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O segredo das águas
Há imagens que atravessam os séculos não apenas por sua
beleza, mas pela força silenciosa de suas lições. Certas
paisagens, quando contempladas com sensibilidade, deixam
de ser simples cenários geográficos para se tornarem
verdadeiros espelhos da condição humana. Nelas, a
natureza parece falar uma linguagem moral, oferecendo ao
espírito atento sugestões que ultrapassam o visível e
alcançam o campo das escolhas íntimas.
A tradição espiritual, especialmente aquela que se nutre
das páginas do Evangelho, sempre encontrou nesses
quadros naturais um campo fértil de ensinamentos. O
ambiente onde viveu o Cristo, com seus contrastes
marcantes, tanto acolheu os acontecimentos de sua
jornada terrena quanto serviu de base para reflexões que
permanecem atuais. Há, nesses contrastes, uma pedagogia
sutil, que convida o homem a observar, comparar e,
sobretudo, compreender.
É nesse espírito de observação elevada que se apresenta
a composição a seguir. Nela, a paisagem se converte em
argumento, e o fenômeno natural se transforma em
símbolo. Ao leitor, caberá não apenas percorrer seus
versos, mas permitir que deles emerja uma reflexão
serena e profunda sobre os caminhos que escolhemos
trilhar — e sobre aquilo que fazemos com o que recebemos
ao longo da vida.
HÁ DOIS MARES NA PALESTINA
Na Palestina há dois mares
Com destinos singulares:
Um – o Mar da Galileia –,
É por si uma epopeia.
Na sua linfa piscosa
Pulsa a vida dadivosa.
Luxuriantes folhagens
Emolduram suas margens.
Árvores jovens, felizes,
Alastram suas raízes
Pelo meio das taboas,
Sorvendo-lhe as águas boas...
Crianças brincam na praia
Enquanto a tarde desmaia.
Também no tempo do Cristo
Elas já faziam isto.
Jesus amava esse mar...
Muita vez a contemplar
A multidão que o premia,
Lindas estórias tecia.
Não longe desse redil
Alimentou cinco mil...
Em derredor do lugar
Os homens erguem seu lar,
Assim como os passarinhos
Constroem ali os seus ninhos.
Esse mar deve a existência
À permanente afluência
Do Rio Jordão, que declina
Duma distante colina.
Suas águas borbulhantes
Singram prados verdejantes.
Irisado pelo Sol,
Coleia o casto lençol
Para o sul e, sem parar,
Vai preencher outro mar.
Esse outro mar – o Mar Morto –
É tudo, menos um horto.
Peixes ali não se agitam
Nem as folhagens crepitam.
Não há risos infantis
E os ventos são hostis.
No céu não se ouve um pio
E no ar pesa o bafio.
De suas águas austeras
Não bebem homens nem feras.
Tendo o viajor opção,
Demanda logo outro chão.
Por que são tão diferentes
Esses dois mares parentes?
O Jordão não é a causa:
Ele despeja, sem pausa,
Suas águas salutares
Na bacia dos dois mares.
Nem o clima nem o chão
Provoca tal distinção.
Eis a razão: ao jorrar
O rio no primeiro mar,
Esse mar logo deságua
No Jordão a sua água.
Para cada gota entrante,
Outra gota segue avante.
Esse receber e dar
É que o torna salutar.
Esse dar e receber
É que o faz juvenescer.
O Mar Morto é diferente:
Ele represa a corrente,
Retendo-a com avareza,
Como se fosse uma presa.
A água é salgada e choca,
Não se doa, não faz troca.
E ficando apodrecida,
Se torna imprópria à vida.
Esta é a diferença:
O primeiro mar compensa
O que recebe e o que doa,
Na lei do Bem, que abençoa.
No outro mar vige o abismo
Do mais pétreo egoísmo.
...........................................
Iguais a esses dois mares
De águas ruins e boas,
Também na Terra, aos milhares,
Há dois tipos de pessoas...
Nota do Autor: Poema inspirado no artigo “Há dois
mares”, de
Bruce Barton, in Seleções do Reader’s Digest, out/46, p.
44.
Mário Frigéri é poeta, escritor, autor e
youtuber com a mente e o coração voltados para o
esplendor do Evangelho e da Doutrina Espírita.
Campinas-SP.
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