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Clássicos do Espiritismo
Ano 8 - N° 365 - 1° de Junho de 2014
ANGÉLICA REIS
a_reis_imortal@yahoo.com.br
Londrina, Paraná (Brasil)
 

 

No Invisível

Léon Denis

(Parte 40)

Continuamos o estudo metódico e sequencial do clássico "No Invisível", de Léon Denis, cujo título no original francês é Dans l'Invisible.

Questões preliminares  

A. Com relação à identificação dos Espíritos, a fotografia transcendental tem sido um meio de prova importante?

Sim. Um bom contingente de provas dessa identificação nos veio por meio da fotografia de Espíritos. Nesta obra é explicado como o pesquisador William Stead procedia para obtenção das fotografias transcendentais e que cuidados tinha ele com o objetivo de evitar fraudes. (No Invisível - O Espiritismo experimental: Os fatos - XXI - Identidade dos Espíritos.)

B. Podem os Espíritos, por meio da mediunidade, ajudar familiares no tocante à regularização de seus negócios terrestres?

Podem. A propósito desse fato, o Dr. Cyriax, em sua brochura “Die Lehre Von Geist”, relatou um caso interessante em que ele próprio tomou parte. Aksakof narra também um fato semelhante, extraído dos “Proceedings”, no qual o Príncipe de Sayn-Wittgenstein-Berlesbourg obteve do General Barão de Korff, morto meses antes, uma comunicação espontânea em que lhe determinava que revelasse à sua família o lugar em que fora escondido seu testamento. O documento foi encontrado no lugar indicado pelo Espírito.  (Obra citada - O Espiritismo experimental: Os fatos - XXI - Identidade dos Espíritos.)

C. Há nesta obra relatos de comunicações transmitidas em idiomas desconhecidos pelos médiuns?

Sim. Dois desses relatos foram extraídos da “Annales des Sciences Psychiques”, de Ernesto Bozzano. No primeiro, a médium era uma menina de 11 anos, filha do Sr. Hugh Junor Brown. A mensagem foi escrita em língua cafre, que a jovem médium ignorava por completo. No segundo caso, foi utilizado o idioma sérvio, que o médium também desconhecia. (Obra citada - O Espiritismo experimental: Os fatos - XXI - Identidade dos Espíritos.) 

Texto para leitura 

1047. No tocante à identificação dos Espíritos comunicantes, a fotografia transcendental fornece também seu contingente de provas. “La Revue”, de 15 de janeiro de 1909, publica um artigo de William Stead, intitulado “Como comunicar com o Além?”, do qual extraímos o trecho referente à fotografia dos invisíveis, que adiante resumimos.

1048. Segundo o artigo, nada é mais fácil que adulterar fotografias desse gênero, e um prestidigitador pode sempre enganar o observador desconfiado e vigilante. As chapas de que William Stead se servia, por ele mesmo reveladas e previamente marcadas, forneciam, porém, alguma garantia contra as fraudes.

1049. A prova de autenticidade da fotografia de um Espírito consiste antes de tudo na execução de um retrato perfeitamente reconhecível da pessoa falecida por um fotógrafo que nada absolutamente saiba da existência dessa pessoa e, em seguida, no fato de não ser percebida forma alguma visível pelo operador ou por quem assiste à operação.

1050. Tais fotografias foram obtidas por William Stead, não uma, mas repetidas vezes. Eis um caso por ele referido:

“O fotógrafo, cuja mediunidade permite fotografar o invisível, é um artista já velho e sem instrução, particularidade que o impede mesmo, em dadas circunstâncias, de se ocupar vantajosamente de sua profissão. É clarividente e, como por minha parte o denominarei, clariaudiente.

Durante a última guerra dos Boers, fui pedir-lhe uma sessão, curioso que estava de saber o que se iria passar. Mal me havia sentado em frente do bom velho, disse-me ele:

– Tive outro dia uma turra. Um velho Boer veio à minha oficina; trazia uma carabina e seu olhar feroz causou-me certo medo. ‘Vai-te embora – disse-lhe eu; – não gosto de armas de fogo.’ Ele se foi; mas voltou e está aí. Entrou com vosmecê; não traz a carabina e o seu olhar já não é tão feroz. Devo consentir que fique?

– Certamente – respondi –. Julga que o poderá fotografar?

– Não sei – disse o velho –; posso experimentar.

Sentei-me diante da objetiva e o operador empunhou o obturador. Eu nada podia ver; antes, porém, da exposição da chapa, interroguei o fotógrafo:

– Pois que noutro dia lhe falou, poderá falar-lhe agora, novamente?

– Decerto; ele está sempre atrás de vosmecê.

– Ele lhe responderá, se o interrogar?

– Não sei, vamos ver.

– Pergunte-lhe o nome.

O fotógrafo teve o gesto de fazer uma pergunta mental e esperar a resposta. E logo:

– Diz ele que se chama Piet Botha.

– Piet Botha? – objetei num tom de dúvida. – Conheço um Filipe, um Luís, um Cristiano e não sei quantos outros Botha, mas nunca ouvi falar desse Piet.

– Diz ele que é o seu nome – replicou, teimoso, o velho.

Quando revelou a chapa, vi, de pé, atrás de mim, um rapagão barbado, que tanto poderia ser um boer como um mujick. Não disse uma palavra; mas esperei até o fim da guerra e, quando chegou a Londres o General Botha, lhe enviei a fotografia por intermédio do Sr. Fischer, atual primeiro-ministro do Estado Livre de Orange. No dia seguinte, o Sr. Wessels, delegado de um outro Estado, me veio procurar.

– Onde obteve o senhor esta fotografia que deu ao Sr. Fischer?

Narrei-lhe fielmente como se achava ela em meu poder. Meneou a cabeça:

– Não creio em almas do outro mundo; mas diga-me seriamente de onde lhe veio esse retrato. Aquele homem jamais conheceu William Stead; nunca pisou a Inglaterra.

– Disse-lhe como o obtive – insisti eu – e o senhor pode não me acreditar; mas por que se mostra assim tão admirado?

– Porque aquele homem – disse – é um dos meus parentes; tenho em minha casa o seu retrato.

– Deveras! – exclamei. – É morto?

– Foi o primeiro comandante boer que morreu no cerco de Kimberley... Petrus Botha – acrescentou – mas, para abreviar, o apelidávamos Piet.

Conservo essa fotografia em meu poder; foi igualmente identificada por outros delegados dos Estados Livres, que também haviam conhecido Piet Botha.

Ora, isso não se explica pela telepatia nem cabe admitir a hipótese de fraude. Foi por mero acaso que pedi ao fotógrafo verificar se o Espírito daria o nome. Ninguém na Inglaterra, tanto quanto pude certificar-me, sabia que existia Piet Botha.”

1051. Em várias circunstâncias, Espíritos desencarnados contribuem com suas indicações para a regularização de seus negócios terrestres; ajudam a encontrar testamentos ocultos ou extraviados. O Dr. Cyriax, em sua brochura “Die Lehre Von Geist”, refere um fato desse gênero em que ele próprio tomou parte:

“Um rapaz de Baltimore, chamado Robert, havia sido educado por uma de suas tias, rica, celibatária, que, tendo-o adotado, fizera dar-lhe uma instrução completa e o havia casado. Tornara-se ele pai de família, quando sua tia faleceu subitamente. Não se lhe achou testamento algum e os parentes interessados trataram de excluir da herança o Sr. Robert. Este, extremamente perplexo, foi, por indicação de alguns amigos, consultar a Sra. Morill, médium,  que evocou a tia falecida. Revelou então esse Espírito que o testamento estava guardado num armário de roupa branca, no andar superior de sua vivenda. Só depois de remexido todo o conteúdo do armário foi que se achou, num pé de meia, o documento, tal qual fora descrito. Ninguém no mundo, e o médium menos que qualquer outra pessoa, podia ter a mínima ideia de tal esconderijo. Só o Espírito da tia estava no caso de fornecer aquela indicação.”

1052. Aksakof narra um fato semelhante, extraído dos “Proceedings”, vol. XVI, pág. 353. O Príncipe de Sayn-Wittgenstein-Berlesbourg obteve do General Barão de Korff, morto havia alguns meses, uma comunicação espontânea, na qual lhe determinava que revelasse à sua família o lugar em que, por inimizade, haviam escondido seu testamento. Esse documento foi descoberto no lugar indicado pelo Espírito.

1053. A esses fatos acrescentaremos dois casos de identidade, publicados por E. Bozzano em “Annales des Sciences Psychiques” de janeiro de 1910, e que consistiram em escritos ou conversações em línguas desconhecidas pelo médium. Foi o primeiro referido por Myers em sua obra sobre a “Consciência subliminal” (“Proceedings of the S.P.R.”, vol. IX, pág. 124) e é concernente a um episódio de escrita obtida por intermédio de uma menina de 11 anos, filha do Sr. Hugh Junor Brown, que o publicou em um livro intitulado “The Holy Truth”. Myers conheceu pessoalmente o narrador e assegura a sua perfeita sinceridade.

1054. Reproduzimos a narrativa deste último:

“Passeando um dia com minha mulher, encontrei um preto que eu não conhecia, mas que logo me pareceu um cafre(1), em razão dos largos orifícios que apresentava nas orelhas, costume peculiar a essa raça. Depois de o ter interrogado em sua língua nativa, o que deveras o surpreendeu, convidei-o a vir a nossa casa e dei-lhe o meu endereço. Apresentou-se ele justamente na ocasião em que fazíamos experiências mediúnicas. Disse ao criado que o fizesse entrar e perguntei se não estariam presentes Espíritos amigos seus. A mão de minha filha escreveu, em resposta, vários nomes cafres, que eu li para o preto ouvir e que ele reconheceu, manifestando grande espanto. Perguntei então se tais amigos tinham alguma coisa a dizer ao preto e imediatamente foi escrita em língua cafre uma frase em que havia palavras que eu não conhecia. Li-as ao meu visitante, que lhes compreendeu perfeitamente a significação, exceto a de uma única palavra. Tentei fazê-lo entendê-la, pronunciando-a de vários modos, mas em vão. De repente, a mão de minha filha escreveu: ‘Dá um estalo com a língua.’ Recordei-me então de um característico estalo que deve habitualmente acompanhar a letra t, na língua cafre, e pronunciei a palavra conforme o método indicado, conseguindo fazer-me compreender imediatamente.

Cumpre-me assinalar que minha filha nenhuma palavra conhece do cafre, tendo nascido anos depois de haver eu deixado aquelas regiões. Perguntei quem era o sujeito que dirigia a mão de minha filha, sendo geralmente a arte de escrever ignorada pelos cafres, e me foi respondido que o ditado fora escrito por um velho amigo meu, H. S., a pedido dos amigos do preto. Ora, H. S., pessoa culta e de elevada posição, falava perfeitamente o cafre, tendo residido longo tempo em Natal. Nesse momento expliquei ao meu visitante que os Espíritos de seus amigos estavam presentes, o que pareceu aterrorizá-lo.”

1055. O Ministro Plenipotenciário da Sérvia em Londres, Sr. Chedo Mijatovich, escreveu o seguinte ao diretor do “Light” (1908, pág. 136):

“Não sou espírita, mas encontro-me precisamente no caminho que conduz a essa crença, e fui atraído graças a uma experiência pessoal, que julgo de meu dever tornar pública. (Aí refere ele que vários espíritas húngaros lhe escreveram, pedindo-lhe procurasse em Londres algum médium bem conceituado, a fim de, sendo possível, entrar em relação com um antigo soberano sérvio e consultá-lo sobre determinado assunto.)

A esse tempo exatamente – continua ele – minha mulher tinha dito qualquer coisa acerca de um Sr. Vango, dotado, ao que se dizia, de notáveis faculdades mediúnicas, e por esse motivo o fui procurar. Nunca o tinha visto e, por seu lado, ele também nunca me vira. Nenhuma razão há para supor-se que ele tinha informações a meu respeito, ou que as tivesse adivinhado. À minha pergunta, se me poderia pôr em relação com o Espírito em que eu pensava, respondeu modestamente que às vezes era bem sucedido, mas nem sempre, e que outras muitas, ao contrário, se manifestavam Espíritos não desejados pelo consulente. Em seguida se declarou à minha disposição, recomendando-me que concentrasse o pensamento no Espírito que eu desejava.

Em pouco adormeceu o Sr. Vango e começou: ‘Está aqui o Espírito de um moço que parece muito aflito por lhe falar, mas exprime-se numa língua que eu não conheço.’ O soberano sérvio, em quem havia eu concentrado o pensamento, falecera já maduro em 1850; eu estava, entretanto, curioso de saber quem seria esse jovem Espírito aflito por me falar e pedi ao médium que repetisse ao menos uma palavra pronunciada pela entidade presente, ao que respondeu que o tentaria. Assim dizendo, inclinou o busto para a parede em frente da qual estava sentado, numa atitude de quem se põe a escutar. E logo, com extrema surpresa para mim, começou a pronunciar lentamente em língua sérvia: ‘Molim vas pihite moyoy materi Nataliyi da ye molim da mi oprosti’, cuja tradução é: ‘Peço-te o favor de escrever a minha mãe Natália, dizendo-lhe que imploro seu perdão’. Compreendi naturalmente que se tratava do Espírito do jovem Rei Alexandre. Pedi então ao Sr. Vango que lhe descrevesse a aparência, e ele prontamente: ‘Oh! é horrível! Seu corpo está crivado como que de punhaladas!’

Se tivesse outra prova sido necessária para me convencer da identidade do Espírito comunicante, bastava a que em seguida me deu o Sr. Vango, acrescentando: ‘O Espírito lhe deseja dizer que deplora amargamente não ter seguido o seu conselho relativo à ereção de um certo monumento e às medidas policiais a adotar no caso.’ Referia-se isso a um conselho confidencial que eu havia dado ao Rei Alexandre, dois anos antes do seu assassínio, e que na ocasião ele julgava intempestivo, só podendo a seu ver ser posto em prática no começo de 1904. Devo acrescentar que o Sr. Vango repetiu as palavras sérvias de um modo bem característico, pronunciando-as sílaba por sílaba e começando pela última de cada palavra, para voltar à primeira.

Como dou publicidade ao fato no interesse da verdade, não hesito em assinar meu nome com a indicação de meu cargo. – (Assinado) Chedo Mijatovich, Ministro Plenipotenciário da Sérvia na Corte de Saint-James; 3, Redchiffe-gardens, S.W., Londres.”

1056. O Sr. Daniel D. Home, em “Life and Mission” (págs. 19 a 22), descreve um conjunto de provas de identidade, obtidas pela mediunidade vidente e auditiva, que julgamos dever aqui reproduzir:

“Ao tempo em que eu habitava Springfield (Mass), fui acometido de grave enfermidade que me reteve no leito por algum tempo. Um dia, no momento em que o médico acabava de retirar-se, veio um Espírito comunicar-se comigo e me transmitiu esta determinação: ‘Vais tomar esta tarde o trem para Hartford; trata-se de assunto importante para o progresso da causa. Não discutas; faze simplesmente o que te dizemos.’ Dei parte a minha família dessa estranha ordem e, apesar do meu estado de fraqueza, tomei o trem, ignorando completamente o que ia fazer e qual o fim de tal viagem.

Chegado a Hartford, fui abordado por um desconhecido, que me disse: ‘Não tive ocasião de o ver senão uma vez; entretanto, creio não estar enganado: é o Sr. Home, não é verdade?’ Respondi afirmativamente, acrescentando que chegava a Hartford, sem saber absolutamente o que aí queriam de mim. ‘É extraordinário! – replicou meu interlocutor – eu vinha justamente tomar o trem para ir procurá-lo em Springfield.’ Explicou-me então que uma importante família, muito conhecida, me mandava convidar a visitá-la e lhe prestar meu concurso, nas investigações que desejava fazer em matéria de Espiritismo. O fim da viagem começava, portanto, a esboçar-se; mas o mistério continuava impenetrável quanto ao prosseguimento dessa aventura.

Um agradável trajeto em carruagem nos conduziu rapidamente ao nosso destino. O dono da casa, Sr. Ward Cheney, estava justamente à porta e deu-me as boas-vindas, dizendo que o mais cedo que esperava ver-me chegar era o dia seguinte. Ao penetrar no vestíbulo, atraiu-me a atenção o frufru(2) de pesado vestido de seda. Reparo em torno de mim e fico surpreendido de não ver pessoa alguma; logo, porém, passamos a um dos salões, e não me preocupei mais com o incidente.

Pouco depois divisei no vestíbulo uma senhora idosa, baixinha, trajando um vestido de seda encorpada, cinzenta, e que parecia muito atarefada. Aí estava a explicação do mistério: eu ouvira, sem a ver, essa pessoa que andava pela casa, de um para outro lado.

Tendo-se feito novamente ouvir o frufru da seda, e tendo-o o Sr. Cheney notado ao mesmo tempo em que eu, perguntou-me ele donde poderia provir esse ruído: ‘Oh! – respondi – é do vestido de seda cinzenta daquela senhora idosa que está ali no vestíbulo. Quem é essa pessoa?’ A aparição era tão distinta, com efeito, que eu não tinha a menor dúvida de que aquela senhora fosse uma criatura de carne e osso.

Chegando nesse momento o resto da família, as apresentações impediram o Sr. Cheney de me responder, e nada mais pude saber na ocasião; tendo sido, entretanto, servido o jantar, admirei-me de não ver à mesa a senhora do vestido de seda: aguçou-me a curiosidade e essa pessoa se tornou desde então para mim um motivo de preocupação.

Quando as pessoas se retiraram da sala de jantar, tornei a ouvir o roçagar do vestido de seda. Nada via, mas ouvi distintamente uma voz que dizia: ‘Estou aborrecida por terem colocado um esquife sobre o meu; não quero que lá o deixem ficar.’

Tendo comunicado ao chefe da família e a sua mulher o estranho recado, eles se olharam com surpresa; depois o Sr. Cheney, quebrando o silêncio, me disse que ‘reconhecia perfeitamente aquele vestido, sua cor e mesmo a qualidade da seda encorpada; mas, – acrescentou – a referência ao esquife colocado sobre o seu é absurda e errônea.’

Essa resposta me deixou perplexo; não sabia já o que dizer, tanto mais que antes da comunicação eu não tinha suspeitado que se tratava de uma desencarnada; não conhecia mesmo as relações de família ou de amizade que pudessem existir entre a velha dama e os Cheney.

Uma hora mais tarde, ouvi de repente a mesma voz, proferindo exatamente as mesmas palavras, mas acrescentando: ‘Além disso, Seth não tinha o direito de cortar essa árvore.’ Tendo dado parte desse novo recado ao Sr. Cheney, ficou ele muito apreensivo. ‘Há em tudo isso – disse ele – alguma coisa bastante singular; meu irmão Seth fez cortar uma árvore que encobria a vista da antiga vivenda e nós sempre fomos de opinião que a pessoa que lhe diz estar falando não teria consentido em derribarem-na, se ainda pertencesse a este mundo. Quanto ao resto do aviso, não tem sequer sombra de bom-senso.’

Tendo-me sido dado, à noite, a mesma comunicação pela terceira vez, arrisquei-me de novo a um desmentido formal, no que se referia ao esquife. Estava sob impressão muito aflitiva, quando me retirei para o meu quarto. Nunca tinha eu recebido comunicação falsa, e mesmo admitindo a perfeita veracidade do fato arguido, semelhante insistência, da parte de um Espírito desencarnado, em não querer que fosse um outro esquife colocado sobre o seu, me parecia absolutamente ridícula.

Pela manhã expus ao Sr. Cheney a minha profunda contrariedade; ele me respondeu que ‘tinha também com isso grande pesar, mas que ia provar-me que esse Espírito – se era de fato quem pretendia ser – estava completamente enganado. Vamos ao jazigo de nossa família – disse ele – e verá que, ainda que o quiséssemos, não seria possível colocar um esquife em cima do seu.’

Chegados ao cemitério, fomos procurar o coveiro que tinha a chave do jazigo. No momento em que ia abrir a porta, ele pareceu refletir e disse com um ar um tanto embaraçado, dirigindo-se ao Sr. Cheney: ‘Devo prevenir-vos, senhor, de que, como ficava justamente um pequeno espaço acima da Sra. ***, coloquei aí o pequenino féretro do filho de L. Creio que isso não tem importância, mas talvez eu tivesse feito melhor avisando-vos. É só desde ontem que ele aí está.”

Jamais esquecerei o olhar que me lançou o Sr. Cheney, ao exclamar, voltando-se para mim: ‘Meu Deus! É então verdade!’

Nessa mesma noite tivemos uma nova manifestação do Espírito, que nos veio dizer: ‘Não acreditem que eu ligue a mínima importância ao féretro colocado sobre o meu; poderiam aí empilhar uma pirâmide de esquifes, que isso me seria perfeitamente indiferente. Meu único fim era provar-lhes uma vez por todas minha identidade e os induzir à absoluta convicção de que sou sempre um ser vivo e dotado de razão, a mesma E... que sempre fui. Foi esse o finito motivo que me levou a proceder como o fiz.”  (Continua no próximo número.)  

(1) Cafre [do ár. kafr ou kufr, 'infiel'] significa: Nome dado pelos islamitas aos gentios e idólatras, e por ext., aos negros pagãos da África oriental; aplica-se, sobretudo, às populações bantas de Moçambique, da África do Sul e dos demais países do sudeste da África.  O natural ou habitante da Cafraria, denominação que, no passado, se dava à região entre o rio Kei e os limites da província de Natal, na África do Sul; xossa. Gloss. Forma pidginizada do africâner, com léxico extraído basicamente de línguas bantas e do inglês.

(2) Frufru [do fr. froufrou] significa: rumor de folhas; ruge-ruge, especialmente de seda; rumor de asas no voo. 

 


 


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O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita