Princípio inteligente ou
princípio espiritual: qual o correto?
Alguns amigos perguntam-nos se os termos
“princípio espiritual” e “princípio inteligente”
têm o mesmo significado e podem, portanto, ser
utilizados indiferentemente quando nos referimos
aos elementos gerais do Universo.
Allan Kardec utilizou em sua obra os dois
termos, mas é evidente sua opção pela expressão
“princípio inteligente” quando escreveu O
Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns,
como mostram os textos abaixo:
“Que é o espírito? – O princípio inteligente do
Universo.” (L.E., questão 23.)
“Pois que há dois elementos gerais no Universo:
o elemento inteligente e o elemento
material, poder-se-á dizer que os Espíritos
são formados do elemento inteligente, como os
corpos inertes o são do elemento material? –
Evidentemente. Os Espíritos são a
individualização do princípio inteligente,
como os corpos são a individualização do
princípio material. A época e o modo por que
essa formação se operou é que são
desconhecidos.” (L.E., questão 79.)
“Donde tiram os animais o princípio
inteligente que constitui a alma de natureza
especial de que são dotados? – Do elemento
inteligente universal.” (L.E., questão 606.)
“Seja qual for a ideia que dos Espíritos se
faça, a crença neles necessariamente se funda na
existência de um princípio inteligente fora
da matéria.” (L.M., cap. I, item 1.)
“Numerosas observações e fatos irrecusáveis, de
que mais tarde falaremos, levaram à consequência
de que há no homem três componentes: 1º, a alma,
ou Espírito, princípio inteligente, onde
tem sua sede o senso moral; 2º, o corpo,
invólucro grosseiro, material, de que ele se
revestiu temporariamente, em cumprimento de
certos desígnios providenciais; 3º, o
perispírito, envoltório fluídico, semimaterial,
que serve de ligação entre a alma e o corpo.”
(L.M., cap. I, item 54.)
"Depois da morte do animal, o princípio
inteligente que nele havia se acha em estado
latente e é logo utilizado, por certos Espíritos
incumbidos disso, para animar novos seres, em os
quais continua ele a obra de sua elaboração.
Assim, no mundo dos Espíritos, não há, errantes,
Espíritos de animais, porém unicamente Espíritos
humanos." (L.M., cap. XXV, item 283, pergunta
36ª.) [O negrito é de nossa autoria.]
Todavia, em sua derradeira obra – A Gênese –
o codificador do Espiritismo preferiu valer-se
do termo “princípio espiritual”, como
podemos verificar no cap. IV, item 16, e no cap.
XI, itens 1 e 2 do mencionado livro. Chama-nos a
atenção, nessa obra, o trecho adiante
reproduzido, em que Kardec utiliza “princípio
espiritual” com o mesmo sentido de “princípio
inteligente” mencionado em O Livro dos
Espíritos:
“A existência do princípio espiritual é
um fato que, por assim dizer, não precisa de
demonstração, do mesmo modo que o da existência
do princípio material. E, de certa forma, uma
verdade axiomática. Ele se afirma pelos seus
efeitos, como a matéria pelos que lhe são
próprios.” (A Gênese, cap. XI, item 1.)
[O negrito é de nossa autoria.]
Assinale-se, no entanto, que na Revue Spirite,
em inúmeras passagens publicadas em anos
distintos, Kardec utilizou o termo “princípio
inteligente” como sinônimo de alma, o que é
possível verificar na Revue de 1861, pág. 242;
na Revue de 1864, pp. 138 e 139; na Revue de
1865, pág. 95, e na Revue de 1868, págs. 259 e
260, conferindo ao termo “princípio
espiritual” a ideia de elemento espiritual,
em oposição a elemento material.
Concluindo, entendemos que se trata de
expressões sinônimas, mas seria mais prudente
usar o termo “princípio espiritual” como
elemento, em oposição a “princípio material”,
reservando a expressão “princípio
inteligente” para os casos em que
queremos referir-nos à parte imaterial presente
nos seres vivos e que sobrevive ao fenômeno da
morte. No caso dos animais e dos homens, a essa
parte imaterial individualizada o Espiritismo dá
o nome de alma.