A compaixão
Existem dois tipos de pessoas que merecem a
nossa compaixão: as vítimas da miséria e os
causadores dela. Pode parecer estranho que
estejamos equiparando esses opostos, mas, na
verdade, os miseráveis, os que sofrem as
consequências de uma desumana desigualdade
social sofrem isso em sua carne enquanto os
causadores disso sofrem essa dor em sua alma. Um
dia teremos uma sociedade em que a desigualdade
social estará bastante minimizada, mais ou menos
nivelada, mas, por enquanto, ainda não, pois,
como dizia Gandhi, “Na
Terra há o suficiente para satisfazer as
necessidades de todos, mas não para satisfazer a
ganância de alguns.”
Isso ocorrerá com o passar dos séculos quando a
nossa raça evoluir moralmente e eticamente e
não, prioritariamente, do ponto de vista
tecnológico, como vem ocorrendo.
Por que são dignos de compaixão os que causam a
fome, a miséria, essa terrível desigualdade
social que provoca a violência social pela mágoa
e a raiva que acomete os que nunca tiveram o que
nunca terão a não ser que se tornem ladrões ou
traficantes? Porque são infelizes, na verdade,
muitas vezes até mais infelizes do que as
multidões de miseráveis que criam. Alguém pode
surpreender-se por imaginar alguém que está no
poder, milhões de reais (ou dólares) em algum
paraíso fiscal, que mora em uma casa luxuosa,
circula em carros importados, frequenta
restaurantes de luxo, faz viagens frequentes
para locais paradisíacos, come e bebe
nababescamente, enfim, leva uma vida semelhante
às vidas que as novelas mostram na TV ou vemos
em filmes no cinema ou na telinha, é um infeliz?
Pois é, sim. É tão infeliz que necessita disso
tudo para tentar tampar um enorme vazio
interior, um infindo buraco em seu peito, uma
total falta de sentido para sua vida, um tipo de
infelicidade que podemos chamar de “infelicidade
espiritual” que nem o ar de falsa seriedade, de
fingida honestidade, que molda em seu rosto,
consegue disfarçar, pois, por trás dessa máscara
criada para esconder dos outros o que na verdade
é, jazem olhos vazios, frios e calculistas, sem
amor, olhos que refletem uma alma que se
dissociou de si mesmo, de sua essência divina,
olhos tristes, digno de compaixão.
Tenho um profundo sentimento de dó pelas vítimas
desses irmãos e irmãs que optam pelo desejo de
poder, pelo acúmulo de bens, mas tenho mais dó
ainda por esses, mesmo com tudo que têm, eles
são mais infelizes: não têm os alicerces que
sustentam uma residência onde Deus se sinta à
vontade: a paz na consciência, o amor no
coração, a alegria no olhar. Não estou pregando
o que está mal traduzido na Bíblia, que rico não
entra no Reino dos Céus, que bem-aventurados são
os que choram porque eles serão consolados e os
que têm fome e sede de justiça porque terão, um
dia, fartura, mas numa coisa eu concordo:
bem-aventurados são os mansos porque herdarão a
Terra e os puros de coração porque verão a Deus,
ou, quem sabe, já estão vendo e, por isso, são
assim?
Mauro Kwitko é médico, escritor,
fundador e presidente da Associação Brasileira
de Psicoterapia Reencarnacionista (ABPR).