Crédito e débito
ou resgate e
mérito
Algumas palavras
frequentemente
observadas no
vocabulário
espírita, e que
devem ser
adequadamente
conceituadas:
resgate e
mérito, débito e
crédito.
Habitualmente
temo-nos
referido a essas
palavras
considerando a
penalogia
divina, como
contas de
crédito e
débito. Deus
seria um
previsível
contador e suas
leis um
livro-caixa,
onde estão
registrados como
crédito as boas
obras, e como
débito as ações
equivocadas.
Resgatar seria o
mesmo que quitar
uma dívida e
adquirir mérito
seria o
equivalente a
receber
dividendos para
uso futuro.
Essa ideia se
aplica muito bem
a uma moral
heteronômica, ou
seja, a moral
cuja a norma vem
de fora.
A pessoa obedece porque
existe uma
autoridade
externa dizendo
o que é certo e
errado, e
contabilizando
os erros e
acertos. A moral
apresentada nos
evangelhos é
heteronômica:
Não matarás, mas
quem matar será
castigado pelo
juízo do
tribunal[...]
todo aquele que
se irar contra
seu irmão será
castigado pelos
juízes. Aquele
que disser a seu
irmão: Raca,
será castigado
pelo Grande
Conselho. Aquele
que lhe disser:
Louco, será
condenado ao
fogo da geena.[i]
Acontece que a
moral espírita é
autonômica,
porque se
estabelece na
intimidade do
ser e é regida
pela própria
consciência:
Dependente o
sofrimento da
imperfeição,
como o gozo da
perfeição, a
alma traz
consigo o
próprio castigo
ou prêmio, onde
quer que se
encontre, sem
necessidade de
lugar
circunscrito.[ii]
A crença em um
automatismo
regido pela Lei
divina precede o
pensamento
espírita. No
discurso que o
celebrizou,
pronunciado em
1838, Ralph
Waldo Emerson,
escritor,
ensaísta, poeta
e filósofo
norte-americano
do século XIX,
citado por
William James,
disse:
Estas leis
[divinas]
cumprem-se por
si mesmas. Elas
estão fora do
tempo, fora do
espaço, e não
sujeitas a
circunstâncias.
Assim, na alma
do homem há uma
justiça cujas
retribuições são
instantâneas e
inteiras. Aquele
que pratica uma
boa ação é
instantaneamente
enobrecido.
Aquele que
pratica um ato
vil é diminuído
pelo próprio
ato. Quem repele
a impureza
veste-se de
pureza. Se for
justo de
coração, o homem
será Deus
enquanto justo;
a segurança de
Deus, a
imortalidade de
Deus, a
majestade de
Deus penetram
nesse homem com
a justiça. Se um
homem dissimula
e engana,
engana-se a si
mesmo e perde o
conhecimento do
próprio ser. O
caráter é sempre
conhecido. Os
roubos nunca
enriquecem; as
esmolas nunca
empobrecem; do
assassínio
falarão todas as
paredes de
pedra.[iii]
Não sabemos se
Kardec conhecia
as ideias de
Emerson, mas o
pensamento do
grande filósofo
americano se
identifica
plenamente com a
obra kardequiana
como se vê nesse
texto:
Mas, será
necessário que
Deus atente em
cada um dos
nossos atos,
para nos
recompensar ou
punir? Esses
atos não são, na
sua maioria,
insignificantes
para ele?
- Deus tem suas
leis a regerem
todas as vossas
ações. Se as
violais, vossa é
a culpa.
Indubitavelmente,
quando um homem
comete um
excesso
qualquer, Deus
não profere
contra ele um
julgamento,
dizendo-lhe, por
exemplo: Foste
guloso, vou
punir-te. Ele
traçou um
limite; as
enfermidades e
muitas vezes a
morte são a
consequência dos
excessos. Eis aí
a punição; é o
resultado da
infração da lei.
Assim em tudo.[iv]
Assim, os
conceitos de
resgate/débito e
mérito/crédito
devem ser
entendidos a
partir de uma
moral
autonômica.
Resgatar deve
ser visto como
aprender: viver
uma experiência
dolorosa para
adquirir
instrumentos
morais que
permitam ao
faltoso não
repetir o erro.
Segundo Kardec, o
Espírito sofre
pelo mal que
fez, de maneira
que, sendo a sua
atenção
constantemente
dirigida para as
consequências
desse mal,
melhor
compreende os
seus
inconvenientes e
trata de
corrigir-se. [v]
Só assim faz
sentido o
pensamento
kardequiano
segundo o qual a
duração do
castigo depende
da melhoria do
Espírito
culpado.[vi]
Kardec reforça a
ideia lembrando
que os sofrimentos
são uma
advertência de
que ele andou
mal. Dão-lhe a
experiência e o
fazem sentir, a
diferença entre
o bem e o mal,
bem como a
necessidade de
se melhorar,
para evitar no
futuro o que já
foi para ele uma
causa de mágoas.
Sem isso, ele
não teria nenhum
motivo para se
emendar, e
confiante na
impunidade,
retardaria o seu
adiantamento, e,
portanto, a sua
felicidade
futura.[vii]
E ainda Kardec:
[...] estando em
expiação na
Terra, os homens
se punem a si
mesmos pelo
contato de seus
vícios, cujas
primeiras
vítimas são eles
próprios e cujos
inconvenientes
acabam por
compreender.
Quando estiverem
cansados de
sofrer devido ao
mal, procurarão
remédio no bem.
A reação desses
vícios serve,
pois, ao mesmo
tempo, de
castigo para uns
e de provas para
outros.[viii]
Mérito e
crédito, por sua
vez, sob a
vigência da
moral
autonômica, não
devem ser vistos
como algo
“monetariamente”
adquirido,
contabilizado e
disponível para
uso quando
necessário.
Devem ser vistos
como aquisições
pessoais,
íntimas, que
vigem na própria
individualidade:
luz pessoal,
desenvolvimento
intelecto-moral
fundado na
capacidade de
melhor
compreender e
melhor agir.
Quando então
afirmamos que
uma experiência
custosa de
serviço ao
próximo nos dá
mais créditos,
ou redunda em
mais mérito,
entendamos o
sentido real da
expressão. Essas
experiências não
significam
pontos a serem
resgatados no
futuro;
representam
desenvolvimento
espiritual;
melhor
capacitação na
faculdade de
compreender,
sentir e amar.
[ii] O
céu e o
inferno,
parte I,
cap. 7
[iii] Variedades
da
experiência
religiosa,
William
James
[iv] O
Livro
dos
Espíritos,
item 964
[vii] O
evangelho
segundo
o
Espiritismo,
cap. V
[viii] O
evangelho
segundo
o
Espiritismo,
cap. 8,
item 14.