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Ninguém é
dono de ninguém
Mais um terrível drama
passional é solucionado
em São Paulo. Desta vez,
o feminicida era um
tenente-coronel da
Polícia Militar, que
matou a sua jovem
companheira e ainda
simulou – com desfaçatez
e com todos os recursos
ao seu alcance – o
suicídio dela. No
entanto, como se diz
popularmente, “não
existe crime perfeito”.
Devido à proficiência
dos investigadores, aos
poucos o crime foi sendo
desvendado e o seu autor
não teve como escapar da
verdade dos fatos.
A imprensa revelou que
ele exercia um
comportamento abusivo
sobre a vítima, não
deixando-a desfrutar de
liberdade. Como era
extremamente possessivo
e ciumento, no auge do
seu descontrole
psicológico cometeu o
crime cruel tirando a
vida da sua esposa, que,
aliás, já havia
manifestado o desejo de
realizar a separação,
conforme informou a
família. Infelizmente,
não houve tempo
suficiente pra isso.
De modo geral, os
números apontam uma
elevada onda de crimes
dessa natureza ocorrendo
não apenas no Brasil,
mas também em outros
países, o que suscita as
perguntas: mas, afinal,
o que está acontecendo
com os homens? Por que
insistir numa relação já
emocionalmente
degradada? Por que
apelar covardemente para
a violência no trato com
as suas companheiras?
Onde fica a razão e o
bom senso em meio a
atitudes tão chocantes?
Vale a pena matar uma
pessoa com a qual se
vive junto desgraçando a
própria existência?
É claro que discorrer
sobre todas as
possibilidades
existentes demandaria
muita análise, o que
certamente cansaria o(a)
leitor(a). Entretanto,
há um aspecto essencial
nesse tema que constitui
uma verdade basilar e
que precisa ser sempre
lembrada: ninguém é
dono de ninguém.
Essa afirmação é
especialmente importante
para aqueles que decidem
estreitar os seus
relacionamentos (e aqui
o raciocínio vale para
todas as configurações
de gênero). É imperioso
nunca esquecer tal
máxima e, assim, acalmar
as emoções e sentimentos
quando a relação do
casal dá mostras de
desgaste irremediável.
Mais ainda, é preciso
ter, nessa delicada fase
relacional - na qual as
coisas começam a
desandar, as diferenças
de opiniões assomam, as
ideias não casam mais,
os valores de vida e
percepções passam a ser
conflitantes -, muita
maturidade psicológica e
equilíbrio espiritual
para enfrentar a
realidade dos fatos tais
quais se apresentam e
buscar uma separação
amigável como se espera,
enfim, de seres
civilizados.
Afinal de contas, cada
ser é um universo a
parte, pois o Senhor da
Vida nos deu a benção da
individualidade. Por
isso, não somos iguais
um ao outro e as
afinidades podem ser
mínimas, quando não são
simplesmente
inexistentes. Da atração
inicial, geralmente
física, ao
amadurecimento de uma
relação, um longo
caminho haverá de ser
trilhado requerendo
adaptação, flexibilidade
e até renúncia de ambas
as partes. Convenhamos,
nem todos estão
dispostos a ceder um
milímetro na sua forma
de ser, e menos ainda
mudar as suas
convicções, pendores e
aspirações,
impossibilitando, assim,
a união em muitas
ocasiões. Mais grave
ainda, nem só de sexo
uma relação se sustenta.
Quem pensa assim terá
uma grande decepção cedo
ou tarde.
Posto isto, para a união
de um casal perdurar, é
preciso esforço
contínuo, empatia (para
entender e,
eventualmente, aceitar
as diferenças em relação
ao outro), boa vontade e
disposição sincera para
dar o melhor em prol da
harmonia geral. Não é
pouca coisa a fazer, é
verdade, mas são passos
vitais. Precisa-se
também demonstrar a
capacidade de saber
ouvir, respeitar e
sobretudo ajudar quando
o parceiro(a) enfrenta
uma crise pessoal. Notem
que não estou esgotando
todos os aspectos. Estou
apenas discorrendo sobre
alguns mais básicos.
Creio que a relação de
um casal é uma excelente
oportunidade de
exercitarmos a nossa
capacidade de doar a
nossa atenção ao ser
amado. Por conseguinte,
assumiremos forçosamente
papéis distintos ao
longo da convivência,
pois seremos para o
nosso parceiro(a), a
depender da situação
vivida, também
irmão/irmã, pai/mãe ou
amigo/amiga. Convém
igualmente recordar que
nem todos os casais
atuam na mesma área
profissional, e isso
pode causar eventuais
problemas, pois podem
surgir rotinas
diferentes de vida.
Nesse sentido, é
indispensável a
dilatação da capacidade
de compreensão.
Um outro aspecto
riquíssimo numa relação
é a disposição de
ajudar/cooperar com o(a)
parceiro(a) além,
obviamente, das questões
gerais de gestão do lar.
Por exemplo, a minha
finada companheira
sempre foi uma dedicada
revisora dos meus
textos. Lia-os com muita
atenção e até fazia
sugestões. Ela entendia
perfeitamente a natureza
e o escopo do meu
trabalho contribuindo
sempre com as suas
apreciáveis
possibilidades. Sabia
que para eu realizá-lo
apropriadamente havia a
necessidade de intensa
leitura e concentração,
não me distraindo e
muito menos perturbando.
Às vezes até pegava um
livro na estante - sob
minha solicitação - para
me ajudar a não quebrar
o ritmo da
redação/pesquisa. De
minha parte, sou
eternamente grato a ela
também por isso.
Compartilhava das minhas
realizações e se
alegrava com elas.
Considero esse aspecto,
aliás, fundamental para
uma parceria de vida
bem-sucedida, ou seja,
sentir-se feliz pela
felicidade do(a)
companheiro(a). Penso
que é assim que ambas
crescem como filhos de
Deus.
Creio ainda que se
interessar pelo que o(a)
parceiro(a) faz e, por
que não, participar ou
pelo menos algo aprender
a respeito, coloca o
casal na saudável trilha
de construção das
afinidades. Afinal de
contas, relacionamentos
humanos sólidos
geralmente possuem tal
característica. E se
apesar de tomados os
devidos cuidados a
“química” do casal não
funcionar, é porque não
era para dar certo –
pelo menos naquele
momento...
Às vezes, a separação é
indutora de profundas
reflexões nas almas,
levando-as até mesmo a
conclusões posteriores
surpreendentes. Dito de
outra forma, com a
passagem do tempo, os
indivíduos podem
perceber com mais
clareza os seus erros,
equívocos e mudar a
forma de pensar,
levando-os,
eventualmente, até mesmo
a reatar. Seja como
for, não obstante o
natural sentimento de
frustração advindo de
uma separação, tenhamos
em mente que a vida
dever continuar, e com
ela a consciência,
repito, de que ninguém
é dono de ninguém.
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