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Relativismo moral e desvirtuamento moral
Existe um ditado que diz: “não há como entrar em um
chiqueiro e sair dele limpo”. É uma metáfora sobre
influência ambiental e integridade moral.
O ditado alerta que é impossível entrar na lama e sair
dela sem se sujar, ou seja, você sairá sujo de qualquer
maneira daquele lamaçal, que poderá representar
situações de desvios de condutas ou moralmente duvidosas
e comprometedoras.
Os adeptos do relativismo moral poderão defender a ideia
de que, ao entrar em um lamaçal, você poderá sair nem
tanto sujo, atingindo apenas os pés. Mas, sairá sujo!
Paulo de Tarso, na Primeira Carta aos Coríntios (1
Coríntios 10: 23), disse: “Tudo é permitido, mas nem
tudo convém. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica”.
Essa mensagem baseada na ética cristã coloca na balança
a liberdade individual e a responsabilidade moral. No
uso do livre-arbítrio, tudo é permitido pela liberdade
de escolha e agir, mas nem tudo convém ser realizado,
devendo ser avaliada a possível consequência, boa ou
ruim, para si mesmo e aos outros.
Verdades absoluta e relativa
Verdade é propriedade de estar de acordo com o fato ou a
realidade. Ela pode ser uma resposta científica
comprovada pela análise de fatos, fenômenos e dados, com
conclusões baseadas em evidências, as quais podem ser
repetidas por outros pesquisadores no alcance dos mesmos
resultados.
A filosofia aborda a verdade nas formas absoluta e
relativa.
O pensamento que identifica verdade absoluta, universal
e imutável sustenta que a realidade existe de forma
independente da consciência humana, dos seus desejos,
medos ou esperanças, ou seja, a realidade não é moldada
pela opinião pessoal ou convenção social.
O pensamento relativista argumenta que a verdade depende
de percepção da realidade, da perspectiva de vida, da
cultura, do contexto, dos valores, da época, das
opiniões de cada indivíduo, porquanto verdade pode ser
para um e a outro não. Por essa visão, a verdade não é
absoluta, universal ou imutável.
Pelo relativismo, a percepção de cada um molda a
realidade de sua visão de vida, sociedade ou grupo
social, dentro de uma subjetividade que se contrapõe aos
argumentos absolutos.
Nesse sentido, o relativismo moral aceita a
multiplicidade de visões como legítima diante de
diferentes conceitos, muitas vezes contraditórios entre
si.
O paradoxo do relativismo é que toda verdade é relativa,
podendo validar, por exemplo, atos de violência ou
opressão como legítimos.
Valores éticos e morais
Os valores éticos são princípios e reflexões críticas
sobre a conduta, que orientam o comportamento, a
convivência justa, o bem-estar coletivo e a coexistência
harmônica, buscando o equilíbrio entre interesses
individuais, sociais e de grupos.
Os valores morais são princípios construídos socialmente
que definem o certo e o errado, norteando o
comportamento e a convivência harmoniosa que moldam o
senso de todos.
Valores religiosos
Valores religiosos são princípios, crenças e normas
éticas fundamentadas em doutrinas sagradas que guiam o
comportamento, as decisões e o estilo de vida dos fiéis.
Baseados na fé, buscam orientar a vida, promover a
harmonia espiritual e o amor ao próximo, com foco em
virtudes como humildade, caridade, perdão, piedade,
compaixão, solidariedade e fraternidade.
Relativismo moral
O relativismo moral é perspectiva de que não existe
verdade absoluta, variando a compreensão do que é certo
ou errado de acordo com a influência externa ambiental.
Por essa visão, a moralidade é subjetiva, o que poderá
implicar no desvirtuamento de valores éticos, podendo
justificar comportamentos inaceitáveis à dignidade
humana, por exemplo, em nome da tolerância e do respeito
cultural.
A moral, o bem e o mal
Na questão 629, em O Livro dos Espíritos, de
Allan Kardec, a resposta relaciona a definição de moral
com o bem e o mal: “A moral é a regra de bem
proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se
na observância da lei de Deus. O homem procede bem
quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a
lei de Deus.”
Na questão 625, Kardec comenta que Jesus constitui o
tipo da perfeição moral a que a humanidade pode aspirar
na Terra e a sua doutrina é a expressão mais pura da lei
de Deus. Por conseguinte, Jesus é a maior referência de
perfeição moral para ser seguida.
Na questão 630, para distinguir o bem do mal, a resposta
é: “O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus; o
mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é
proceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é
infringi-la.”
A respeito de possível relativismo moral, na questão
636, os Espíritos Superiores são enfáticos: “A lei de
Deus é a mesma para todos; porém, o mal depende
principalmente da vontade que se tenha de o praticar. O
bem é sempre o bem e o mal sempre o mal, qualquer que
seja a posição do homem. Diferença só há quanto ao grau
da responsabilidade.”
O Espírito Miramez, no livro Filosofia Espírita,
na psicografia de João Nunes Maia, Volume XIII, Capítulo
24 – Para todos –, comenta a questão 636 de O Livro
dos Espíritos:
“A lei de Deus é para todas as criaturas; do mesmo modo
que ela atua em uma pessoa primitiva, ela se manifesta
em um civilizado. A diferença que se processa é a
maturidade, é o uso da inteligência de cada um. (...)
As coisas pequenas são tão perigosas quanto as grandes,
porque a grande era, no princípio, pequena, e se
persistires nos pequenos erros, vê-los-ás crescerem e
tornarem-se mais difíceis de serem corrigidos.
‘Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é
injusto no pouco, também é injusto no muito.’ (Lucas,
16:10)
Purificação é purificação. O dever do Espírito é, pois,
eliminar todo o mal da sua vida, eliminar toda a
injustiça dos seus passos, e procurar ser fiel e justo
em tudo. Basta começares com Jesus esse trabalho, que
Ele te dará forças para venceres a ti mesmo, em todas as
lutas de autoaperfeiçoamento espiritual.
Há grandes diferenças entre o bem e o mal: um é eterno,
e o outro é passageiro, e o mal ainda coopera para a
edificação do bem. Essa é a lei do progresso. As
diferenças dos homens, de uns para com os outros, é o
grau de responsabilidade nos caminhos da vida. Em suma,
é a responsabilidade do que devem fazer, no empuxo do
progresso.
O que chamas de mal, que é a força do bem mal
compreendida, deixa de se expressar no mundo quando a
humanidade passa a amar a Deus sobre todas as coisas e
ao próximo como a si mesma. O amor é a força divina, o
transformador de todas as coisas para melhor. Ele é luz
que sai do coração de Deus para iluminar os corações
humanos, na solução de todos os problemas criados pelos
Espíritos ignorantes, e ainda alimentando a simplicidade
que ainda não se esclareceu.”
Portanto, independente da sua vontade, perante a lei de
Deus, não há relativismo moral, pois “o bem é sempre
o bem e o mal sempre o mal”, quer seja nas pequenas
coisas como nas maiores.
Na questão 638, em O Livro dos Espíritos, a
resposta reafirma que “o mal não deixa de ser o mal”,
esclarecendo que a necessidade de praticar o mal
desaparece à medida que a alma se depura, passando de
uma para outra existência em seu processo evolutivo.
A esse respeito dessa resposta, o Espírito Miramez, no
mesmo livro, no Capítulo 26 – Escândalo –, comenta:
“O verdadeiro erro se encontra no mal, que desfaz a
fraternidade e faz esquecer o amor; que não conhece a
caridade, e muito menos o perdão. Disse ‘O Livro dos
Espíritos’: Embora necessário, o mal não deixa de ser o
mal.
O Espiritismo, codificado pelo ilustre professor Allan
Kardec, junto ao qual muitos Espíritos puros
trabalharam, vem, pela força do amor de Jesus nos ajudar
a não precisarmos mais de escandalizar. Essa necessidade
desaparece à medida que o Espírito vai se depurando,
porque ‘o amor cobre a multidão dos pecados’, disse o
apóstolo Pedro. Cobre porque instrui e educa, traz ao
homem, ou mesmo ao Espírito desencarnado, a luz do
entendimento. A alegria nele é constante, por se alegrar
pelo amor, e perdoa por amor aos seus semelhantes.
Quem dota as almas dessa pureza, são os processos da
reencarnação. É, pois, de corpo a corpo, de passo a
passo na senda da vida e nas vidas sucessivas, que o
Espírito se sente livre de todo mal. A grande cooperação
da Doutrina dos Espíritos é nos ensinar a fazer e sentir
a caridade, força poderosa que vibra e liberta as
criaturas em todos os mundos.
Se tu sentes necessidade de escandalizar, tem cuidado,
que o teu mundo interno não vai bem. Usa o recurso da
oração e da vigilância, para não caíres em novas
tentações, porque o fruto do mal é a desarmonia de todos
os sentimentos. Compete a cada um policiar-se a si
mesmo, estudar a natureza e buscar em Cristo todo o
socorro para manifestação do bem universal em nossos
caminhos.
O Espírito foi criado, tornamos a repetir, simples e
ignorante, e para que ele desperte, ou comece a
despertar suas qualidades que dormem na consciência,
necessário se faz que a princípio ele conheça o mal. É
pelas consequências do mal, que o bem surge com todo o
seu fulgor. Para conhecer um homem de bem, verifica se a
sua vida é um bem contínuo, se esse homem ama dentro da
universalidade das coisas, se esse homem perdoa, sem
condições estipuladas.
