Antes de tudo é preciso apresentar o ambiente, o
panorama, em que Paris estava imersa em 1855. Em pleno
segundo momento do movimento intelectual denominado de
Iluminismo, a cidade luz era um centro de modernização
rápida e Positivismo, influenciada por ideias
científicas e tecnológicas originados do racionalismo
iluminista. A cidade pode ser caracterizada pela
transformação urbana, iluminação a gás e forte
desigualdade social. A sociedade vivia na ascensão da
burguesia, o luxo da aristocracia, a vida boêmia nos
cafés e teatros e a pobreza extrema entre o povo
trabalhador.
No século XIX a Ciência (Positivista) usava um método
que se baseava em cinco passos básicos: 1. a observação
e a coleta de dados; 2. a indução de hipóteses gerais e,
se possível, explicações oriundas dessas observações; 3.
a dedução de corolários específicos (proposições
derivadas de outra verdade); 4. Testar as hipóteses para
checar as implicações deduzidas; 5. repetir os testes ou
desenvolver novas hipóteses.
Nesse caldo cultural, científico e social, Allan Kardec
desenvolve estudos e investigações em um campo
menosprezado pelos cientistas da época – as
manifestações físicas dos espíritos, a partir de 1855. E
como homem de seu tempo, voltado integralmente para a
Ciência (professor, escritor, tradutor, pesquisador da
Educação), seguiu o método disponível para levar a cabo
a tarefa que aceitou realizar.
Como a obra de Allan Kardec tem início com a primeira
edição de O Livro dos Espíritos, em 1857, é
necessário trazer a voz do autor para entender que
naquela primeira edição sua função foi a de um editor,
de um secretário que anota o discurso de outrem, de um
organizador de ideias, ou seja, a primeira edição do
livro é uma revelação dos espíritos que são considerados
os autores da obra. O método usado é de um editor
literário.
Entretanto, daí em diante
é possível asseverar que Kardec imprime uma dinâmica
diferente ao trabalho de codificação do Espiritismo. Há
claramente uma mudança metodológica que estudiosos
chamam de “transição metodológica”, concluída em 1868
com a publicação de A
Gênese, os Milagres e as Predições segundo o
Espiritismo.
Nesse decênio a postura metodológica de Kardec é de
mudança significativa, e isso fica claro ao lançar a
Revista Espírita quando o mestre assume o papel de
pesquisador dos fenômenos espirituais, deixando de lado
o papel de secretário da revelação dos espíritos.
Passa a empregar vários médiuns para responder seus
questionamentos, obtendo assim maior confiabilidade e
validade dos dados coletados, inicia a análise de
correspondência na obtenção de dados empíricos, isso por
meio de médiuns residentes em outras cidades e países
(diversificação de fontes). Em 1860 ao lançar a segunda
edição do O Livro dos Espíritos, Kardec apresenta
tais mudanças e dá crédito aos médiuns que receberam as
comunicações espirituais e aos que revisaram a obra.
Essa transição é salutar ao codificador, pois abre sua
mente a outras opiniões, advindas de outros
pesquisadores do tema e o debate se estabelece na
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. É nessa fase
que fica patente que o Espiritismo é progressivo, com
ênfase no aspecto empírico. É pondo às mãos na massa que
a Doutrina do Espíritos se desenvolve e amplia seu
controle universal das informações obtidas com os
Espíritos, copiando a mesma estratégia usada na época
pela Biologia e Medicina.
Nesse momento Allan Kardec começa a publicar as regras
práticas que utiliza para reduzir a incerteza e dar
credibilidade às comunicações dos espíritos. Com elas
faz frente às contradições que nelas podem surgir, e
usando a Revista Espírita de agosto de 1858, apresenta
os seguintes pontos a serem considerados pelos espíritas
para filtrarem as mensagens recebidas nas sessões
mediúnicas:
“1°. - O grau de ignorância ou de saber dos Espíritos
aos quais nos dirigimos; 2°. - O embuste dos Espíritos
inferiores que podem, por malícia, ignorância ou
malevolência, tomando um nome de empréstimo, dizer
coisas contrárias às que alhures foram ditas pelo
Espírito cujo nome usurparam; 3°. - As falhas pessoais
do médium, que podem influir sobre as comunicações e
alterar ou deformar o pensamento do Espírito; 4°. - A
insistência por obter uma resposta que um Espírito se
recusa a dar, e que é dada por um Espírito inferior; 5°.
- A própria vontade do Espírito, que fala conforme o
momento, o lugar e as pessoas e pode julgar conveniente
nem tudo dizer a toda gente; 6°. - A insuficiência da
linguagem humana para exprimir as coisas do mundo
incorpóreo; 7°. - A interpretação que cada um pode dar a
uma palavra ou a uma explicação, de acordo com as suas
ideias, os seus preconceitos ou o ponto de vista sob o
qual encara o assunto”.
Daquele momento em diante Kardec incluiu em sua
metodologia na tarefa de codificação espírita o controle
universal das comunicações dos espíritos, baseada em
muitos médiuns estranhos entre si, dispersos em muitos
lugares distantes entre eles, de forma espontânea. Em
1863 Kardec afirmou ter recebido cerca de 3600 cartas
com comunicações mediúnicas, das quais só
aproximadamente 100 foram aproveitadas por ele.
Assim Kardec usava o princípio da análise baseada na
razão e na lógica que descartava o que feria o bom senso
como primeira abordagem científica. Em seguida realizava
o controle universal das mensagens pela pergunta a
vários médiuns espalhados pelo mundo. Naquele momento
ele estava mais próximo da dedução metafísica.
Em setembro de 1867 publica na Revista Espírita uma nova
mudança metodológica na obra de codificação, e em 1968
fixa isso em A Gênese, os Milagres e as Predições
segundo o Espiritismo, conforme já afirmamos
anteriormente, apresentando o como deve ser realizado o
trabalho nascido nas sessões espíritas:
“[...] por não serem os que o transmitem e os que o
recebem seres passivos, dispensados do trabalho da
observação e da pesquisa, por não renunciarem ao
raciocínio e ao livre-arbítrio; porque não lhes é
interdito o exame, mas, ao contrário, recomendado;
enfim, porque a doutrina não foi ditada completa, nem
imposta à crença cega; porque é deduzida, pelo
trabalho do homem, da observação dos fatos que os
Espíritos lhe põem sob os olhos e das instruções que lhe
dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, a fim
de tirar ele próprio as ilações e aplicações.”
(grifo meu)
Alguns autores sugerem um nome para essa fase de atuação
científica de Kardec, como a etapa da dupla revelação:
divina e científica. É nesse momento que o codificador
se consolida como pesquisador principal e coautor da
teoria espírita, onde os espíritos seriam colaboradores
em lugar de reveladores. É Kardec deixando de ser o
“secretário” dos médiuns e espíritos (codificador), para
se tornar o cientista principal no estudo do
Espiritismo.
Em resumo pode-se afirmar que a metodologia mais
empregada por Allan Kardec na construção da Doutrina
Espírita foi dedutiva (conforme Immanuel Kant (*),
partindo da observação (indutiva e experimental), na
comparação entre as mensagens de diversos autores
espirituais (universalização), e aí realizando sobre os
fenômenos físicos e comunicações análise criteriosa e
sistemática.
Para quem gosta de receitas culinárias, Kardec assim
procedeu: Começou pela observação dos fatos mediúnicos;
registrou suas observações; comparou dados, para isso
consultou espíritos e médiuns; realizou depois disso a
análise racional e criteriosa dos resultados que obteve;
de posse desse material, sistematizou os dados; aí foi
capaz de extrair conclusões; por fim, publicou em forma
de artigos e livros.
(*) A dedução metafísica é um
conceito central na obra Crítica da Razão Pura,
de Immanuel Kant. Ela consiste no procedimento pelo qual
Kant identifica e isola as categorias (os conceitos
puros do entendimento) a partir das funções lógicas do
julgamento.
Ruy Ferreira é bacharel em Administração de Sistemas de
Informações, com especialização em Análise de Sistemas.
Mestre e Doutor em Educação, Ciências e Tecnologia.
Atuou como Analista de TI no Superior Tribunal Militar,
exerceu funções militares em quartéis de Artilharia do
Exército, deixou a carreira militar para atuar no Ensino
Superior como professor da área da Ciência da
Computação, onde permaneceu até a aposentadoria. É autor
de onze livros, entre eles acadêmicos, romance, contos,
manuais e crônicas.