A
escada, o raio e
a bala
As três palavras
no título deste
artigo, à
primeira vista,
não possuem
qualquer relação
entre si. Duas
representam
criações do
homem, a
primeira e a
última; a do
meio nada mais é
do que a
expressão de um
fenômeno
meteorológico,
que ocorre
corriqueiramente
em quase todas
as partes do
mundo.
Entretanto, por
mais improvável
que pareça, elas
possuem uma
particular
ligação, pois
foram usadas
para explicar o
alcance da
influência dos
Espíritos nos
acontecimentos
da vida, tema
abordado na
primeira obra
fundamental do
Espiritismo: O
Livro dos
Espíritos¹.
O utensílio —
escada — foi
usado por Allan
Kardec para que
pudesse
compreender se,
quando uma
escada se quebra
e a pessoa que a
utilizava cai e
morre, isso se
deveria a uma
intervenção
direta dos
Espíritos,
danificando ou
enfraquecendo um
degrau
específico,
considerando,
ainda, ter
chegado o
momento da morte
do usuário por
meio de uma
queda.
A explicação dos
Espíritos é
categórica: não,
eles não
comprometem um
degrau da escada
no instante em
que o homem pisa
nele. O degrau
já poderia estar
podre, caso a
escada fosse de
madeira, ou não
resistir ao peso
do homem.
Contudo, caso
houvesse chegado
o instante de
sua morte — e
dessa maneira,
isto é, por uma
queda —,
poderiam
inspirar-lhe a
ideia de usar
aquela escada,
entre outras, e
sua morte se
daria por um
efeito natural
e,
principalmente,
sem a
intervenção
direta dos
Espíritos sobre
o material da
escada: madeira,
alumínio,
ferro...
No segundo caso,
Allan Kardec
explorou a
hipótese de uma
pessoa
abrigar-se
debaixo da copa
de uma árvore,
por exemplo,
para fugir da
chuva, e um raio
atingir a
árvore, matando
o indivíduo
assinalado para
morrer por meio
daquele efeito,
indagando:
poderiam os
Espíritos ter
provocado a
formação do raio
naquele exato
instante?
Os Espíritos
esclarecem
dentro da mesma
linha de
raciocínio: as
condições
meteorológicas
se fizeram
presentes para
que houvesse a
produção de um
raio que
atingisse aquela
determinada
árvore. Dessa
forma, poderiam
inspirar ou
intuir a pessoa
a se proteger
exatamente
debaixo daquela
árvore e não de
outras, e o
indivíduo
encontraria o
seu fim conforme
planejado na
erraticidade,
antes de
reencarnar. O
raio atingiria
aquela árvore,
quer a pessoa
estivesse
debaixo dela ou
não.
Alguém poderia
perguntar: como
os Espíritos
saberiam que um
raio estava se
formando naquela
região e
atingiria
exatamente
aquela árvore?
A ciência da
meteorologia é
governada pela
matemática e
pela física, e
os Espíritos
mais evoluídos
sabem avaliar,
com facilidade,
os parâmetros de
temperatura,
umidade,
pressão, vento,
concentração de
cargas
elétricas...,
determinando
quando, onde e
com que
intensidade uma
descarga
elétrica
ocorrerá.
Finalmente, o
Codificador,
talvez ainda
desejando melhor
determinar o
alcance dessa
lei de Deus,
governando todos
esses
incidentes, em
uma tentativa de
deixar uma
explicação
sólida e
cristalina sobre
esse princípio,
questiona os
Imortais se,
quando o disparo
de um tiro é
efetuado,
atingindo de
raspão um
sujeito, os
Espíritos
poderiam ter
desviado a bala
de modo que ela
não o atingisse
em cheio.
Mais uma vez, é
dito que não há
quebra de
nenhuma lei da
Natureza; e
acrescentamos:
muito menos
favorecimento
para este ou
aquele
indivíduo. Tudo
ocorre dentro do
perfeito
ordenamento
divino. O
atirador pode
ter sua vista
ofuscada pelos
Espíritos no
instante do
disparo, ou eles
também podem
atuar na
possível vítima,
fazendo-a mudar
de direção,
abaixar-se
subitamente,
virar a cabeça
para a direita
ou para a
esquerda; são
mil
possibilidades,
impedindo,
naquele exato
momento, que
seja atingida
pelo projétil em
uma área vital
do corpo, caso
não tenha de
morrer naquele
momento e
daquela forma.
Dentro dessa
linha de
raciocínio,
concluímos não
existir a bala
perdida.
Quando uma
pessoa é
atingida
mortalmente por
um projétil, sem
se saber de onde
veio, é porque
havia chegado o
seu instante de
morrer — e por
meio de uma bala
que jamais pode
ser considerada
perdida; ao
contrário, é uma
bala oportuna.
No entendimento
popular, quando
esses desfechos
acontecem, às
vezes chamados
de desgraças —
mas não o são —,
de modo geral,
as pessoas que
morreram são
enquadradas na
classe dos
azarados, pois
ainda se
acredita que
haja sorte ou
azar regulando
os
acontecimentos
da vida. Isso
equivaleria a
admitir que Deus
não teria
controle
absoluto sobre a
sua própria
criação. Ao
pensar assim,
negam-se os
atributos de
onipotência e
onisciência do
Criador e, como
resultado, Ele
não poderia
impedir certas
situações do
cotidiano, mesmo
aquelas com
capacidade de
extinguir uma
existência.
Como conclusão,
é preciso que
nos convençamos,
pela razão e
pela lógica, de
que o acaso não
existe, muito
menos a
intervenção dos
Espíritos nos
acontecimentos
da vida
contrariando os
princípios
eternos e
perfeitos: as
leis divinas.
Referência:
¹
KARDEC, Allan. O
Livro dos
Espíritos.
Tradução de
Evandro Noleto
Bezerra. 3ª
edição
comemorativa do
sesquicentenário.
Brasília, DF:
FEB, 2007;
questões 526,
527 e 528.