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por Mauro Kwitko

 

Coragem


É preciso coragem para voltar para a Terra, é preciso coragem para aproveitar a encarnação e é preciso coragem para voltar para nossa Casa Espiritual como um vencedor. Existem vários momentos em que precisamos demonstrar se somos ou não vencedores, iniciando quando, no Plano Astral da Terra, descemos para este chão a fim de passarmos algumas décadas aqui, novamente. A maior parte das reencarnações é decidida por nós mesmos (livre-arbítrio pré-reencarnatório), com o consentimento do Divino, estabelecida por nossas concepções a respeito do que entendemos por merecimento, resgate, retorno, e também bastante influenciada pelos cordões energéticos com outros seres que já haviam encarnado anteriormente.

Uma parcela de nós, seres encarnados, veio de um nível superior do Plano Astral da Terra; lá estávamos antes de descer novamente. Outra parcela estava em um plano astral intermediário antes de voltar; outra, em um nível inferior no plano astral; outros estavam vagando pela Terra; outros vieram diretamente do Umbral para cá. De acordo com o nosso nível consciencial antes de reencarnar — que implica onde estávamos, como raciocinávamos, como nos sentíamos, o que fazíamos —, cada encarnação será peculiar a nós mesmos, desde a infância até o final da vida, sujeita aos nossos pensamentos, sentimentos, hábitos e conduta, ou seja, ao nosso livre-arbítrio durante a encarnação. Acima de tudo, o Divino e Suas Leis, eternas, imutáveis, inflexíveis, no sentido do Bem. Não existe negociação com essa Eterna Neutralidade; apenas o arrependimento profundo, verdadeiro e sincero pode comovê-La.

Quando estamos no Plano Astral superior, depois de um tempo de estadia, com a predominância de elevados valores éticos e morais, é preciso ter coragem para voltar para cá. A nossa volta atende aos nossos desejos ou ao que os Instrutores Espirituais nos convencem ser o melhor para nós. Sair de lá, de um modo de vida adulto, fraterno e desapegado, para vir para a Terra — um modo de vida infantojuvenil, egocêntrico, autocentrado — exige coragem, pois sabemos que, aqui chegados, as memórias de nossas encarnações passadas e das passagens pelo Plano Astral da Terra, incluindo a anterior, quando orquestramos nossa nova descida, ficarão escondidas em nosso inconsciente, ocultas e, pelo rebaixamento de nossa frequência vibratória, estaremos sendo conduzidos prioritariamente pelos nossos instintos, dominados por nossas inferioridades, ambas de maior ou menor intensidade, de acordo com o grau de cada um.

É preciso ter coragem para colocarmos nossas superioridades sobrepujando tudo isso. Pessoas que já alcançaram um bom grau evolutivo de seu ego enfrentarão as circunstâncias terrenas de maneira compatível com esse grau; pessoas com um grau mediano de desenvolvimento, de maneira alinhada a esse nível; pessoas com grau inferior do ego lidarão de modo correspondente. Isso aplica-se à infância e a todo o decorrer de nossa vida terrena: é o raciocínio que, em cada um de nós, determinará a nossa trajetória. Raciocínio é a maneira pela qual cada um de nós enxerga, sente e reage aos fatos da vida, desde o útero até a falência do corpo, que chamam equivocadamente de “morte”, quando é apenas a saída do veículo que criamos para nos tornarmos visíveis e podermos interagir com os demais seres visíveis.

Quando a infância que co-criamos foi boa, sem maiores percalços, não é necessária tanta coragem para vivenciá-la, pois os fatos não são traumáticos o suficiente para exigir de nós uma postura de força e resiliência. Mas são poucas as infâncias estruturadas dessa maneira; a maioria constitui-se de uma sequência de fatos e acontecimentos que exigem muita coragem para permanecermos, mais ou menos, alinhados à nossa essência espiritual, principalmente porque nos esquecemos dela nessa fase da vida e, em muitas pessoas, durante a vida toda.

Quem atende pessoas em consultório, escutando suas histórias de vida, sabe que a grande maioria dos relatos de suas infâncias é permeada por traumas, tristeza, mágoa, rejeição, inconformidade, raiva e críticas em relação às circunstâncias e aos personagens daquela fase. Percebe-se, então, o nível de coragem de cada um ao lidar com os fatos, com o que aconteceu — muitas vezes desde o útero —, como metabolizou isso e como isso condicionou sua saúde emocional e mental, geralmente para o resto da vida.