Tudo no mundo se encontra dirigido pela justiça, que é o
mesmo amor e a mesma harmonia universal. Se já conheces
o Evangelho, e se já te esforças para vivê-lo, não
compensa dares escândalos, por ser a sua corrigenda
dolorosa.”
Nesse sentido, a prática do bem como virtude está
relacionada à prática do verdadeiro e puro amor em toda
a sua plenitude, que foi ensinado e exemplificado pelo
Cristo, sendo o conjunto de todas as qualidades
essenciais para a pessoa de bem, caridosa e laborioso.
Os efeitos da prática da lei de amor são o melhoramento
moral da raça humana e a felicidade durante a vida
terrestre.
Não fazer aos outros o que não deseja a você mesmo
“Fazei aos homens tudo o que queirais que eles vos
façam, pois é nisto que consistem a lei e os profetas”. (Mateus,
7: 12)
Essa regra ensinada por Jesus é essencial para prática
da lei de amor e caridade, sendo guia para o
comportamento de todos, visando afastar todos os
sentimentos inferiores para evoluir moral e
espiritualmente.
Integridade moral
“Vocês também ouviram o que foi dito aos seus
antepassados: não jure falsamente, mas cumpra os
juramentos que você fez diante do Senhor. Mas eu lhes
digo: não jurem de forma alguma: nem pelo céu, porque é
o trono de Deus; nem pela terra, porque é o estrado de
seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande
Rei. E não jure pela sua cabeça, pois você não pode
tornar branco ou preto nem um fio de cabelo. Seja o seu
sim, sim, e o seu não, não; o que passar disso vem do
maligno”.
(Mateus, 5: 33-37)
Essa passagem destaca a importância de sermos íntegros,
fiéis aos valores éticos e morais que balizam o caminho
na direção do Pai, praticando a verdade divina que
liberta a alma, com amor, caridade, sem falsos
juramentos e promessas que não podem ser cumpridas,
tendo vigilância, perseverança e cuidado para não cair
em tentação.
É o chamamento à responsabilidade de valor moral,
enfatizando a importância de ser verdadeiro, íntegro e
consistente na ação.
O Mestre destaca que o discípulo fiel deve ter como
regra de conduta a firmeza da coragem moral que
determina: “Seja
o seu sim, sim, e o seu não, não; o que passar disso vem
do maligno”.
Sejamos leais, sinceros, justos e autênticos, porquanto
a virtude não tem duas faces e tampouco é relativa: não
há como acreditar em meia-virtude. O hábito da virtude
se reflete nos atos, do mais simples ao mais complexo.
A verdadeira virtude é universal, com padrões éticos e
morais que transcendem diferenças culturais e pessoais,
devendo ser seguidos independentemente de opiniões e
circunstâncias.
O relativismo moral opõe-se à universalidade da virtude,
afastando-se dos valores essenciais da vida que
sustentam o caráter das pessoas íntegras, provocando
nelas os seus desvirtuamentos.
Integridade moral é qualidade de agir estritamente de
acordo com princípios éticos, que exigem ações alinhadas
com os valores morais perenes no caminho da prática do
bem.
Assim, o relativismo moral conduz para o desvirtuamento
moral, alterando e modificando a sua essência, a sua
finalidade, o seu significado, os seus valores e os seus
atributos de comportamentos desejados na prática do bem,
porquanto o bem sempre será o bem e o mal sempre será o
mal, quer seja no pouco ou no muito, em que o muito foi
pouco um dia, como no Evangelho de Lucas: “Quem
é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é
injusto no pouco, também é injusto no muito.”
Como disse o Espírito Miramez: “O
dever do Espírito é, pois, eliminar todo o mal da sua
vida, eliminar toda a injustiça dos seus passos, e
procurar ser fiel e justo em tudo”.
Por isso, procure ser íntegro em suas ações e atitudes
sem desviar do caminho do bem, buscando resistir a todas
as influências que lhe apresentem desvios de condutas,
retardando o seu progresso moral e espiritual em direção
do seu destino determinado pelo Pai eterno.
“Seja
o seu sim, sim, e o seu não, não; o que passar disso vem
do maligno”. (Mateus,
5:37.)
Bibliografia:
BÍBLIA SAGRADA.
KARDEC, Allan; tradução de Guillon
Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª
Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira,
2019.
KARDEC, Allan; tradução de Guillon
Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição.
Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
MIRAMEZ (Espírito); na psicografia de
João Nunes Maia. Filosofia espírita: comentários às
perguntas de “O Livro dos Espíritos”. Volume XIII.
1ª Edição. Belo Horizonte/MG. Editora Espírita Cristã
Fonte Viva, 1990.
SCHUTEL, Cairbar. Parábolas e Ensino
de Jesus. 28ª Edição. Matão/SP: Casa Editora O
Clarim, 2016.
SIMONETTI, Richard. A voz do monte:
lições do Cristo para uma melhor vida. 10ª Edição.
Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2020.
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