André Luiz, Carlos Chagas,
reencarnação e uma reflexão
Por que alguns espíritos e autores encarnados
adotavam pseudônimos, sobretudo no início do
século XX no Brasil? No caso dos autores
encarnados, a opção pelo anonimato dava-se por
uma série de fatores: desde o fato de o
Espiritismo ser uma doutrina nova e distinta do
meio social da época até a necessidade de
profissionais de destaque preservarem-se de
questionamentos e dissabores. Somava-se a isso
um Estado que não era tão laico quanto se
supunha e o longo período de ditadura vivido
pelo país. No que diz respeito aos Espíritos,
muitos usavam pseudônimos porque, como
compreendeu inteligentemente Allan
Kardec (1804–1869), não é o nome que
define o valor de uma mensagem, nem muito menos
o título e a posição de destaque na última
encarnação, mas sim o seu conteúdo.
Quando se fala em conteúdo, inclui-se o processo
de recebimento das mensagens. A literatura
espírita é farta de relatos de médiuns
descrevendo o envolvimento espiritual e a
maneira como perceberam a aproximação dos
espíritos — seja pela psicofonia, seja pela
psicografia. Há, contudo, muito material
romanceado que, na prática, não necessariamente
reflete a realidade; o médium pode ter dúvidas,
e o Espírito pode encontrar dificuldades para se
comunicar, entre outras situações. Apesar dessa
complexidade, o meio espírita insiste em afirmar
que “André Luiz” foi o pseudônimo de Carlos
Chagas (1878–1934) no Plano Espiritual.
Passa-se tanta segurança nessa afirmação quanto
aqueles que acreditam no contrário. É
praticamente o mesmo imbróglio sobre a
reencarnação de Chico
Xavier (1910–2002): alguns insistem até
hoje que ele seria a reencarnação de Allan
Kardec, enquanto uma boa parcela entende
que não.
Para refletir sobre essa questão, podemos
recorrer à Taxonomia
de Bloom — ou taxonomia dos objetivos
educacionais. Essa estrutura tem sido utilizada
para classificar as possibilidades de
aprendizado em três grandes dimensões: a cognitiva (intelectual),
a afetiva (sensibilidade e valores) e a psicomotora (execução
de tarefas). Sua estrutura é piramidal,
assemelhando-se à “teoria das necessidades” do
psicólogo Abraham
Maslow (1908–1970).
Segundo a Taxonomia de Bloom, atinge-se um nível
superior apenas após a consolidação do anterior.
O nível mais básico é o “lembrar”, quando o
aprendiz recupera a informação da memória para
identificar ou definir um conteúdo. Seguem-se os
níveis de entender, aplicar, analisar e avaliar,
até o patamar mais sofisticado: o “criar”. A
maneira como o meio espírita explica a
identidade de espíritos e a reencarnação é, na
maioria das vezes, preocupante. Em uma palestra
on-line, uma pessoa relativamente conhecida
afirmou, categoricamente, que André Luiz é
Carlos Chagas. Para um estudo realmente
específico e esclarecedor — pois utilizar a
palavra “profundo” seria inadequado neste caso
—, seria necessário apresentar evidências, o que
daria respaldo científico à hipótese.
Do ponto de vista do aprendizado, ao saber que
André Luiz foi Carlos Chagas, se o aprendiz
apenas memoriza essa informação, o máximo que
fará será resgatar o dado e repeti-lo. Isso não
acrescenta aprendizado real. Mesmo para quem
estuda o Espiritismo e conhece sua literatura,
dificilmente conseguirá aplicar tal conteúdo de
forma transformadora em sua vida. Isso ocorre
por falhas no processo, a começar pela ausência
de evidências. O argumento utilizado — pasmem —
para justificar nomes de famosos reencarnados é
o de que “alguém ouviu” ou “alguém estava lá”.
Acrescentam-se as credenciais de quem viu (se é
juiz, médico ou engenheiro) para tentar validar
o pensamento, mas isso não torna a informação
verdadeira.
Hernani Guimarães Andrade (1913–2003),
engenheiro de profissão e cientista espírita por
vocação, debruçou-se por décadas sobre casos de
possíveis reencarnações. Ele manteve um
intercâmbio profícuo com o Dr. Hemendra
Nath Banerjee (1929–1985), que investigou
mais de mil casos de crianças com supostas
memórias de vidas passadas. Na obra Vida
Pretérita e Futura (Ed. Nórdica,
1979), Banerjee apresenta o rigor científico e o
cuidado ético que o tema exige. É lamentável que
palestrantes reduzam todo esse universo de
estudos sobre identidade e reencarnação à
expressão: “foi fulano quem disse”.
Evidentemente, não é apenas um fator, como o
tempo de convivência com uma pessoa, que permite
concluir sobre a identidade ou a reencarnação de
um espírito. Há uma diferença entre o que de
fato aconteceu e a maneira como a pessoa
entendeu o ocorrido. Por isso, pesquisadores
como Andrade e Banerjee informavam, em seus
trabalhos, tratar-se de sugestões, pois
reuniam dados que indicavam a reencarnação após
eliminar outras interpretações, conforme o rigor
acadêmico e o método de Kardec nas Revistas
Espíritas. Se, ainda assim, o
indivíduo insistir em tais afirmações, resta-nos
buscar evidências do terceiro nível da pirâmide
de Bloom: a capacidade de aplicar essa
informação de tal forma que ela modifique nosso
entendimento.
De que maneira a pessoa aplica esse conteúdo no
seu dia a dia? O que essa informação representa
em termos de conhecimentos novos que auxiliem a
implementar melhorias no cotidiano? A resposta
costuma ser: nada. Podemos ampliar o
leque para compreender melhor como se
identificam espíritos na casa espírita que
frequentamos. A identificação está restrita
apenas ao médium experiente que “sabe” quem é o
espírito? A literatura espírita possui diversos
exemplos de médiuns que perderam a referência e
se embrenharam em dramas pessoais e obsessões.
Antes de confiarmos cegamente na identidade de
um Espírito, estudemos como seria possível
identificá-lo e, acima de tudo, se é realmente
necessário conhecer sua identidade para que um
conhecimento novo e transformador seja
desenvolvido pelo aprendiz.