Algumas pessoas relatam fatos extremamente traumáticos e dolorosos, mas não permitem que isso prejudique substancialmente a sua trajetória de vida; outras relatam fatos que, para nós, aparentemente não são tão graves, e isso lhes provoca consequências sérias, muitas vezes originando sintomas psicopatogênicos em nível emocional e mental, e as consequentes manifestações físicas (“doenças”) nos órgãos e partes do corpo correspondentes.

O que diferencia umas pessoas das outras? Duas coisas: o nível evolutivo do seu ego e o grau de sua coragem, que atualmente se chama “resiliência”, isto é, a capacidade maior ou menor de lidar com fatos traumáticos e situações adversas. Na verdade, o nível do ego e a resiliência são duas faces da mesma moeda; uma pessoa de ego infantil reagirá desse modo aos fatos da vida; uma pessoa de ego adolescente, de outro modo; uma pessoa de ego adulto, como adulto; e quem já atingiu o nível superior de ego, com a sabedoria inerente a esse grau. Cada um desses níveis — infantil, adolescente, adulto e ancião — apresenta subníveis superior e inferior, e é isso que determinará maior ou menor aproveitamento da encarnação, no sentido evolutivo.

Para evoluirmos o nível do nosso ego, é preciso coragem. Essa coragem refere-se a observar, em nós mesmos — em nossos pensamentos, sentimentos, posturas e hábitos —, o que é inferior, o que aflora diante dos fatos da vida, tenham sido co-criados por nós ou resultem do livre-arbítrio durante a encarnação. Muitas vezes programamos fatos e circunstâncias para percebermos o que temos de inferior em nosso ego e, percebendo, procurarmos elevar o seu nível; outras vezes, o que acontece é o que nossos Amigos Espirituais chamam de “coisas da Terra”, que não estavam programadas, mas foram criadas pelo direito que cada um tem de agir, para o bem ou para o mal, durante a vida.

Não somos meros robôs manipulados pelo destino; somos como atores que entram no palco para representar o nosso papel, mas sabendo que nós e os demais atores podemos improvisar. Em uma sociedade humana ainda de nível infantojuvenil, os Espíritos nesse grau não necessitam de tanta coragem, pois são enfeitiçados por um sistema que visa mantê-los nesse nível de entendimento e atitudes. A coragem torna-se mais necessária quando o nosso ego já é adulto ou ancião, pois não é fácil ser diferente da maioria: é mais cômodo ser igual ou parecer igual.

Como o sistema é dominado por um número restrito de Espíritos de ego adolescente, que vivem para beneficiar-se e não para beneficiar os demais, para acumular bens materiais e não para distribuir, essa minoria — que está sempre no poder ou perto dele — não tem interesse em elevar o grau consciencial das pessoas; pelo contrário, busca mantê-lo em um nível infantil e adolescente, oferecendo atrativos compatíveis com esse grau.

Nesse panorama, os Espíritos de ego adulto geralmente embarcam na postura de criticar, indignar-se e irritar-se, o que pode levar a uma atitude positiva, negativa ou a uma mistura de ambas. O risco é cair na raiva, na rigidez e no enfrentamento, que até podem, aparentemente, dar certo, mas, com frequência, transformam-se em disputas entre o “bem” e o “mal”. Muitas vezes, o “bem” vence, mas, com o tempo, transforma-se no próximo “mal”, e então surge outro “bem” para enfrentá-lo.

Os Espíritos de ego adulto devem ter a coragem de desenvolver a indignação pacífica, dizer “sim” quando é sim, “não” quando é não, manter-se íntegros e coerentes com seu grau evolutivo, aproximando-se cada vez mais do nível ancião do ego, entendendo e acolhendo os Espíritos de nível inferior, inclusive aqueles que detêm o poder, muitas vezes acometidos de uma miopia existencial que os faz enxergar apenas o que gira em torno do próprio umbigo.

A compreensão resiliente, a paciência ativa, a manutenção dos verdadeiros valores morais, o seguir sempre em frente, alinhado aos conceitos espirituais de paz, harmonia e fraternidade, podem mudar o mundo. A raiva, a agressividade e a falta de amor podem até funcionar por um tempo, mas não persistem nem produzem bons frutos; acabam por originar novas lutas, novos enfrentamentos, novas disputas. Assim vem sendo desde sempre: em vez da união, a desunião; em vez de dar as mãos, fechar os punhos; em vez de sorrir, cerrar os dentes.

É preciso ter coragem para ser pacífico e vencer alinhado ao Bem.


Mauro Kwitko é médico, escritor, fundador e presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia Reencarnacionista (ABPR).

 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita