A Medicina e seus percalços
Os médicos geralmente são bons contadores de histórias.
Principalmente os médicos mais antigos, com aquela vasta
clientela do interior.
É a vida que nos faz cruzar com mil e uma situações que
constroem essas histórias.
Geralmente, também, nós médicos somos antissociais.
Não nos damos bem em festas, não sabemos o nome do
melhor filme ou da cantora em evidência.
Política, ignoramos ou temos aversão.
É preciso acostumar-se com o assédio dos "amigos e
conhecidos". Sempre, em todos os lugares que vamos, tem
alguém para nos consultar.
Tem sempre alguém para nos questionar se Rivotril faz
mal para a memória, se pode tomar somente a metade do
comprimido do almoço e se uma cervejinha no final de
semana fará algum mal.
Diz dona Lourdes que eles me procuram, mesmo no
shopping, porque sou eu que dou trela. Mas, na "cabeça"
do médico, há sempre uma lista de preocupações com esse
ou aquele paciente:
1 - Encaminhamos para o PS uma criança com convulsões, e
ela aguarda vaga na UTI.
Está sedada e já pensam em entubar.
Fico em alerta, esperando alguém da família me dar
notícias.
2 - Ricardo foi atropelado; trauma de crânio, está em
coma.
A tomografia mostrou um cérebro inchado.
Aguarda o neurocirurgião, que vai instalar a PIC (medida
da pressão intracraniana).
Mil siglas no computador dos médicos, no qual se
acumulam resultados de exames.
Existe uma linguagem cifrada terrível nos prontuários
médicos.
Mais um pouco de espera, tudo isso será traduzido e
receberei informações seguras sobre o Ricardo.
3 - Dona Carmem não dorme há 3 dias.
Fica agitada.
Grita à noite toda.
Tira a roupa.
Não aceita ficar com as fraldas.
Agrediu a cuidadora.
A medicação sedativa já não faz mais efeito.
Um milímetro a mais da risperidona a deixa totalmente
dopada.
Nunca se sabe onde está o meio-termo da dose correta.
As emoções variam a cada minuto.
E o antipsicótico tem de acompanhar com cuidado.
4 - Criança com dor de cabeça e febre.
Decidimos colher um líquor antes da tomografia.
Aspecto levemente turvo; precisamos dos resultados da
análise.
Conforme o tipo de células, vamos definir se a meningite
é bacteriana ou viral.
O resultado sairá em poucas horas.
Mas essa espera dura mil horas para a mãe que a segura
no colo.
5 - O Ademir está de novo trancado no quarto.
Há 3 dias não se alimenta.
No chão, observam-se os sinais claros do abuso de
calmantes e de tóxicos ilícitos.
Temos de providenciar a internação psiquiátrica
compulsória.
É preciso um texto de encaminhamento e correr atrás de
uma vaga nas cidades vizinhas.
Estamos em pleno século XXI, e o fenômeno da loucura
ainda é tão atual e desolador.
Onde será que estamos errando?
Lição de casa
Nossa sociedade foi negligente com a estrutura familiar,
com o consumo sem limite, com o abuso de substâncias
tóxicas, com a dependência de fármacos de várias
naturezas, com o desequilíbrio das emoções, por onde
extravasa a agressividade.
Por muito tempo ainda vamos conviver com a doença como
forma de resgate do nosso equilíbrio.
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