Diálogo e opiniões
Sempre ouvi dizer que o diálogo é a solução para que
possamos dirimir controvérsias e nos apaziguarmos uns
com os outros.
Tristemente, percebo, ao longo de minha existência, que
ainda estamos distantes do consenso pelo uso da
ponderação, da conversa saudável, da possibilidade de
exteriorizarmos uma opinião sem que venha, em nossa
direção, uma enxurrada de petardos, de contraposições
recheadas de arrogância, de radicalismo exacerbado, sem
que ninguém queira abdicar de suas ideias.
Lamentavelmente, o que seria o caminho para o
apaziguamento de situações conflitantes ou meramente a
possibilidade de uma troca de ideias que poderiam
resultar em aprendizado acaba por gerar conflitos ainda
maiores.
O que estaria por detrás de tais posturas?
Mais uma vez, desembocamos no maior entrave de
crescimento nas relações interpessoais, que é o orgulho.
Sabemos ser ele, o orgulho, o pai de todas as mazelas e
defeitos de nossas almas. Dele decorrem todas as
imperfeições que ainda temos: egoísmo, vaidade,
personalismo, inveja, ciúmes e tantas outras facetas
sombrias que emperram o nosso crescimento espiritual.
Quando falamos sobre ser urgente a necessidade de nos
conhecermos, nada há de exagero, pois somente nos
conhecendo e todos os sentimentos que animam nosso ser
iniciaremos a transformação.
Muitas vezes, por meio da escrita, manifestei minha
opinião sobre alguns comportamentos atávicos que estão
fortemente arraigados no nosso modo de viver, sem que
consigamos sair de nossa “zona de conforto” e encarar,
de forma madura, o real estágio evolutivo em que nos
encontramos e dar passos adiante.
Para a Doutrina Espírita, não há retrocessos na nossa
condição, mas a estagnação é algo que ocorre amiúde.
Encarnamos e desencarnamos repetindo posicionamentos,
vindo, em nossa direção, experiências corretivas, e
acabamos resvalando para a “vitimização” ou
ignorando-as, deixando o orgulho imperar.
Assim, como aceitarmos as diferenças que existem entre
todos nós, principalmente no campo das ideias? Como
poderemos ser fraternos, solidários, afetuosos,
reforçando cada vez mais os laços de amor, se não
suportamos sequer uma opinião que divirja da nossa?
O ser consciente não quer subjugar outras criaturas,
pois sabe que a palavra é uma corrente de força que
conduz sons e veicula sentimentos. O verbo é a veste do
pensamento; por isso, ao opinarmos, devemos sempre ter
em mente que poderemos encontrar divergências e divergir
não significa desprezar o outro porque pensa diferente.
Assim deveria ser, mas não é.
Em tempos atuais, as redes sociais mostram exatamente o
patamar moral no qual nos encontramos e quanta
intolerância nutrem uns pelos outros. Muitos desopilam
venenos, inverdades, sarcasmos, insensibilidade diante
das tragédias que têm acontecido aqui e acolá.
Familiares e amigos se desentendendo porque pensam de
forma diferente.
Lamentavelmente, a questão do respeito pelas opiniões
diferentes, o diálogo, que, para mim, ainda é algo que
raramente acontece, está atrelada ao maldito orgulho que
ainda temos dentro de nós.
Assim como o nosso direito de ir e vir, coroado por
todas as legislações democráticas, expressar opiniões,
com respeito às dos outros, é tão essencial quanto.
Se eu pudesse aconselhar, mas sabendo, de antemão, que,
se conselho fosse bom, ninguém daria, diria que
tivéssemos mais respeito uns pelos outros. Cada um de
nós é uma individualidade com bagagens diferentes e cabe
a todo aquele que está um pouco mais adiantado ajudar o
retardatário; assim como, ouvindo e dialogando,
aprendemos com os mais adiantados. E podemos fazer isso
sem agressões, sem dissensões que nos levam a lugar
nenhum.
Indubitavelmente, muitas pessoas existem de parecer
estimável, às quais podemos recorrer nos momentos
oportunos, mas não esperemos ressonância de nossas
ideias em todos.
Finalizando, um pensamento de Emmanuel para encerrarmos
o assunto: “Examina o material dos ignorantes e
caluniadores como proveitosa advertência e recorda-te de
que não é possível conciliar o dever com a leviandade,
nem a verdade com a mentira.” (Caminho, Verdade e
Vida, p. 175 – 16ª edição.)