O espírita, a folia e a educação dos
sentimentos
A literatura mediúnica é repleta de oportunidades para o
nosso aprendizado. Também merece atenção aquela que
retrata, com cores dantescas, o carnaval.
Aquele que está a par dos esforços dos médiuns para
organizar as informações trazidas do mundo espiritual
sabe da importância e dos desafios envolvidos na
educação da mediunidade.
Todavia, Léon Denis já afirmava que o médium, como o
próprio nome indica, é intermediário entre o mundo
corporal e o mundo espiritual e, portanto, não tem
motivo algum para se envaidecer dessa posição,
independentemente da extensão e da importância de seu
trabalho.
No meio espírita, houve médiuns dotados de uma humildade
impressionante. Outros, porém, revelaram vaidade
excessiva, muitas vezes estimulada pelos próprios
espíritas, numa reedição de hierarquias ilusórias e
práticas presentes em outras religiões.
No início dos anos 2000, a Federação Espírita do Rio
Grande do Sul publicou, sob a autoria de Jason de
Camargo, a obra Educação
dos Sentimentos. Naquela época — cerca de vinte e
cinco anos atrás —, motivados pela possibilidade de
acessar literatura espírita fora de Minas Gerais,
considerada por nós um tanto conservadora, vislumbramos
a oportunidade de experimentar algo novo na casa
espírita, como forma de atrair mais frequentadores.
Levamos, então, a ideia à instituição que
frequentávamos.
— “Vamos criar um curso sobre Educação
dos Sentimentos!”
Apesar de nossas limitações, nunca nos faltaram
entusiasmo e disposição. Víamos ali a possibilidade de
aprofundar aspectos que, na região, o estudo do
Evangelho abordava apenas superficialmente.
Qual não foi a surpresa quando o dirigente — embora
dedicado — mostrou-se condicionado a uma visão
institucional restrita àquele momento, o que dificultou
a compreensão da proposta, afirmando que “a casa não
trabalha com isso”.
É por isso que insistimos em falar sobre liderança. Ela
pode ser libertadora ou tornar-se uma prisão quando não
há preparo para liderar, mas apenas o desejo de reunir
seguidores. Foi um verdadeiro balde de água fria.
Por quê?
Porque, em muitas casas espíritas, a cultura era — e, em
alguns casos, ainda é — a seguinte: se alguém insiste em
uma ideia diferente da corrente predominante, é rotulado
como “obsediado”; se aceita e silencia, não faz mais do
que sua “obrigação evolutiva”, para alívio das
lideranças.
Passados mais de vinte e cinco anos, tornou-se
relativamente comum que espíritas utilizem aspectos
psicológicos para abordar, pasmem, os sentimentos nas
casas espíritas.
Seria incoerente afirmar que as mesmas pessoas, antes
limitadas, hoje utilizam essas abordagens apenas porque
passaram a compreendê-las melhor. Contudo, a própria
Doutrina Espírita ensina que não se pode exigir de
alguém — esteja ou não em posição de liderança — aquilo
que ainda não possui, especialmente no campo dos
sentimentos.
O tempo passou e, nesse ínterim, diversos livros foram
publicados sobre o tema. Obras de autoajuda proliferaram
nas livrarias espíritas, com propostas do tipo “como se
tornar uma pessoa melhor em dez passos”. Médiuns, em
grande esforço, passaram a descrever, com riqueza de
detalhes, cenários espirituais negativos associados às
folias e aos carnavais ao redor do mundo, inclusive no
Brasil.
Ora, orgias, abusos, conflitos e tragédias relacionadas
às emoções humanas não se limitam ao carnaval — ocorrem
durante todo o ano. Doenças sexualmente transmissíveis
também não se restringem a esse período. Não se educa
pelo medo.
O espírita que apresenta dificuldades nessa área não
está sozinho e não deveria ser constrangido em suas
fragilidades ao se deparar com descrições excessivamente
dramáticas, nem com comentários impróprios nos
corredores da casa espírita.
Ao se propor um curso de educação dos sentimentos em uma
casa espírita, pratica-se, além do estudo doutrinário, o
exercício de métodos filosóficos e, em certa medida,
psicoterapêuticos, como o diálogo.
Se alguém argumentar que esse tipo de curso “não atrai
público” ou que “não desperta interesse”, isso pode até
ser compreensível. Por isso mesmo, é fundamental o
diálogo entre dirigentes e colaboradores responsáveis
por cursos e atividades formativas.
Se, em vez de ocultar dificuldades reais da sociedade, a
casa espírita buscasse maturidade para criar espaços de
acolhimento e orientação, temas complexos — como os
tratados em obras que abordam sofrimentos espirituais
profundos — poderiam ser melhor compreendidos, ampliando
os benefícios para todos.
Entretanto, observa-se que certos assuntos deixam de ser
tratados sob a justificativa de que “carregam
espiritualmente o ambiente”.
Na verdade, o que sobrecarrega o ambiente são a
maledicência, a vaidade, o egoísmo, o orgulho e a
hipocrisia.
Ao propor um curso de educação dos sentimentos, não se
exige a presença de indivíduos perfeitos. Com maturidade
e liderança, o processo poderia seguir etapas naturais:
primeiro, o estudo da obra; depois, a elaboração de um
roteiro alinhado à Doutrina; por fim, a aplicação
experimental em grupos menores, permitindo ajustes e
aprimoramentos.
Mencionamos o tema da sexualidade, mas há muitos outros
que exigem educação dos sentimentos. Em anos eleitorais,
por exemplo, a política não poderia ser ignorada, embora
frequentemente se transforme, nas casas espíritas, em um
verdadeiro espetáculo de conflitos.
Muitas vezes, repetem-se comportamentos como a difusão
de mensagens espirituais duvidosas, a criação de
cenários alarmistas, a busca por culpados e a rotulação
daqueles que pensam diferente. Ao mesmo tempo,
aguarda-se uma intervenção espiritual que resolva tudo —
o que, embora pareça ficção, ocorre com frequência.
Diante disso, seria muito mais eficaz que a casa
espírita enfrentasse esses temas à luz da educação dos
sentimentos, em vez de evitá-los. E por que tais temas
se tornaram difíceis? Porque falta diálogo.
Evidentemente, assuntos complexos exigem preparo,
abordagem cuidadosa e clareza de objetivos, sem
misticismo excessivo. É importante estabelecer um
roteiro e reconhecer que questões que ultrapassem esse
limite podem demandar encaminhamento para atendimento
fraterno ou até especializado fora da instituição.
O atendimento na casa espírita deve ser especializado na
Doutrina Espírita — o que, por si só, já representa
grande responsabilidade.
Temos repetido com frequência: o modelo e guia da
humanidade é Jesus. Estudar Jesus é compreender sua
vida, suas atitudes e o que elas trouxeram de novo como
referência para nós.
Um espírito elevado, estrategista sem ser manipulador;
amigo, sem interesse; educador, por ter alcançado a
plenitude dos sentimentos; alguém cuja vivência do amor
e da caridade expressa verdadeira humildade — sem impor,
sem aprisionar, mas auxiliando na educação dos
sentimentos.
Assim, cursos, palestras e demais atividades podem
transformar-se em uma verdadeira folia de boas
vibrações, com estudo leve, fraterno e enriquecido pelo
intercâmbio entre os dois planos da vida.