Por que o jovem não fala na reunião de
mocidade?
Por que é tão fácil falar nas redes sociais, mas tão
difícil levantar a mão na reunião de mocidade?
Esta pergunta passa pela cabeça de muitos jovens — e
talvez também pela sua.
Quando a voz some, mas a vontade de participar continua
Na faculdade, no trabalho ou em casa, o jovem aprende
rapidamente que falar demais pode trazer julgamento,
cobrança ou rótulos. A pressão por acertar, por “ser
alguém” e por não errar em público vai ensinando uma
estratégia silenciosa: observar mais e falar menos.
Agora, imagine levar isso para a reunião de mocidade
espírita: um espaço que deveria ser de acolhimento, mas
que, às vezes, é percebido como um lugar onde “todos
sabem mais”, “todos já leram mais livros espíritas do
que eu” ou “minha dúvida pode ser simples demais”.
O silêncio, então, não significa desinteresse. Muitas
vezes, é autoproteção.
O jovem fala pouco… mas pensa muito
Dados recentes mostram que o silêncio juvenil não é
exclusivo da casa espírita. Segundo a Organização
Mundial da Saúde, a ansiedade é um dos principais
desafios de saúde mental entre jovens no mundo [1]. No
Brasil, pesquisas do IBGE indicam crescimento
significativo de sintomas de ansiedade e insegurança
emocional entre pessoas de 15 a 29 anos [2].
Ao relacionar isso com a mocidade, surgem fatores como:
- medo de errar em público;
- medo de parecer ignorante;
- medo de julgamento moral;
- medo de “não ser espírita o suficiente.
Nesse contexto, o silêncio não é falta de conteúdo, mas
excesso de cautela.
“Mas a reunião é justamente para aprender…”
Sim — e é aí que reside o paradoxo.
O Espiritismo, desde a sua base, valoriza a pergunta, a
dúvida honesta e o questionamento respeitoso. O Livro
dos Espíritos nasceu inteiramente de perguntas.
Kardec não teve receio de questionar — nem de registrar
respostas diferentes ou incompletas.
“Para bem compreender certas coisas, só há um meio:
estudá-las, aprofundá-las.”
— Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Introdução
[3]
Entretanto, na prática, muitos jovens sentem que
precisam entender tudo antes de falar, quando, na
verdade, falar também faz parte do processo de
compreensão.
A Psicologia explica: o medo do julgamento paralisa
A Psicologia Social denomina esse fenômeno de ansiedade
social: o receio intenso de ser avaliado negativamente
em situações de grupo [4]. Ambientes com pessoas
percebidas como mais experientes ou mais sábias tendem a
intensificar esse bloqueio.
Na mocidade, isso se manifesta em pensamentos como:
· “Minha
dúvida é superficial”;
· “Isso
todos já sabem”;
· “Vão
achar que não estudei”;
· “É
melhor ficar em silêncio”.
O corpo deseja falar, mas a mente impõe limites.
Quando o jovem não fala, o grupo perde
No cotidiano da casa espírita, o silêncio juvenil produz
efeitos concretos:
- reuniões
menos conectadas com a realidade atual;
- temas
que não dialogam com questões reais (ansiedade, futuro,
identidade, relações);
- jovens
presentes fisicamente, mas ausentes emocionalmente.
A Sociologia descreve esse fenômeno como participação
simbólica: estar presente sem se sentir pertencente [6].
E isso causa sofrimento — mesmo quando não é
verbalizado.
Falar não é obrigação. É convite.
Aqui está um ponto essencial: ninguém deve falar por
obrigação.
Mas todo jovem precisa sentir que:
- sua
dúvida é válida;
- sua vivência tem valor;
- sua fala não será corrigida com superioridade;
- seu
tempo será respeitado.
Jesus nunca obrigou ninguém a falar. Ele perguntava,
escutava e caminhava ao lado.
“Não vim chamar os justos, mas os pecadores.” (Jesus —
Mateus 9:13)
Em outras palavras: não veio chamar os que já sabem
tudo, mas aqueles que ainda estão em processo de
compreensão.
Aos expositores: pequenos gestos fazem grande diferença
Na prática, atitudes simples — porém constantes —
transformam o ambiente da mocidade e favorecem a
participação:
valorizar a pergunta, e não apenas a resposta;
- normalizar
expressões como “não sei”, “nunca pensei nisso” ou
“estou tentando entender”;
- compartilhar
dúvidas e aprendizados pessoais, demonstrando que
ninguém detém todo o saber;
- utilizar
exemplos do cotidiano: trabalho, estudos, redes sociais,
relacionamentos e dilemas reais;
- criar
momentos de fala sem pressão, como rodas de conversa,
registros anônimos ou dinâmicas em pequenos grupos;
- respeitar
o tempo de cada participante, sem forçar ou constranger;
- evitar
respostas longas ou conclusivas que encerrem o diálogo
prematuramente;
- reconhecer
e agradecer cada tentativa de participação, mesmo que
ainda seja insegura;
- caso
não compreenda plenamente a pergunta, dialogar antes de
responder;
- ao
responder, verificar se foi claro e se ainda restam
dúvidas;
- incentivar
a participação, mostrando que perguntas e exemplos
enriquecem o grupo;
- agradecer
sempre as contribuições.
Quando o ambiente se transforma, a voz aparece.
E, muitas vezes, ela apenas precisava sentir segurança
para existir.
Talvez o jovem não fale porque ainda está aprendendo a
confiar
Confiar que pode errar.
Confiar que será ouvido.
Confiar que não será reduzido a um rótulo espiritual.
E esse processo leva tempo.
O Espiritismo não é uma prova oral — é um caminho de
consciência.
Fica a pergunta final:
Se o jovem não fala na reunião de mocidade…
Será que não tem nada a dizer — ou será que ainda não
encontrou um espaço seguro para se expressar?
Referências:
[1] Organização Mundial da Saúde (OMS) — Relatórios
sobre saúde mental e juventude.
Tema: Ansiedade e jovens no mundo.
[2] IBGE — Pesquisa Nacional de Saúde (PNS).
Tema: Saúde emocional de jovens brasileiros.
[3] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
Introdução.
Ideia central: o estudo e a pergunta como caminho para a
compreensão.
[4] American Psychological Association — Ansiedade
social e participação em grupo.
Tema: medo do julgamento e bloqueio da fala.
[5] KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
Capítulo XIX.
Ideia central: fé raciocinada, não imposta.
[6] BAUMAN, Zygmunt. Comunidade.
Tema: pertencimento simbólico e participação social.
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