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Crônicas e Artigos

Ano 9 - N° 456 - 13 de Março de 2016

EURÍPEDES KÜHL
euripedes.kuhl@terra.com.br
Ribeirão Preto, SP (Brasil)

 


Cassação do livre-arbítrio: reencarnações compulsórias 

 

Ação Divina Compulsória

Decorrente da análise dos ensinos dos Espíritos Superiores, peço licença para, com muito respeito, lucubrar sobre a provável ação divina compulsória de cassação temporária do livre-arbítrio, referente a reencarnações punitivas.

Como disse, não passa de uma reflexão.

Não desconsidero que o livre-arbítrio é liberdade que o Espírito tem para agir, no bem ou no mal...

Na Revista Espírita de 1866, p. 156, Allan Kardec deixou registrado que “o livre-arbítrio é uma das prerrogativas do homem, que tem um círculo no qual pode se envolver livremente; essa liberdade de ação tem por limites as leis da Natureza, que ninguém pode transpor”.

O Espírito Emmanuel, em “O Consolador”, Ed. FEB, à questão 132, consigna que “sobre o livre-arbítrio pairam as determinações divinas baseadas na lei do amor, sagrada e única”.

Considerando Kardec e Emmanuel, imagino que quando alguém age ininterruptamente em contrário às Leis Divinas, causando mal a si mesmo e a outrem, chega um momento em que, por bondade, o estatuto dessas Leis impede-o de prosseguir nesse procedimento.

Com base nas incontáveis informações contidas na literatura espírita quanto à pedagogia da dor, penso que o livre-arbítrio pode ser temporariamente cassado. Voltará ao Espírito que o teve suspenso quando houver arrependimento sincero e reconstrução dos danos.

Minha ilação se apoia nas seguintes informações:

1) Questão nº 262 de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec: Deus pode impor certa existência a um Espírito quando este, pela sua inferioridade ou má vontade, não se mostra apto a compreender o que lhe seria mais útil, e quando vê que tal existência servirá para a purificação e o progresso do Espírito, ao mesmo tempo em que lhe sirva de expiação.

É o caso daquele Espírito que, obtendo uma ou várias chances de melhoria moral, teima em cometer erros sobre erros.

2) Item nº 8 do Cap. V de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec: As tribulações podem ser impostas a Espíritos endurecidos, ou extremamente ignorantes, para levá-los a fazer uma escolha com conhecimento de causa. (Grifei.)

3) Espírito Manoel P. Miranda, em “Nas Fronteiras da Loucura”, 9ª Ed., 1997, p. 9, LEAL, Salvador/BA: Quando não funcionem os estímulos para o progresso e o Espírito deseje postergá-lo, imposições da própria Lei jungem-no ao processo de crescimento, mediante as expiações lenificadoras que o depuram, cooperando para a eliminação das sedimentadas mazelas que o martirizam...

4) Léon Denis, em “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”, 17ª Ed., 1993, p. 176, FEB, Rio: Inteligências diretoras, visando a proveito, evolução e expurgo do nosso passado, fazem elas próprias, em alguns casos, a difícil escolha de nossas provas.

5) Manoel P. Miranda, em “Nos Bastidores da Obsessão”, 2ª Ed., 1976, p. 229, FEB, Rio: Pacientes há, rebeldes de tal monta, que o melhor medicamento para a saúde deles é a continuação do sofrimento em que se encontram...

6) Emmanuel, em "O Consolador", já citado e agora à ques­tão n.º 96, oferta precisa informação quanto ao Espírito enve­lhecido nos abusos do mundo, portador de doenças incurá­veis, estas como estação de tratamento e de cura e quan­to às enfermidades d'alma, persistentes: "podem reclamar várias estações sucessivas, com a mesma intensidade nos processos regeneradores".

Obs.: Informação coadjuvante à compulsoriedade na vida de Espíritos rebeldes, prestada pelo Espírito Anacleto, em “Missionários da Luz”, pp. 333 a 335, 21ª Ed., 1988, FEB, Rio: Bons Espíritos auxiliam Espíritos enfermos por até dez vezes consecutivas, mas se estas oportunidades voam sem proveito, o atendido é entregue à própria sorte, até que adote nova resolução. Quando a sós aprender lições novas e se melhorar, voltará a ser socorrido.

7) Espírito “Irmão João”, em “Memórias de Um Suicida”, 5ª Ed., 1975, pp. 260/261, Ed. FEB, Rio: A reencarnação punitiva é medicamentação, apenas! Um gênero de tratamento que a urgência e a gravidade do mal impõem ao enfermo! (Espíritos suicidas sem condições de algo tentarem voluntariamente.) Operação dolorosa que nos pesa fazer, mas à qual não vacilamos em conduzir os pacientes, certos de que somente depois de realizada é que entrarão eles em convalescença.

Obs.: Às pp. 271 e 272 dessa mesma obra há novas informações referentes a reencarnações compulsórias.

8) Inolvidável esclarecimento, qual enérgico alerta, é-nos dado pelo Assistente Áulus, em “Nos Domínios da Mediunidade”, Cap. 15, pp. 139 a 141, 8ª Ed., 1976, FEB, Rio:

Espíritos infortunados que se comprazem na loucura sem se fatigarem serão levados a prisão regeneradora, pela Lei. (...) Há dolorosas reencarnações que significam luta expiatória para almas necrosadas no vício. Exemplos: o mongolismo, a hidrocefalia, a paralisia, a cegueira, a epilepsia secundária, o idiotismo, o aleijão de nascença e muitos outros recursos.

9) Espírito Silas, em “Ação e Reação”, Cap. 15, p. 209, 5ª Ed., 1976, FEB, Rio: O homem que tiraniza a mulher, furtando-lhe os direitos e cometendo abusos, em nome de sua pretensa superioridade, queda-se a tal ponto que, inconsciente e desequilibrado, terá renascimento doloroso, com inversão sexual compulsória por imposição dos agentes da Lei Divina. Renascerá em corpo feminino para que, no extremo desconforto íntimo, aprenda a venerar na mulher, sua irmã e companheira, filha e mãe. 

Pedagogia da dor

Pelas informações acima é dito que os Espíritos que perpetram sérias desobediências às Leis Divinas não permanecem indefinidamente nesse descaminho. Há um momento em que as Leis Divinas, compulsoriamente, a benefício deles, dão um “basta” nos seus descaminhos, com forte indução do seu retorno ao bem.

Jesus definiu a Lei de Justiça quando asseverou: “a cada um, segundo suas obras” e assim é que chega um tempo-limite àquele que teima em permanecer no erro para que se arrependa, cesse o mau proceder e reconstrua sua caminhada evolutiva. Não o fazendo de moto próprio, agirão a seu favor mecanismos divinos, impingindo-lhe momentos difíceis, obstaculizando-lhe a continuidade em tal proceder, passando a ter por companhia a dor. Isso porque todos os Espíritos foram criados com o fanal da felicidade, estatuído por Deus.

No tema em tela, referente a repetidos abusos do livre-arbítrio, quase sempre em detrimento do próximo, a dor é o instrumento de que lança mão a Providência Divina, em favor dos réprobos.

Cito agora também, e em complemento às minhas anotações, alguns apontamentos registrados na abençoada literatura espírita: 

a. Iniciando com Kardec, vou ao quase final de “O Livro dos Espíritos”, 4ª Parte, “Das penas e gozos futuros”, cap. II, item “Expiação e arrependimento”, e encontro:

Questão 1004: Em que se baseia a duração dos sofrimentos do culpado?

“No tempo necessário a que se melhore”.

Ainda com Kardec, em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, 109ª Ed., 1994, FEB, RJ/RJ:

- No cap. XIV, item 9, p. 242: Com efeito, quantos há que, em vez de resistirem aos maus pendores, se comprazem neles. A esses ficam reservados o pranto e os gemidos em existências posteriores. Admirai, no entanto, a bondade de Deus, que nunca fecha a porta ao arrependimento. Vem um dia em que ao culpado, cansado de sofrer, com o orgulho afinal abatido, Deus abre os braços para receber o filho pródigo que se lhe lança aos pés.

- No cap. XXVII, item 21, p. 380: O homem sofre sempre a consequência de suas faltas; não há uma só infração à lei de Deus que fique sem a correspondente punição. A severidade do castigo é proporcionada à gravidade da falta. Indeterminada é a duração do castigo, para qualquer falta; fica subordinada ao arrependimento do culpado e ao seu retorno à senda do bem. 

b. Léon Denis, em “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”, 3ª Parte, item XXVI – A Dor –, p. 380, 17ª Ed., 1993, FEB, RJ/RJ:

“(...) É, pois, realmente, pelo amor que nos tem, que Deus envia o sofrimento. Fere-nos, corrige-nos como a mãe corrige o filho para educá-lo e melhorá-lo”. 

c. André Luiz, Espírito, com psicografia de F. C. Xavier, em “Entre a Terra e o Céu”, cap. XXI, p. 134, 13ª Ed., 1990, FEB, RJ/RJ:

“A dor é o grande e abençoado remédio. Reeduca-nos a atividade mental. (...) Depois do poder de Deus, é a única força capaz de alterar o rumo de nossos pensamentos, compelindo-nos a indispensáveis modificações”.

Obs.: Sou dos que têm grande respeito e gratidão pelo Espírito André Luiz. Assim, considero que o primeiro grande ensinamento que ele nos trouxe, maioria pela abençoada psicografia de F. C. Xavier e W. Vieira (Série André Luiz: A Vida no Mundo Espiritual), refere-se justamente à narrativa dos sofridos anos em que perambulou pelo umbral, após desencarnar. Só conseguiu se livrar de tão difícil situação quando se voltou para o Supremo Autor da Natureza e em sentida prece suplicou amparo, com sincero remorso pela forma como vivera quando encarnado (“Nosso Lar”, cap. 2, pp. 23 e 24, 48ª Ed., 1998, FEB, RJ/RJ). 

 

 


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 Revista Semanal de Divulgação Espírita