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por Ricardo Baesso de Oliveira

 

Crédito e débito ou resgate e mérito


Algumas palavras frequentemente observadas no vocabulário espírita, e que devem ser adequadamente conceituadas: resgate e mérito, débito e crédito.

Habitualmente temo-nos referido a essas palavras considerando a penalogia divina, como contas de crédito e débito. Deus seria um previsível contador e suas leis um livro-caixa, onde estão registrados como crédito as boas obras, e como débito as ações equivocadas. Resgatar seria o mesmo que quitar uma dívida e adquirir mérito seria o equivalente a receber dividendos para uso futuro.

Essa ideia se aplica muito bem a uma moral heteronômica, ou seja, a moral cuja a norma vem de fora. A pessoa obedece porque existe uma autoridade externa dizendo o que é certo e errado, e contabilizando os erros e acertos. A moral apresentada nos evangelhos é heteronômica:

Não matarás, mas quem matar será castigado pelo juízo do tribunal[...] todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes. Aquele que disser a seu irmão: Raca, será castigado pelo Grande Conselho. Aquele que lhe disser: Louco, será condenado ao fogo da geena.[i]

Acontece que a moral espírita é autonômica, porque se estabelece na intimidade do ser e é regida pela própria consciência:

Dependente o sofrimento da imperfeição, como o gozo da perfeição, a alma traz consigo o próprio castigo ou prêmio, onde quer que se encontre, sem necessidade de lugar circunscrito.[ii]

A crença em um automatismo regido pela Lei divina precede o pensamento espírita. No discurso que o celebrizou, pronunciado em 1838, Ralph Waldo Emerson, escritor, ensaísta, poeta e filósofo norte-americano do século XIX, citado por William James, disse:

Estas leis [divinas] cumprem-se por si mesmas. Elas estão fora do tempo, fora do espaço, e não sujeitas a circunstâncias. Assim, na alma do homem há uma justiça cujas retribuições são instantâneas e inteiras. Aquele que pratica uma boa ação é instantaneamente enobrecido. Aquele que pratica um ato vil é diminuído pelo próprio ato. Quem repele a impureza veste-se de pureza. Se for justo de coração, o homem será Deus enquanto justo; a segurança de Deus, a imortalidade de Deus, a majestade de Deus penetram nesse homem com a justiça. Se um homem dissimula e engana, engana-se a si mesmo e perde o conhecimento do próprio ser. O caráter é sempre conhecido. Os roubos nunca enriquecem; as esmolas nunca empobrecem; do assassínio falarão todas as paredes de pedra.[iii]

Não sabemos se Kardec conhecia as ideias de Emerson, mas o pensamento do grande filósofo americano se identifica plenamente com a obra kardequiana como se vê nesse texto:

Mas, será necessário que Deus atente em cada um dos nossos atos, para nos recompensar ou punir? Esses atos não são, na sua maioria, insignificantes para ele?

- Deus tem suas leis a regerem todas as vossas ações. Se as violais, vossa é a culpa. Indubitavelmente, quando um homem comete um excesso qualquer, Deus não profere contra ele um julgamento, dizendo-lhe, por exemplo: Foste guloso, vou punir-te. Ele traçou um limite; as enfermidades e muitas vezes a morte são a consequência dos excessos. Eis aí a punição; é o resultado da infração da lei. Assim em tudo.[iv]

Assim, os conceitos de resgate/débito e mérito/crédito devem ser entendidos a partir de uma moral autonômica.

Resgatar deve ser visto como aprender: viver uma experiência dolorosa para adquirir instrumentos morais que permitam ao faltoso não repetir o erro.

Segundo Kardec, o Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para as consequências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se[v]

Só assim faz sentido o pensamento kardequiano segundo o qual a duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado.[vi]

Kardec reforça a ideia lembrando que os sofrimentos são uma advertência de que ele andou mal. Dão-lhe a experiência e o fazem sentir, a diferença entre o bem e o mal, bem como a necessidade de se melhorar, para evitar no futuro o que já foi para ele uma causa de mágoas. Sem isso, ele não teria nenhum motivo para se emendar, e confiante na impunidade, retardaria o seu adiantamento, e, portanto, a sua felicidade futura.[vii]

E ainda Kardec:

[...] estando em expiação na Terra, os homens se punem a si mesmos pelo contato de seus vícios, cujas primeiras vítimas são eles próprios e cujos inconvenientes acabam por compreender. Quando estiverem cansados de sofrer devido ao mal, procurarão remédio no bem. A reação desses vícios serve, pois, ao mesmo tempo, de castigo para uns e de provas para outros.[viii]

Mérito e crédito, por sua vez, sob a vigência da moral autonômica, não devem ser vistos como algo “monetariamente” adquirido, contabilizado e disponível para uso quando necessário. Devem ser vistos como aquisições pessoais, íntimas, que vigem na própria individualidade: luz pessoal, desenvolvimento intelecto-moral fundado na capacidade de melhor compreender e melhor agir.

Quando então afirmamos que uma experiência custosa de serviço ao próximo nos dá mais créditos, ou redunda em mais mérito, entendamos o sentido real da expressão. Essas experiências não significam pontos a serem resgatados no futuro; representam desenvolvimento espiritual; melhor capacitação na faculdade de compreender, sentir e amar.


 

[i] Mateus 5:21-22

[ii] O céu e o inferno, parte I, cap. 7

[iii] Variedades da experiência religiosa, William James

[iv] O Livro dos Espíritos, item 964

[v] Idem

[vi] Idem

[vii] O evangelho segundo o Espiritismo, cap. V

[viii] O evangelho segundo o Espiritismo, cap. 8, item 14.


 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita