Um falso médium consolou minha avó
Meu avô foi assassinado. Durante um assalto, três
pessoas foram atingidas. Ele já tinha 76 anos e não
resistiu aos ferimentos. Minha avó, sua esposa, ficou
transtornada: passou quatro meses com insônia. A
qualquer barulho, levantava-se gritando, imaginando
tratar-se de algum criminoso. Seu estado emocional era
profundamente abalado, e a família já não sabia o que
fazer.
Por coincidência — ou providência divina —, um médium
que recebia cartas consoladoras apresentou-se em um
centro espírita de uma cidade próxima. Mesmo sem serem
espíritas, os familiares deixaram o preconceito de lado
e procuraram garantir uma vaga no dia da sessão de
psicografias.
No dia marcado, havia uma fila imensa à beira da porta
de entrada. Cada pessoa trazia no rosto um misto de
esperança e saudade. Aos poucos, o público, ansioso por
uma mensagem de entes falecidos, foi se acomodando e
procurando um bom lugar para acompanhar o evento.
Em determinado momento, o médium entrou no salão.
Cumprimentou algumas pessoas, fez duas piadas e
dirigiu-se à mesa. Foram distribuídas folhas em branco e
várias canetas. Um membro do centro fez uma oração
comovente. O médium fechou os olhos, posicionou as mãos
como fazia Chico Xavier e permaneceu em silêncio por
alguns minutos. Seu corpo começou a tremer, e sua mão
passou a mover-se rapidamente sobre as folhas. À medida
que terminava uma página, auxiliares colocavam outras.
Durante mais de três horas, cartas foram sendo escritas.
Ao final, ele passou a chamar os familiares para os
quais as mensagens haviam sido endereçadas.
Foi um momento de grande emoção quando minha avó foi
chamada. Ao lado do meu tio, seu filho, ela ouviu
palavras reconfortantes atribuídas ao meu avô. A família
agradeceu ao médium e perguntou como poderia retribuir.
Um membro da equipe informou que, de forma voluntária,
poderia ser feito um PIX, de qualquer valor, para obras
de caridade. A família realizou a doação, despediu-se e
foi embora, levando no bolso e no coração aquela carta.
Nos dias seguintes, minha avó passou a ler a carta
diariamente. Que palavras bonitas! O texto descrevia um
lugar belo onde ele estaria vivendo, falava da saudade,
do amor que sentia por ela e afirmava que, um dia,
estariam juntos novamente. Dizia também que seu
desencarne violento estava programado e que o assassino
teria sido apenas um instrumento inconsciente da
providência divina.
Aquela carta consolou minha avó de maneira tão profunda
que ela voltou a dormir e a se alimentar normalmente.
Conseguiu, enfim, seguir em frente. Chegou, inclusive, a
adquirir cinco exemplares de O
Evangelho segundo o Espiritismo para distribuir
entre os netos.
Seis meses depois...
Em um programa de televisão, foi exibida uma reportagem
informando que o médium que havia recebido cartas
atribuídas ao meu avô fora preso por charlatanismo.
Segundo denúncias de dezenas de vítimas, ele nunca fora
médium: obtinha informações por meio de redes sociais ou
de conhecidos. Além disso, o dinheiro arrecadado por sua
equipe era desviado para patrimônio pessoal.
E agora?
Contar ou não contar à minha avó? A verdade deve sempre
prevalecer? E onde entra a compaixão?
Aquela idosa havia retomado a própria vida após receber
a carta. Mesmo sendo falsa, ela proporcionou um consolo
que nada mais conseguira oferecer. A família preferiu
manter silêncio. E minha avó continuou tranquila,
consolada e lendo aquela “carta” do médium charlatão.
Mesmo sendo uma fraude, aquele homem acabou ajudando
muitas pessoas — assim como minha avó.
Ao recordar esse caso, fico a pensar: será que algo
semelhante não ocorreu com outros médiuns conhecidos do
movimento espírita? E, por não terem sido investigados,
nunca foram desmascarados? Será a compaixão mais
importante do que a verdade? A Lei Divina puniria um
médium que consolou tantas mães aflitas, ainda que por
meio de cartas falsas?
Muitas perguntas. Muitas dúvidas.
Algumas verdades podem ser cruéis; algumas mentiras
podem expressar solidariedade.
Qual é o limite?
Só Deus sabe...