Entrevista

por Orson Peter Carrara

Aspectos relativos à  influência da música na harmonia humana


Musicoterapeuta formado pela Faculdade de Artes do Paraná (de Curitiba), atividade a que se dedica profissionalmente, Lucas Augusto Botós (foto) nasceu e reside em Catanduva (SP). Vincula-se à União Espírita Missionários da Luz, na mesma cidade, com o cargo de vice-dirigente e facilitador de estudos doutrinários. Entrevistamo-lo sobre sua vivência espírita, aliada à sua formação acadêmica profissional.

 

Como conheceu o Espiritismo?

Minha avó materna era adepta do Espiritismo e, à época em que eu cursava a faculdade, meu pai já havia desencarnado. Diante disso, ela perguntou se eu teria interesse em receber possíveis mensagens dele através da psicografia do médium Francisco do Espírito Santo Neto (Quico). Dirigimo-nos, então, à Sociedade Espírita Boa Nova, na cidade de Catanduva, onde, para minha imensa emoção, recebi uma carta psicografada de meu pai, composta por 17 páginas. A partir desse momento, meu interesse pela Doutrina Espírita intensificou-se significativamente. Desde então, passei a estudar com mais dedicação seus princípios e jamais deixei de seguir os ensinamentos de Jesus, à luz das obras de Allan Kardec.

E como tem sido a experiência de palestrar – preparo do tema, visita às instituições e interações com o público?

A experiência de palestrar tem sido profundamente enriquecedora e transformadora para mim. O preparo dos temas ocorre com estudo prévio, reflexão espiritual e sensibilidade, as necessidades atuais, buscando sempre alinhar conteúdo com os ensinamentos do mestre Jesus. As visitas às instituições espíritas representam oportunidades valiosas de aprendizado e troca, pois, cada casa possui sua própria dinâmica e vibração. Conhecer novas cidades e pessoas diferentes amplia minha visão e fortalece o sentimento de fraternidade. As reações do público costumam ser acolhedoras e tocantes, especialmente quando a música se faz presente. Quando possível, toco canções que exaltam os ensinamentos de Jesus permitindo acessar o coração dos ouvintes de forma suave e profunda. A interação ocorre de maneira espontânea, muitas vezes marcada por emoção e gratidão. Cada palestra se torna, assim, um encontro de almas.

Como musicoterapeuta, o que gostaria de dizer da influência da música no contexto psicoemocional do ser humano?

Como musicoterapeuta, compreendo a música como uma poderosa ferramenta de equilíbrio psicoemocional. Ela atua de forma direta sobre as emoções, favorecendo a expressão de sentimentos muitas vezes difíceis de serem verbalizados. No contexto terapêutico, a música auxilia na redução da ansiedade, no alívio do estresse e na promoção do autoconhecimento. Seus estímulos sonoros alcançam memórias, despertam afetos e contribuem para a reorganização emocional do indivíduo. Além disso, a música fortalece vínculos, amplia a sensibilidade e favorece estados de acolhimento e bem-estar. Quando utilizada de maneira consciente e ética, torna-se um valioso recurso de transformação interior.

Nas terapias, qual ou quais as necessidades mais expressivas apresentadas pelos pacientes? Medo? Culpa? ou outras? E como a música pode influenciar nisso?

Tenho bastante contato com profissionais terapeutas que atuam em diversas linhas. Nas terapias, as necessidades mais expressivas apresentadas pelos pacientes realmente costumam estar relacionadas ao medo, à ansiedade, à culpa, porém, sentimentos como insegurança depressão, descontrole emocional. Muitos trazem também dores ligadas a perdas, dificuldades de autoestima e desafios nos relacionamentos. A música atua como um canal facilitador para acessar essas emoções de forma segura e acolhedora. Por meio dos sons, ritmos e melodias, o paciente consegue expressar conteúdos internos que, muitas vezes, não consegue traduzir em palavras. A música auxilia no relaxamento, na ressignificação de experiências e no fortalecimento emocional. Dessa forma, contribui para o equilíbrio psicoemocional e para o processo de cura interior.

E falando sobre ritmos, estilos, autores, quais os mais preferidos? E como isso atua em favor do paciente?

Na musicoterapia, não há um único ritmo, estilo ou autor universalmente preferido, pois a escolha musical é sempre centrada no paciente e em sua história de vida, o que chamamos de ISO musical. Os estilos mais utilizados são aqueles que despertam identificação, segurança emocional e memórias afetivas positivas, podendo variar entre música clássica, popular, instrumental, religiosa ou contemporânea. Ritmos mais suaves tendem a favorecer o relaxamento e a redução da ansiedade, enquanto ritmos mais marcados podem estimular a expressão, a vitalidade e a organização emocional. Autores e canções significativas para o paciente fortalecem o vínculo terapêutico e facilitam a comunicação emocional. Dessa forma, a música atua como mediadora do processo terapêutico, promovendo acolhimento, equilíbrio e desenvolvimento psicoemocional.

Como você alia o conhecimento espírita com a influência da música em favor da harmonia humana?

É perfeitamente possível aliar o conhecimento espírita à influência da música em favor da harmonia humana, pois ambos atuam no campo do espírito, das emoções e do pensamento. À luz da Doutrina Espírita, a música é compreendida como um recurso capaz de elevar a vibração, harmonizar o perispírito e favorecer estados de paz interior. Quando utilizada com intenção edificante, ela auxilia na sintonia dos sentimentos nobres, como o amor, a esperança e a fé. As melodias e letras inspiradas nos ensinamentos de Jesus contribuem para o equilíbrio psicoemocional e espiritual do indivíduo. Assim, o conhecimento espírita oferece o discernimento moral e a música se torna um instrumento de sensibilização, promovendo autoconhecimento, transformação íntima e harmonia humana. Quando possível, utilizo as canções aliadas as minhas exposições para fortalecer e fixar os ensinamentos da palestra. 

De sua vivência espírita há alguma recordação marcante?

Conforme mencionado anteriormente, a experiência mais marcante de minha trajetória espírita foi o recebimento da carta de meu pai, cujo desencarne ocorreu quando eu contava apenas sete meses de vida. A profundidade dos detalhes e a intensa emoção vivenciada tornaram esse momento singular e profundamente significativo. Tal experiência revelou, de maneira incontestável, a existência de um mundo espiritual que, embora muitas vezes invisível aos nossos olhos, faz-se presente de forma decisiva em nossas vidas. Além disso, confirmou a certeza de que o amor transcende a morte e permanece vivo mesmo após o desencarne.

Suas palavras finais.

À luz das experiências relatadas, da vivência como palestrante espírita e da atuação profissional na musicoterapia, é possível compreender a profunda integração entre espiritualidade, música e cuidado humano. A Doutrina Espírita oferece fundamentos morais e espirituais que orientam a compreensão do ser em sua totalidade, enquanto a música se apresenta como um instrumento sensível de acesso às emoções e de harmonização emocional e espiritual. A vivência em diferentes casas espíritas, o contato com públicos diversos e o uso consciente de canções inspiradas nos ensinamentos de Jesus reforçam a importância da escuta, do acolhimento e da vibração elevada. Assim, música e espiritualidade, quando unidas com responsabilidade e amor, tornam-se valiosos recursos de transformação interior, promovendo equilíbrio, esperança e harmonia ao ser humano em sua jornada evolutiva.

 


 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita