Os males coletivos do comportamento avaro
O Censo de 2022 do IBGE traz a impressionante informação
de que os cristãos — somados católicos, evangélicos e
espíritas — já representam 85,40% da população em nosso
país, enquanto, no planeta, alcançam 31,2%. Ou seja, a
proporção de professantes do Cristianismo em nosso solo
é absolutamente esmagadora quando cotejada com o índice
mundial.
Posto isto, cabe sempre destacar que a denominação de
cristão implica albergar, no imo d’alma, uma série de
duríssimas e desafiadoras obrigações. Como explica o
eminente Espírito Emmanuel, na obra Vinha de Luz (psicografia
de Francisco Cândido Xavier):
“Aceitar a tutela de Jesus e marchar, em companhia
d’Ele, é aprender sempre e servir diariamente, com
renovação incessante para o bem infinito, porque o
trabalho construtivo, em todos os momentos da vida, é a
jornada sublime da alma, no rumo do conhecimento e da
virtude, da experiência e da elevação.”
A mesma entidade espiritual ainda adverte que “cristãos
que não aproveitam o caminho do Senhor para alcançarem a
legítima prosperidade espiritual são criaturas
voluntariamente condenadas à estagnação”.
Retomo o assunto tendo-se em vista o quadro geral
observável em nossa nação que, como acima aludido,
identifica-se majoritariamente como cristã, mas está
muito longe de observar os princípios e diretrizes
legados pelo Senhor. Para ilustrar o raciocínio, creio
que todos já perceberam que os índices inflacionários
oficiais não refletem exatamente as variações de preços
e reajustes encontrados pelas pessoas em suas compras em
supermercados, feiras ou na contratação de serviços de
qualquer natureza. Não estou sugerindo, com isso, que os
índices oficiais sejam manipulados. Longe disso, pois,
ao que me consta, eles apresentam uma metodologia
própria, baseada em médias e atrelada a certos itens que
podem, ou não, representar a realidade de consumo dos
cidadãos.
Entretanto, quem já não teve o extremo dissabor de se
sentir lesado ao contratar um serviço dentário, de
pedreiro, eletricista, conserto de carro, reparo de
eletrodoméstico, aquisição de um remédio em farmácia de
manipulação e assim por diante? Mais assustadoras ainda
são as importâncias cobradas para tais serviços quando
comparadas com o valor do salário mínimo vigente. Aliás,
os índices que medem a inflação de serviços já atingiram
um patamar bem superior ao de alimentos, por exemplo.
Notem que estou me referindo apenas e tão somente a
fatos ordinários, que constituem o pano de fundo da vida
da maioria dos cidadãos. Não sem razão, aliás, nas
grandes cidades brasileiras exala uma psicosfera muito
negativa, em decorrência da crescente insegurança e
dureza da vida. Ou seja, trata-se de uma percepção
paradoxal, considerando nossa suposta adesão ao
cristianismo, que traça regras muito claras em termos de
conduta geral. No entanto, o maior paradoxo reside no
fato de que adotamos, em termos coletivos, um
“comportamento avaro”, conforme expressão do Espírito
Manoel Philomeno de Miranda, contida no livro No Rumo
do Mundo da Regeneração (psicografia de Divaldo
Franco).
Para o referido mentor espiritual, “a faina para
usufruir comodidades, não poucas vezes, leva ao tormento
do abuso do poder, da indiferença pelos sofrimentos
existentes e do desrespeito aos deveres que a vida impõe
a todos os seus membros” (ênfase minha). Em resumo,
segundo ele, “há fantasmas que apavoram em toda parte”.
Destaca-se aí, indubitavelmente, pelas razões acima
expostas, a lamentável conduta avara, na qual os
indivíduos, na ânsia de ganhar mais e mais, exploram —
sem dó ou misericórdia — os seus semelhantes, que se
tornam, portanto, suas vítimas. Um claro sinal de tal
distorção é o crescente nível de endividamento da
população brasileira, que já não consegue ganhar nem
mesmo para a sua sobrevivência.
De modo geral, as lições de comportamento cristão mais
elementares estão sendo colocadas de lado devido à
deformação moral dos indivíduos, principalmente daqueles
que se encontram, circunstancialmente, em posição mais
privilegiada. Por essa razão, adverte Emmanuel, em Palavras
da Vida Eterna (psicografia de Francisco Cândido
Xavier): “Não te iludas, assim, fixando-te
exclusivamente em afirmações labiais de fé no Senhor,
sem adesão do próprio esforço ao trabalho edificante que
nos foi reservado”.
Como sabemos, trava-se uma intensa batalha entre luz e
trevas no mundo, sobretudo devido à insipiência humana.
No particular aspecto aqui enfocado, Jesus foi muito
enfático ao nos recomendar que evitássemos a avareza,
“porque a vida de qualquer não consiste na abundância do
que possui” (Lucas, 12:15). E o apóstolo Paulo de Tarso
ainda complementou, com muito acerto: “Porque o amor ao
dinheiro é a raiz de toda a espécie de males” (I
Timóteo, 6:10).
Tendo a sagrada oportunidade de desfrutarmos da romagem
terrena para o nosso aperfeiçoamento moral, seria
pertinente perguntarmo-nos diariamente o que temos feito
dos dons que Deus nos concedeu. Estão sendo eles usados
com justiça e equilíbrio no que concerne às necessidades
dos nossos irmãos? Para o nosso próprio bem, seria
altamente providencial que não sucumbíssemos à ganância
ou à avareza — comportamentos, aliás, claramente
reprovados por Jesus.
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