processo,
poderá beneficiar-se
dessa sabedoria.
Vamos começar por algo
bem próximo, olhando
para nós mesmos. Será
que consegue perceber
que uma grande parte de
si é criada nesta vida?
A língua que fala foi
transmitida pela zona do
globo onde nasceu; os
hábitos diários foram
adquiridos na infância,
com a família, na
adaptação ao casamento,
nos resultados da gestão
do seu tempo, pela
influência da profissão,
pela transmissão
cultural, pela religião
que frequenta e pelas
experiências por que
passou.
Quando respondemos a uma
situação em nossa vida,
toda esta formação,
obtida nesta existência,
é muito influente, por
vezes decisiva.
Imagine que, numa outra
vida, nasceu numa região
do globo completamente
diferente, por exemplo,
numa zona remota da
China ou numa região
muçulmana isolada.
Podemos afirmar que as
influências acima
descritas seriam
completamente
diferentes, criando um
ser humano diferente,
correto?
Podemos afirmar que a
parte do ser que
pertence a cada
reencarnação é
completamente diferente
e que dela nada sobra
para a vida seguinte.
Vamos chamar-lhe
conhecimento:
conhecimento do que sou
e do que sei.
Sabemos que existe uma
continuação de uma vida
para outra. O que será?
As tendências que
existem por detrás de
todo este conhecimento,
que o organizam e o
utilizam da melhor forma
que julgamos possível,
são o que mais salta à
vista no que passa de
uma vida para outra.
Por exemplo: uma pessoa
agressiva, movida por
alguma maldade, na
próxima vida não nascerá
como uma boa pessoa. Uma
pessoa egoísta, dominada
pelas tendências do ego,
que dá cada passo movida
pela energia do egoísmo,
não nascerá caridosa.
Uma pessoa orgulhosa,
que não veja em si nada
de errado, continuará
cega numa próxima vida.
Então, podemos afirmar
que o conhecimento
ficará todo para trás,
mas as tendências que
movimentam esse
conhecimento passarão
para uma próxima vida.
Podemos utilizar o termo
Alma, que vem do latim almus,
“o que alimenta”, “o que
nutre”; no meu ver,
aquilo que movimenta o
conhecimento de cada
vida.
Podemos concluir que
somos as tendências que
se movimentam de vida
para vida?
Isso é mais real do que
o conhecimento de uma
vida, pois existe em
várias; movimenta-se
através dos tempos,
através das vidas na
Terra.
Claro que esta é uma
explicação muito
simples, mas é real.
Siga a sua própria
ponderação nestas
questões; não aceite
simplesmente o que lhe
digo. Podemos constatar
isto por nós mesmos, se
nos dermos ao trabalho
de “perder” um tempo que
nos levará a um “ganho”
de consciência.
As tendências são fortes
e persistentes, difíceis
de diminuir numa única
vida; por isso, levamos
várias reencarnações
para trabalhar apenas
uma má tendência.
São como raízes no ser,
que permanecem de uma
vida para outra, mas
temos de afirmar que não
são o Espírito, o ser.
Alimentam-se da energia
deste, tal como a raiz
da árvore se alimenta da
terra, mas não são ele.
Porque afirmo que não
são ele?
O ser é eterno, correto?
As tendências, embora
possam permanecer por
muitas vidas, vão-se
modificando. Então,
podemos afirmar que não
são eternas; logo, não
são o ser.
Quando atingirmos a
sabedoria, que é o
completo desapego ou
afastamento da
ignorância, não teremos
essas tendências. Na
realidade, não teremos
tendência alguma, pois a
tendência é uma
construção do passado
que nos leva a organizar
o conhecimento da vida
em direção a algo.
Podemos ver isso no
orgulho, no egoísmo, na
vaidade etc.
A paz não é uma
tendência. Se achar que
é, então o caminho para
a paz, a direção para a
paz, é apenas o desejo
da paz, que não é a
própria paz. A sede é o
desejo da água, mas não
é a água.
Repare: a tendência do
orgulho leva-nos ao
orgulho; a tendência do
egoísmo leva-nos ao
egoísmo. Um dia, essas
tendências
desaparecerão.
Quando todas as más
tendências da ignorância
desaparecerem, sobrará o
Amor, a paz e a
felicidade, que são o
ser, filho de Deus, em
si. O amor, a paz e a
felicidade não são
tendências; são a
descrição dos raios de
“pura luz” que o ser,
“filho de Deus”, emana.
Portanto, não podem ser
tendências, mas sim uma
realidade que brilha na
ausência da ignorância.
Por isso, afirmo que o
ser, o “espírito” puro,
não tem tendências;
brilha em sua
constituição, criando
harmonia por onde passa.
Chegamos à fase mais
difícil para nós. Não
somos o conhecimento de
cada vida; não somos as
tendências, pois a vida
serve justamente para as
ultrapassar. Então,
somos o quê?
Aqui está o limite do
pensamento: ele não
poderá ir mais além,
pois é limitado.
Quando Kardec pergunta à
Espiritualidade Superior
o que é o Espírito,
estes respondem que,
para nós, nada é, mas
que, ainda assim, é
algo.
Muitos de nós criam a
crença de que o espírito
é aquilo que permanece
junto aos orbes
terrestres, com corpo
semelhante ao nosso. Não
acham que teria sido
fácil, para a
Espiritualidade
Superior, descrever o
que é o Espírito?
Esses irmãos que
permanecem junto ao orbe
dos planetas são
tendências apegadas ao
conhecimento,
materializadas, que
ainda estão longe de
perceber o que realmente
são.
Não estão na condição de
espírito, como a mãe de
André Luiz estava — e
isso percebe-se pela
descrição que ele faz
quando ela o visita —,
ou como a mãe de Chico
Xavier, filmada como uma
luz a entrar no seu
quarto.
Temos estado presos a
ideias erradas, ilusões,
como o Mestre chamou,
pela necessidade de
sermos algo físico,
material. Sobre essas
ideias construímos as
nossas “verdades”, nas
quais passamos a
acreditar coletivamente,
afastando-nos do caminho
certo.
Após dizer que, para
nós, o Espírito nada é,
a Espiritualidade afirma
que manteremos a
individualidade, o que
nos leva a imaginar o
Espírito materialmente
formado, pois não
conseguimos perceber
como individualidade
aquilo que
desconhecemos. Só
conhecemos a
individualidade através
da matéria, da separação
que nela existe,
tornando os objetos
materiais — incluindo o
corpo — separados uns
dos outros e, portanto,
individuais.
Chegando ao fim deste
texto, nesta fase de
nossa caminhada, é
impossível sabermos o
que somos, porque
utilizamos o
conhecimento, o
pensamento, que é
limitado; mas é possível
sabermos o que não
somos.
Não somos o
conhecimento; não somos
as tendências, embora
elas nos movimentem de
reencarnação em
reencarnação, até
acontecer o desapego
total.
Quando temos consciência
disto, começamos a saber
o que somos.
Tal como o Mestre nos
indicou, o desapego é o
caminho da libertação
das tendências e da
consciência da Verdade.
O “Vigia” é a ferramenta
indispensável.
Bruno
Abreu reside em Lisboa,
Portugal. |