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por Nubor Orlando Facure

 

A Medicina e seus percalços


Os médicos geralmente são bons contadores de histórias.
Principalmente os médicos mais antigos, com aquela vasta clientela do interior.

É a vida que nos faz cruzar com mil e uma situações que constroem essas histórias.
Geralmente, também, nós médicos somos antissociais.
Não nos damos bem em festas, não sabemos o nome do melhor filme ou da cantora em evidência.
Política, ignoramos ou temos aversão.

É preciso acostumar-se com o assédio dos "amigos e conhecidos". Sempre, em todos os lugares que vamos, tem alguém para nos consultar.

Tem sempre alguém para nos questionar se Rivotril faz mal para a memória, se pode tomar somente a metade do comprimido do almoço e se uma cervejinha no final de semana fará algum mal.

Diz dona Lourdes que eles me procuram, mesmo no shopping, porque sou eu que dou trela. Mas, na "cabeça" do médico, há sempre uma lista de preocupações com esse ou aquele paciente:


1 - Encaminhamos para o PS uma criança com convulsões, e ela aguarda vaga na UTI.
Está sedada e já pensam em entubar.
Fico em alerta, esperando alguém da família me dar notícias.


2 - Ricardo foi atropelado; trauma de crânio, está em coma.
A tomografia mostrou um cérebro inchado.
Aguarda o neurocirurgião, que vai instalar a PIC (medida da pressão intracraniana).
Mil siglas no computador dos médicos, no qual se acumulam resultados de exames.
Existe uma linguagem cifrada terrível nos prontuários médicos.
Mais um pouco de espera, tudo isso será traduzido e receberei informações seguras sobre o Ricardo.


3 - Dona Carmem não dorme há 3 dias.
Fica agitada.
Grita à noite toda.
Tira a roupa.
Não aceita ficar com as fraldas.
Agrediu a cuidadora.
A medicação sedativa já não faz mais efeito.
Um milímetro a mais da risperidona a deixa totalmente dopada.
Nunca se sabe onde está o meio-termo da dose correta.
As emoções variam a cada minuto.
E o antipsicótico tem de acompanhar com cuidado.


4 - Criança com dor de cabeça e febre.
Decidimos colher um líquor antes da tomografia.
Aspecto levemente turvo; precisamos dos resultados da análise.
Conforme o tipo de células, vamos definir se a meningite é bacteriana ou viral.
O resultado sairá em poucas horas.
Mas essa espera dura mil horas para a mãe que a segura no colo.


5 - O Ademir está de novo trancado no quarto.
Há 3 dias não se alimenta.
No chão, observam-se os sinais claros do abuso de calmantes e de tóxicos ilícitos.
Temos de providenciar a internação psiquiátrica compulsória.
É preciso um texto de encaminhamento e correr atrás de uma vaga nas cidades vizinhas.

Estamos em pleno século XXI, e o fenômeno da loucura ainda é tão atual e desolador.
Onde será que estamos errando?


Lição de casa


Nossa sociedade foi negligente com a estrutura familiar, com o consumo sem limite, com o abuso de substâncias tóxicas, com a dependência de fármacos de várias naturezas, com o desequilíbrio das emoções, por onde extravasa a agressividade.

Por muito tempo ainda vamos conviver com a doença como forma de resgate do nosso equilíbrio.
 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita