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por Rogério Miguez

 

Enfrentando as obsessões


Entre tantas páginas escritas sobre a Doutrina Espírita, há uma relevante informação de Allan Kardec sobre as obsessões espirituais, não as catalogadas pelas ciências médicas de cunho materialista:

Há pessoas que, embora animadas de boas intenções, não deixam de ser obsidiadas. Qual o melhor meio de nos livrarmos dos Espíritos obsessores?

“Cansar-lhes a paciência, não dar nenhuma importância às suas sugestões e mostrar-lhes que estão perdendo seu tempo. Ao verem que nada conseguem, afastam-se.”1

Esta primeira providência se aplica a todos os casos quando há aproximações maléficas de entidades desencarnadas, por hora patentemente desorientadas, tentando como meta final estabelecer: a obsessão simples, a fascinação, a subjugação e mesmo a possessão. Destaque-se ter o Codificador enfatizado nesta indagação que mesmo para aqueles pautando suas existências alinhadas com os bons princípios morais e éticos, podem ser assediados, pois a obsessão não é privilégio dos perturbados de toda ordem, e como existem desnorteados neste mundo ainda em fase de transição para orbe de Regeneração.

Entretanto, esta é apenas uma das medidas que deveriam ser tomadas por todos nós, pois não há quem não seja influenciável na Terra, afinal, ainda somos todos Espíritos inferiores, talvez com algumas exceções, pois podem estar reencarnados no planeta Espíritos superiores com particulares missões visando promover avanços tanto nas ciências, quanto no grau de moralidade, bem como nas artes, para esta parte da Humanidade Universal.

O exercício desta virtude, a paciência, é fundamental para enfrentar incontáveis situações ainda ocorrendo em um típico planeta de Provas e Expiações, por isso Jesus já nos havia advertido:

“Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (João: 16, 33.)2

E uma das mais importantes e corriqueiras tribulações apontadas pelo Cristo são as obsessões requerendo dos obsediáveis, uma conduta mais ajustada à moral e à ética para melhor se defender destas aproximações e, lembrando desta providência, podemos citar uma outra recomendação com o poder de ajudar a inviabilizar a instalação de um processo obsessivo: a reforma íntima.

Há vários obsessores de ocasião, ou seja, o indivíduo morreu viciado em: álcool, fumo, drogas, sexo..., tomadas para o estabelecimento das obsessões materiais, mas há muitas outras: o hábito da maledicência, reclamações e queixas sistemáticas, mau uso da palavra, entre tantas tomadas imateriais. Os Espíritos ainda desorientados podem facilmente se conectar por estas tomadas passando a conviver conosco ao longo de nosso cotidiano, compartilhando e incentivando atitudes, fluidos, energias e pensamentos de igual teor e desejo aos nossos.

Por exemplo, se o Espírito desencarnou adepto do uso do álcool, dentro daquela linha de conduta em que afirma poder parar de beber quando quiser, só que não parou até morrer, ao chegar do lado de lá, surge naturalmente o desejo de sorver as variadas bebidas etílicas, costumeiramente usadas quando vivo, contudo, estas não existem mais, ficaram todas na Terra e suas mãos fluídicas não podem mais levantar copos e segurar garrafas. Desta forma, o que faz o adicto morto, procura algum adicto encarnado, portanto ainda vivo, com idêntico salutar costume e se conecta com ele por esta tomada, passando a experimentar sensações, embora não tão intensas quanto aquelas experimentadas quando estava encarnado, mas apesar disso o satisfazem, isso ocorrendo todas as vezes em que fizer o vivo beber, destacando uma peculiaridade: o último se diz convicto de que está bebendo porque quer, mas está sendo comandado. Assim funciona este tipo de processo obsessivo.

A preparação para a morte deve ser regular, pois deve-se pensar na morte, conforme se pensa na vida. As tendências negativas precisam ser controladas, sob pena de se viver o dia a dia com variadas tomadas ativas, nas quais os perturbados do espaço podem estabelecer uma ligação obsessiva. O controle do homem velho deve ser intenso e cotidiano, este é o princípio da reforma íntima.

Estas duas atitudes – paciência e reforma íntima - são fundamentais para evitar o nascimento de um processo obsessivo, porém, nesta hora, alguém poderia indagar: e se a obsessão já estiver estabelecida, contudo, ainda não alcançou os níveis da subjugação e da possessão, o que faço?

A paciência e a reforma íntima são recomendadas condutas para toda a existência, independentemente se estamos submetidos ou não à ação de obsessores. Entretanto, existem outras duas posturas de elevado valor podendo atuar significativamente na ruptura de uma ligação obsessiva já existente: a caridade e a oração.

De modo a bem compreender o alcance destas outras salutares ações, recordemos que há significativa e recorrente motivação para que um Espírito exerça sua prejudicial atuação junto a um encarnado: a busca pela vingança.

De modo a melhor compreender esta motivação, observemos que o patamar moral e ético desta parte da Humanidade é bem baixo, não temos muito do que nos orgulhar, basta observar, no momento atual, a quantidade de conflitos armados se desenvolvendo aqui e ali. Nestas muitas guerras, pratica-se e praticou-se toda a sorte de iniquidades, crueldades, atos insanos e, para os envolvidos não passam de condutas aceitáveis em função das guerras estabelecidas, ou seja, não há outra medida a tomar a não ser exterminar o suposto inimigo, usando todos os meios possíveis para tanto.

Ocorre que muitos daqueles que são trucidados pela selvageria dos beligerantes, civis em grande parte, inclusive assistindo seus familiares sendo mortos e torturados, violentados sexualmente, entre tantos outros desatinos bem característicos dos conflitos armados, não perdoam seus algozes e, ao reencontrá-los reencarnados, partem para a desforra, sem qualquer freio.

Estes Espíritos, por hora alucinados e ávidos por retribuir – na mesma moeda - o mal recebido, quando reencontram seus antigos verdugos, partem incondicionalmente para fazer todo o mal ao seu alcance, mas, se os reencontram mudados, com condutas nobres em relação à sociedade em que agora convivem, podem ter o seu desejo de vingança atenuado, afinal, estão tentando prejudicar alguém que está fazendo o bem, não importa a quem.

No caso da obsessão estar vigente e o obsidiado não tiver esta atenção em relação à sociedade com quem convive, seria muito recomendado iniciar uma atividade de apoio às necessidades que se apresentam, e são muitas, mostrando ao seu antigo inimigo que mudou, pois, esta nova forma de viver, atenua os sentimentos de ódio e rancor que o obsessor nutre pelo seu desafeto do passado.

Dentro do processo da reforma íntima, recomenda-se, assim, ocupar-se utilmente, nas variadas práticas da caridade, como já enfatizado, não há dúvida nos benefícios desta conduta, mas também substituindo os maus pensamentos e ideias pelo costume no uso da boa literatura, não deixando a porta mental aberta para as contínuas insinuações dos desocupados do além.

Quando estamos, quando possível, lendo e aprendendo por meio dos nobres e estimulantes escritos de bons autores, não precisando ser necessariamente espíritas, impedimos, total ou parcialmente, que as sugestões nocivas dos obsessores criem raízes em nossas mentes. Já foi dito que em cabeça vazia o diabo faz tricot!

E, por último, mas não que seja a providência menos eficaz, muito pelo contrário, surge a oração e, segundo Allan Kardec:

“Em todos os casos de obsessão, a prece é o mais poderoso auxiliar no esclarecimento do espírito obsessor.”3

Ou ainda:

“Em todos os casos de obsessão, a prece é o mais poderoso meio de que se dispõe para demover de seus propósitos maléficos o obsessor.”4

Temos, desta forma as quatro áureas providências a tomar para impedir o estabelecimento destas conexões nefastas, ou mesmo desfazê-las, podendo inclusive levar a vítima à morte, particularmente quando alcançam os paroxismos da subjugação e da possessão.

Nestas duas últimas fases do processo obsessivo, há que se contar com a ajuda de terceiros, pois o que se encontra totalmente dominado por uma ou mais mentes externas, não consegue por si mesmo praticar a caridade, tampouco providenciar a sua reforma íntima, muito menos ser paciente, pois terá perdido as rédeas de sua própria vida.

Restará a pessoas interessadas no caso, familiares e amigos, orar por estas vítimas, providenciando, se possível, trabalhos específicos de desobsessão em casas espíritas e, em paralelo, pela oração sincera endereçarão ao Criador suas súplicas e pedidos que certamente agirão para amenizar as dores e aflições de todos os Espíritos envolvidos.

Sim! Devemos orar pelos obsessores, pois também são filhos do mesmo Pai de todos nós. A impaciência e a irritação, de nada valem, pois terão apenas a função de enfurecê-los ainda mais.

A propósito, exorcismos são inócuos, os Espíritos perturbados se divertem com estas práticas medievais, mas ainda tão em voga nas mentalidades atrasadas, mesmo no século XXI. Não percamos tempo com estas pseudossoluções, quando por ventura ocorre algum afastamento da entidade, este se deu por conta do bom coração do praticante, pela boa energia e bons fluidos emitidos pelas suas equilibradas palavras, jamais pela força de símbolos riscados no chão, artefatos variados, cruzes, águas bentas, rituais ou mesmo pelo emprego de palavras com suposto poder mágico.

A sabedoria do Mestre lionês sintetizou estas providências neste texto:

Em resumo, a prece fervorosa e os esforços sérios por melhorar-se são os únicos meios de afastar os Espíritos maus, que reconhecem como senhores aqueles que praticam o bem, ao passo que as fórmulas os fazem rir. A cólera e a impaciência os excitam. É preciso cansá-los, mostrando mais paciência que eles.5

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, q. 478.

2 BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo, SP: Paulus, 2012. (João: 16 – 33.)

3 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 6. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. XXVIII, it. 81.

4 _________. A gênese. Trad. de Guillon Ribeiro. 53 ed. 1 imp. [Edição Histórica]. Brasília: FEB, 2013. cap. XIV, it. 46.

5 _________. Revista espírita: Jornal de estudos psicológicos. ano 5, dez. 1862. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 1. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Estudos sobre os possessos de Morzine. Causas da obsessão e meios de combatê-la. pág. 497 (cópia em PDF). 
 

 

     
     

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