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por Anselmo Ferreira Vasconcelos

 

Ninguém é dono de ninguém


Mais um terrível drama passional é solucionado em São Paulo. Desta vez, o feminicida era um tenente-coronel da Polícia Militar, que matou a sua jovem companheira e ainda simulou – com desfaçatez e com todos os recursos ao seu alcance – o suicídio dela. No entanto, como se diz popularmente, “não existe crime perfeito”. Devido à proficiência dos investigadores, aos poucos o crime foi sendo desvendado e o seu autor não teve como escapar da verdade dos fatos.

A imprensa revelou que ele exercia um comportamento abusivo sobre a vítima, não deixando-a desfrutar de liberdade. Como era extremamente possessivo e ciumento, no auge do seu descontrole psicológico cometeu o crime cruel tirando a vida da sua esposa, que, aliás, já havia manifestado o desejo de realizar a separação, conforme informou a família. Infelizmente, não houve tempo suficiente pra isso.

De modo geral, os números apontam uma elevada onda de crimes dessa natureza ocorrendo não apenas no Brasil, mas também em outros países, o que suscita as perguntas: mas, afinal, o que está acontecendo com os homens? Por que insistir numa relação já emocionalmente degradada? Por que apelar covardemente para a violência no trato com as suas companheiras? Onde fica a razão e o bom senso em meio a atitudes tão chocantes? Vale a pena matar uma pessoa com a qual se vive junto desgraçando a própria existência?

É claro que discorrer sobre todas as possibilidades existentes demandaria muita análise, o que certamente cansaria o(a) leitor(a). Entretanto, há um aspecto essencial nesse tema que constitui uma verdade basilar e que precisa ser sempre lembrada: ninguém é dono de ninguém. Essa afirmação é especialmente importante para aqueles que decidem estreitar os seus relacionamentos (e aqui o raciocínio vale para todas as configurações de gênero). É imperioso nunca esquecer tal máxima e, assim, acalmar as emoções e sentimentos quando a relação do casal dá mostras de desgaste irremediável.

Mais ainda, é preciso ter, nessa delicada fase relacional  - na qual as coisas começam a desandar, as diferenças de opiniões assomam, as ideias não casam mais, os valores de vida e percepções passam a ser conflitantes -, muita maturidade psicológica e equilíbrio espiritual para enfrentar a realidade dos fatos tais quais se apresentam e buscar uma separação amigável como se espera, enfim, de seres civilizados.

Afinal de contas, cada ser é um universo a parte, pois o Senhor da Vida nos deu a benção da individualidade. Por isso, não somos iguais um ao outro e as afinidades podem ser mínimas, quando não são simplesmente inexistentes. Da atração inicial, geralmente física, ao amadurecimento de uma relação, um longo caminho haverá de ser trilhado requerendo adaptação, flexibilidade e até renúncia de ambas as partes. Convenhamos, nem todos estão dispostos a ceder um milímetro na sua forma de ser, e menos ainda mudar as suas convicções, pendores e aspirações, impossibilitando, assim, a união em muitas ocasiões. Mais grave ainda, nem só de sexo uma relação se sustenta. Quem pensa assim terá uma grande decepção cedo ou tarde.

Posto isto, para a união de um casal perdurar, é preciso esforço contínuo, empatia (para entender e, eventualmente, aceitar as diferenças em relação ao outro), boa vontade e disposição sincera para dar o melhor em prol da harmonia geral. Não é pouca coisa a fazer, é verdade, mas são passos vitais. Precisa-se também demonstrar a capacidade de saber ouvir, respeitar e sobretudo ajudar quando o parceiro(a) enfrenta uma crise pessoal. Notem que não estou esgotando todos os aspectos. Estou apenas discorrendo sobre alguns mais básicos.

Creio que a relação de um casal é uma excelente oportunidade de exercitarmos a nossa capacidade de doar a nossa atenção ao ser amado. Por conseguinte, assumiremos forçosamente papéis distintos ao longo da convivência, pois seremos para o nosso parceiro(a), a depender da situação vivida, também irmão/irmã, pai/mãe ou amigo/amiga. Convém igualmente recordar que nem todos os casais atuam na mesma área profissional, e isso pode causar eventuais problemas, pois podem surgir rotinas diferentes de vida. Nesse sentido, é indispensável a dilatação da capacidade de compreensão.

Um outro aspecto riquíssimo numa relação é a disposição de ajudar/cooperar com o(a) parceiro(a) além, obviamente, das questões gerais de gestão do lar. Por exemplo, a minha finada companheira sempre foi uma dedicada revisora dos meus textos. Lia-os com muita atenção e até fazia sugestões. Ela entendia perfeitamente a natureza e o escopo do meu trabalho contribuindo sempre com as suas apreciáveis possibilidades. Sabia que para eu realizá-lo apropriadamente havia a necessidade de intensa leitura e concentração, não me distraindo e muito menos perturbando. Às vezes até pegava um livro na estante - sob minha solicitação - para me ajudar a não quebrar o ritmo da redação/pesquisa. De minha parte, sou eternamente grato a ela também por isso. Compartilhava das minhas realizações e se alegrava com elas. Considero esse aspecto, aliás, fundamental para uma parceria de vida bem-sucedida, ou seja, sentir-se feliz pela felicidade do(a) companheiro(a). Penso que é assim que ambas crescem como filhos de Deus.

Creio ainda que se interessar pelo que o(a) parceiro(a) faz e, por que não, participar ou pelo menos algo aprender a respeito, coloca o casal na saudável trilha de construção das afinidades. Afinal de contas, relacionamentos humanos sólidos geralmente possuem tal característica. E se apesar de tomados os devidos cuidados a “química” do casal não funcionar, é porque não era para dar certo – pelo menos naquele momento...

Às vezes, a separação é indutora de profundas reflexões nas almas, levando-as até mesmo a conclusões posteriores surpreendentes. Dito de outra forma, com a passagem do tempo, os indivíduos podem perceber com mais clareza os seus erros, equívocos e mudar a forma de pensar, levando-os, eventualmente, até mesmo a reatar.  Seja como for, não obstante o natural sentimento de frustração advindo de uma separação, tenhamos em mente que a vida dever continuar, e com ela a consciência, repito, de que ninguém é dono de ninguém.
 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita