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por Rogério Miguez

 

A escada, o raio e a bala


As três palavras no título deste artigo, à primeira vista, não possuem qualquer relação entre si. Duas representam criações do homem, a primeira e a última; a do meio nada mais é do que a expressão de um fenômeno meteorológico, que ocorre corriqueiramente em quase todas as partes do mundo.

Entretanto, por mais improvável que pareça, elas possuem uma particular ligação, pois foram usadas para explicar o alcance da influência dos Espíritos nos acontecimentos da vida, tema abordado na primeira obra fundamental do Espiritismo: O Livro dos Espíritos¹.

O utensílio — escada — foi usado por Allan Kardec para que pudesse compreender se, quando uma escada se quebra e a pessoa que a utilizava cai e morre, isso se deveria a uma intervenção direta dos Espíritos, danificando ou enfraquecendo um degrau específico, considerando, ainda, ter chegado o momento da morte do usuário por meio de uma queda.

A explicação dos Espíritos é categórica: não, eles não comprometem um degrau da escada no instante em que o homem pisa nele. O degrau já poderia estar podre, caso a escada fosse de madeira, ou não resistir ao peso do homem. Contudo, caso houvesse chegado o instante de sua morte — e dessa maneira, isto é, por uma queda —, poderiam inspirar-lhe a ideia de usar aquela escada, entre outras, e sua morte se daria por um efeito natural e, principalmente, sem a intervenção direta dos Espíritos sobre o material da escada: madeira, alumínio, ferro...

No segundo caso, Allan Kardec explorou a hipótese de uma pessoa abrigar-se debaixo da copa de uma árvore, por exemplo, para fugir da chuva, e um raio atingir a árvore, matando o indivíduo assinalado para morrer por meio daquele efeito, indagando: poderiam os Espíritos ter provocado a formação do raio naquele exato instante?

Os Espíritos esclarecem dentro da mesma linha de raciocínio: as condições meteorológicas se fizeram presentes para que houvesse a produção de um raio que atingisse aquela determinada árvore. Dessa forma, poderiam inspirar ou intuir a pessoa a se proteger exatamente debaixo daquela árvore e não de outras, e o indivíduo encontraria o seu fim conforme planejado na erraticidade, antes de reencarnar. O raio atingiria aquela árvore, quer a pessoa estivesse debaixo dela ou não.

Alguém poderia perguntar: como os Espíritos saberiam que um raio estava se formando naquela região e atingiria exatamente aquela árvore?

A ciência da meteorologia é governada pela matemática e pela física, e os Espíritos mais evoluídos sabem avaliar, com facilidade, os parâmetros de temperatura, umidade, pressão, vento, concentração de cargas elétricas..., determinando quando, onde e com que intensidade uma descarga elétrica ocorrerá.

Finalmente, o Codificador, talvez ainda desejando melhor determinar o alcance dessa lei de Deus, governando todos esses incidentes, em uma tentativa de deixar uma explicação sólida e cristalina sobre esse princípio, questiona os Imortais se, quando o disparo de um tiro é efetuado, atingindo de raspão um sujeito, os Espíritos poderiam ter desviado a bala de modo que ela não o atingisse em cheio.

Mais uma vez, é dito que não há quebra de nenhuma lei da Natureza; e acrescentamos: muito menos favorecimento para este ou aquele indivíduo. Tudo ocorre dentro do perfeito ordenamento divino. O atirador pode ter sua vista ofuscada pelos Espíritos no instante do disparo, ou eles também podem atuar na possível vítima, fazendo-a mudar de direção, abaixar-se subitamente, virar a cabeça para a direita ou para a esquerda; são mil possibilidades, impedindo, naquele exato momento, que seja atingida pelo projétil em uma área vital do corpo, caso não tenha de morrer naquele momento e daquela forma.

Dentro dessa linha de raciocínio, concluímos não existir a bala perdida.

Quando uma pessoa é atingida mortalmente por um projétil, sem se saber de onde veio, é porque havia chegado o seu instante de morrer — e por meio de uma bala que jamais pode ser considerada perdida; ao contrário, é uma bala oportuna.

No entendimento popular, quando esses desfechos acontecem, às vezes chamados de desgraças — mas não o são —, de modo geral, as pessoas que morreram são enquadradas na classe dos azarados, pois ainda se acredita que haja sorte ou azar regulando os acontecimentos da vida. Isso equivaleria a admitir que Deus não teria controle absoluto sobre a sua própria criação. Ao pensar assim, negam-se os atributos de onipotência e onisciência do Criador e, como resultado, Ele não poderia impedir certas situações do cotidiano, mesmo aquelas com capacidade de extinguir uma existência.

Como conclusão, é preciso que nos convençamos, pela razão e pela lógica, de que o acaso não existe, muito menos a intervenção dos Espíritos nos acontecimentos da vida contrariando os princípios eternos e perfeitos: as leis divinas.

 

Referência:

¹ KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 3ª edição comemorativa do sesquicentenário. Brasília, DF: FEB, 2007; questões 526, 527 e 528.
 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita