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por Vladimir Alexei

 

O espírita, a folia e a educação dos sentimentos


A literatura mediúnica é repleta de oportunidades para o nosso aprendizado. Também merece atenção aquela que retrata, com cores dantescas, o carnaval.

Aquele que está a par dos esforços dos médiuns para organizar as informações trazidas do mundo espiritual sabe da importância e dos desafios envolvidos na educação da mediunidade.

Todavia, Léon Denis já afirmava que o médium, como o próprio nome indica, é intermediário entre o mundo corporal e o mundo espiritual e, portanto, não tem motivo algum para se envaidecer dessa posição, independentemente da extensão e da importância de seu trabalho.

No meio espírita, houve médiuns dotados de uma humildade impressionante. Outros, porém, revelaram vaidade excessiva, muitas vezes estimulada pelos próprios espíritas, numa reedição de hierarquias ilusórias e práticas presentes em outras religiões.

No início dos anos 2000, a Federação Espírita do Rio Grande do Sul publicou, sob a autoria de Jason de Camargo, a obra Educação dos Sentimentos. Naquela época — cerca de vinte e cinco anos atrás —, motivados pela possibilidade de acessar literatura espírita fora de Minas Gerais, considerada por nós um tanto conservadora, vislumbramos a oportunidade de experimentar algo novo na casa espírita, como forma de atrair mais frequentadores. Levamos, então, a ideia à instituição que frequentávamos.

— “Vamos criar um curso sobre Educação dos Sentimentos!”

Apesar de nossas limitações, nunca nos faltaram entusiasmo e disposição. Víamos ali a possibilidade de aprofundar aspectos que, na região, o estudo do Evangelho abordava apenas superficialmente.

Qual não foi a surpresa quando o dirigente — embora dedicado — mostrou-se condicionado a uma visão institucional restrita àquele momento, o que dificultou a compreensão da proposta, afirmando que “a casa não trabalha com isso”.

É por isso que insistimos em falar sobre liderança. Ela pode ser libertadora ou tornar-se uma prisão quando não há preparo para liderar, mas apenas o desejo de reunir seguidores. Foi um verdadeiro balde de água fria.

Por quê?

Porque, em muitas casas espíritas, a cultura era — e, em alguns casos, ainda é — a seguinte: se alguém insiste em uma ideia diferente da corrente predominante, é rotulado como “obsediado”; se aceita e silencia, não faz mais do que sua “obrigação evolutiva”, para alívio das lideranças.

Passados mais de vinte e cinco anos, tornou-se relativamente comum que espíritas utilizem aspectos psicológicos para abordar, pasmem, os sentimentos nas casas espíritas.

Seria incoerente afirmar que as mesmas pessoas, antes limitadas, hoje utilizam essas abordagens apenas porque passaram a compreendê-las melhor. Contudo, a própria Doutrina Espírita ensina que não se pode exigir de alguém — esteja ou não em posição de liderança — aquilo que ainda não possui, especialmente no campo dos sentimentos.

O tempo passou e, nesse ínterim, diversos livros foram publicados sobre o tema. Obras de autoajuda proliferaram nas livrarias espíritas, com propostas do tipo “como se tornar uma pessoa melhor em dez passos”. Médiuns, em grande esforço, passaram a descrever, com riqueza de detalhes, cenários espirituais negativos associados às folias e aos carnavais ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

Ora, orgias, abusos, conflitos e tragédias relacionadas às emoções humanas não se limitam ao carnaval — ocorrem durante todo o ano. Doenças sexualmente transmissíveis também não se restringem a esse período. Não se educa pelo medo.

O espírita que apresenta dificuldades nessa área não está sozinho e não deveria ser constrangido em suas fragilidades ao se deparar com descrições excessivamente dramáticas, nem com comentários impróprios nos corredores da casa espírita.

Ao se propor um curso de educação dos sentimentos em uma casa espírita, pratica-se, além do estudo doutrinário, o exercício de métodos filosóficos e, em certa medida, psicoterapêuticos, como o diálogo.

Se alguém argumentar que esse tipo de curso “não atrai público” ou que “não desperta interesse”, isso pode até ser compreensível. Por isso mesmo, é fundamental o diálogo entre dirigentes e colaboradores responsáveis por cursos e atividades formativas.

Se, em vez de ocultar dificuldades reais da sociedade, a casa espírita buscasse maturidade para criar espaços de acolhimento e orientação, temas complexos — como os tratados em obras que abordam sofrimentos espirituais profundos — poderiam ser melhor compreendidos, ampliando os benefícios para todos.

Entretanto, observa-se que certos assuntos deixam de ser tratados sob a justificativa de que “carregam espiritualmente o ambiente”.

Na verdade, o que sobrecarrega o ambiente são a maledicência, a vaidade, o egoísmo, o orgulho e a hipocrisia.

Ao propor um curso de educação dos sentimentos, não se exige a presença de indivíduos perfeitos. Com maturidade e liderança, o processo poderia seguir etapas naturais: primeiro, o estudo da obra; depois, a elaboração de um roteiro alinhado à Doutrina; por fim, a aplicação experimental em grupos menores, permitindo ajustes e aprimoramentos.

Mencionamos o tema da sexualidade, mas há muitos outros que exigem educação dos sentimentos. Em anos eleitorais, por exemplo, a política não poderia ser ignorada, embora frequentemente se transforme, nas casas espíritas, em um verdadeiro espetáculo de conflitos.

Muitas vezes, repetem-se comportamentos como a difusão de mensagens espirituais duvidosas, a criação de cenários alarmistas, a busca por culpados e a rotulação daqueles que pensam diferente. Ao mesmo tempo, aguarda-se uma intervenção espiritual que resolva tudo — o que, embora pareça ficção, ocorre com frequência.

Diante disso, seria muito mais eficaz que a casa espírita enfrentasse esses temas à luz da educação dos sentimentos, em vez de evitá-los. E por que tais temas se tornaram difíceis? Porque falta diálogo.

Evidentemente, assuntos complexos exigem preparo, abordagem cuidadosa e clareza de objetivos, sem misticismo excessivo. É importante estabelecer um roteiro e reconhecer que questões que ultrapassem esse limite podem demandar encaminhamento para atendimento fraterno ou até especializado fora da instituição.

O atendimento na casa espírita deve ser especializado na Doutrina Espírita — o que, por si só, já representa grande responsabilidade.

Temos repetido com frequência: o modelo e guia da humanidade é Jesus. Estudar Jesus é compreender sua vida, suas atitudes e o que elas trouxeram de novo como referência para nós.

Um espírito elevado, estrategista sem ser manipulador; amigo, sem interesse; educador, por ter alcançado a plenitude dos sentimentos; alguém cuja vivência do amor e da caridade expressa verdadeira humildade — sem impor, sem aprisionar, mas auxiliando na educação dos sentimentos.

Assim, cursos, palestras e demais atividades podem transformar-se em uma verdadeira folia de boas vibrações, com estudo leve, fraterno e enriquecido pelo intercâmbio entre os dois planos da vida.


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita