É
possível um reencontro?
Seu
Miranda e sua esposa eram frequentadores assíduos do
Centro Espírita. Trabalhavam nas reuniões mediúnicas e
no setor de assistência aos enfermos.
Ambos estão às voltas com dona Júlia. Visitam-na
diariamente para atendê-la no leito em que permanece
imobilizada há mais de seis anos. Vão até lá para
aplicar-lhe o passe, levar-lhe água fluidificada e ler
uma página de O Evangelho segundo o Espiritismo.
A
leitura daquele dia fazia menção à nossa parentela na
Terra, que um dia esperamos reencontrar na
espiritualidade, para colher os frutos da experiência
terrena.
A
vida e a morte têm esse capricho: reúnem, separam e
reencontram.
As
semanas passam rapidamente até que seu Miranda fica
sabendo da morte súbita de dona Júlia. Aquele coração já
não suportava mais, apesar de tantos remédios.
Quase dez anos depois, surge uma grande surpresa.
No
Centro Espírita, bem diante de seu Miranda, uma mensagem
é psicografada. Muito emocionado, nosso abnegado
servidor do Evangelho percebe que se trata de uma carta
escrita por dona Júlia:
“Saudoso irmão Miranda,
Ao
desencarnar, percebi, por muitos e muitos dias, que
permanecia viva em minha memória a nossa última lição do
Evangelho.
Ela
nos alertava que a tristeza da separação seria amenizada
pelo reencontro com parentes que partiram antes de nós,
reconfortando o coração.
Com
o tempo, porém, percebi que sustentava um grande e
doloroso engano, que me levou várias vezes ao desespero.
As
portas se abrem, mas o cenário é bem outro, e a
realidade pode ser mais penosa do que tudo o que eu
pudesse imaginar.
Após meus primeiros meses de recomposição das forças,
tive coragem de perguntar sobre a possibilidade de
encontrar a querida mãezinha que me antecedera na
partida.
Fui
levada até uma dirigente da instituição que me acolhia
naquela ocasião, para expor meu pedido aflito.
Era
a irmã Alda, que mansamente me acolheu e, sem negar o
pedido que fiz, recomendou que eu precisava, antes de
mais nada, passar por um ‘estágio’ em um lar de
velhinhos.
Ali
eu poderia acumular créditos e experiência, distribuindo
carinho aos idosos.
Fiquei muito surpresa com a colocação da irmã Alda, pois
isso me fazia supor exigências que atrasariam o encontro
que eu tanto desejava.
Algum tempo depois, atuando firmemente no estágio que me
foi proposto, fui novamente falar com irmã Alda.
Perguntei se poderia rever meus dois filhos, que me
antecederam na morte.
Novamente a irmã Alda me recomendou trabalho.
Eu
trocaria de função. Agora seria voluntária em uma escola
de jovens que precisavam de orientação cristã.
Lá
fui eu. Dediquei meu tempo e muito esforço nessa tarefa.
Mais recentemente, depois de oito anos de trabalho
voluntário, já não suportava a saudade. Foi quando fiz
novo apelo à irmã Alda: que, então, me permitisse o
encontro com Tobias, meu amado esposo.
Com
a mesma delicadeza, nossa diretora encaminhou-me para um
grupo de excursões entre os encarnados, que toda semana
acudiam moradores de rua.
Hoje, depois desses dez anos de trabalho, trago as
palavras amigas da irmã Alda para nosso esclarecimento.
Sobre minha mãe: após a morte, ela permaneceu em
tratamento de uma psicose que a atormentou por anos.
Meus dois filhos: depois de abusos com bebidas e drogas,
aguardam liberação da clínica espiritual que os acolheu
nas imediações da Terra.
Meu
esposo encontra-se envolvido com obsessores que lhe
cobram justiça. Ele se comprometeu ao desviar dinheiro
deles.”
Lição de casa:
Com
os dez anos de dedicação voluntária nos estágios que
irmã Alda lhe indicou, dona Júlia pôde aprender:
O
amor que exige posse, tiraniza.
O
amor que faz milagres, não dispensa o concurso do tempo.
O
amor floresce onde plantamos as sementes do amparo aos
semelhantes.
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