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por João Márcio F. Cruz

 

Um falso médium consolou minha avó


Meu avô foi assassinado. Durante um assalto, três pessoas foram atingidas. Ele já tinha 76 anos e não resistiu aos ferimentos. Minha avó, sua esposa, ficou transtornada: passou quatro meses com insônia. A qualquer barulho, levantava-se gritando, imaginando tratar-se de algum criminoso. Seu estado emocional era profundamente abalado, e a família já não sabia o que fazer.

Por coincidência — ou providência divina —, um médium que recebia cartas consoladoras apresentou-se em um centro espírita de uma cidade próxima. Mesmo sem serem espíritas, os familiares deixaram o preconceito de lado e procuraram garantir uma vaga no dia da sessão de psicografias.

No dia marcado, havia uma fila imensa à beira da porta de entrada. Cada pessoa trazia no rosto um misto de esperança e saudade. Aos poucos, o público, ansioso por uma mensagem de entes falecidos, foi se acomodando e procurando um bom lugar para acompanhar o evento.

Em determinado momento, o médium entrou no salão. Cumprimentou algumas pessoas, fez duas piadas e dirigiu-se à mesa. Foram distribuídas folhas em branco e várias canetas. Um membro do centro fez uma oração comovente. O médium fechou os olhos, posicionou as mãos como fazia Chico Xavier e permaneceu em silêncio por alguns minutos. Seu corpo começou a tremer, e sua mão passou a mover-se rapidamente sobre as folhas. À medida que terminava uma página, auxiliares colocavam outras. Durante mais de três horas, cartas foram sendo escritas. Ao final, ele passou a chamar os familiares para os quais as mensagens haviam sido endereçadas.

Foi um momento de grande emoção quando minha avó foi chamada. Ao lado do meu tio, seu filho, ela ouviu palavras reconfortantes atribuídas ao meu avô. A família agradeceu ao médium e perguntou como poderia retribuir. Um membro da equipe informou que, de forma voluntária, poderia ser feito um PIX, de qualquer valor, para obras de caridade. A família realizou a doação, despediu-se e foi embora, levando no bolso e no coração aquela carta.

Nos dias seguintes, minha avó passou a ler a carta diariamente. Que palavras bonitas! O texto descrevia um lugar belo onde ele estaria vivendo, falava da saudade, do amor que sentia por ela e afirmava que, um dia, estariam juntos novamente. Dizia também que seu desencarne violento estava programado e que o assassino teria sido apenas um instrumento inconsciente da providência divina.

Aquela carta consolou minha avó de maneira tão profunda que ela voltou a dormir e a se alimentar normalmente. Conseguiu, enfim, seguir em frente. Chegou, inclusive, a adquirir cinco exemplares de O Evangelho segundo o Espiritismo para distribuir entre os netos.

Seis meses depois...

Em um programa de televisão, foi exibida uma reportagem informando que o médium que havia recebido cartas atribuídas ao meu avô fora preso por charlatanismo. Segundo denúncias de dezenas de vítimas, ele nunca fora médium: obtinha informações por meio de redes sociais ou de conhecidos. Além disso, o dinheiro arrecadado por sua equipe era desviado para patrimônio pessoal.

E agora?

Contar ou não contar à minha avó? A verdade deve sempre prevalecer? E onde entra a compaixão?

Aquela idosa havia retomado a própria vida após receber a carta. Mesmo sendo falsa, ela proporcionou um consolo que nada mais conseguira oferecer. A família preferiu manter silêncio. E minha avó continuou tranquila, consolada e lendo aquela “carta” do médium charlatão.

Mesmo sendo uma fraude, aquele homem acabou ajudando muitas pessoas — assim como minha avó.

Ao recordar esse caso, fico a pensar: será que algo semelhante não ocorreu com outros médiuns conhecidos do movimento espírita? E, por não terem sido investigados, nunca foram desmascarados? Será a compaixão mais importante do que a verdade? A Lei Divina puniria um médium que consolou tantas mães aflitas, ainda que por meio de cartas falsas?

Muitas perguntas. Muitas dúvidas.

Algumas verdades podem ser cruéis; algumas mentiras podem expressar solidariedade.

Qual é o limite?

Só Deus sabe...


  
    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita