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por Mário Frigéri

O segredo das águas


Há imagens que atravessam os séculos não apenas por sua beleza, mas pela força silenciosa de suas lições. Certas paisagens, quando contempladas com sensibilidade, deixam de ser simples cenários geográficos para se tornarem verdadeiros espelhos da condição humana. Nelas, a natureza parece falar uma linguagem moral, oferecendo ao espírito atento sugestões que ultrapassam o visível e alcançam o campo das escolhas íntimas.

A tradição espiritual, especialmente aquela que se nutre das páginas do Evangelho, sempre encontrou nesses quadros naturais um campo fértil de ensinamentos. O ambiente onde viveu o Cristo, com seus contrastes marcantes, tanto acolheu os acontecimentos de sua jornada terrena quanto serviu de base para reflexões que permanecem atuais. Há, nesses contrastes, uma pedagogia sutil, que convida o homem a observar, comparar e, sobretudo, compreender.

É nesse espírito de observação elevada que se apresenta a composição a seguir. Nela, a paisagem se converte em argumento, e o fenômeno natural se transforma em símbolo. Ao leitor, caberá não apenas percorrer seus versos, mas permitir que deles emerja uma reflexão serena e profunda sobre os caminhos que escolhemos trilhar — e sobre aquilo que fazemos com o que recebemos ao longo da vida.

 

HÁ DOIS MARES NA PALESTINA

 

Na Palestina há dois mares

Com destinos singulares:

Um – o Mar da Galileia –,

É por si uma epopeia.

Na sua linfa piscosa

Pulsa a vida dadivosa.

 

Luxuriantes folhagens

Emolduram suas margens.

Árvores jovens, felizes,

Alastram suas raízes

Pelo meio das taboas,

Sorvendo-lhe as águas boas...

 

Crianças brincam na praia

Enquanto a tarde desmaia.

Também no tempo do Cristo

Elas já faziam isto.

 

Jesus amava esse mar...

Muita vez a contemplar

A multidão que o premia,

Lindas estórias tecia.

Não longe desse redil

Alimentou cinco mil...

 

Em derredor do lugar

Os homens erguem seu lar,

Assim como os passarinhos

Constroem ali os seus ninhos.

 

Esse mar deve a existência

À permanente afluência

Do Rio Jordão, que declina

Duma distante colina.

 

Suas águas borbulhantes

Singram prados verdejantes.

Irisado pelo Sol,

Coleia o casto lençol

Para o sul e, sem parar,

Vai preencher outro mar.

 

Esse outro mar – o Mar Morto –

É tudo, menos um horto.

Peixes ali não se agitam

Nem as folhagens crepitam.

Não há risos infantis

E os ventos são hostis.

 

No céu não se ouve um pio

E no ar pesa o bafio.

De suas águas austeras

Não bebem homens nem feras.

Tendo o viajor opção,

Demanda logo outro chão.

 

Por que são tão diferentes

Esses dois mares parentes?

 

O Jordão não é a causa:

Ele despeja, sem pausa,

Suas águas salutares

Na bacia dos dois mares.

Nem o clima nem o chão

Provoca tal distinção.


Eis a razão: ao jorrar

O rio no primeiro mar,

Esse mar logo deságua

No Jordão a sua água.

Para cada gota entrante,

Outra gota segue avante.

Esse receber e dar

É que o torna salutar.

Esse dar e receber

É que o faz juvenescer.

 

O Mar Morto é diferente:

Ele represa a corrente,

Retendo-a com avareza,

Como se fosse uma presa.

 

A água é salgada e choca,

Não se doa, não faz troca.

E ficando apodrecida,

Se torna imprópria à vida.

 

Esta é a diferença:

O primeiro mar compensa

O que recebe e o que doa,

Na lei do Bem, que abençoa.

No outro mar vige o abismo

Do mais pétreo egoísmo.

 

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Iguais a esses dois mares

De águas ruins e boas,

Também na Terra, aos milhares,

Há dois tipos de pessoas...


Nota do Autor: Poema inspirado no artigo “Há dois mares”, 
de Bruce Barton, in Seleções do Reader’s Digest, out/46, p. 44.

 

Mário Frigéri é poeta, escritor, autor e youtuber com a mente e o coração voltados para o esplendor do Evangelho e da Doutrina Espírita. Campinas-SP.
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita