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Crônicas e Artigos

Ano 7 - N° 319 - 7 de Julho de 2013

LEONARDO MARMO MOREIRA
leonardomarmo@gmail.com 
 
São João Del Rei, MG (Brasil)

 
 

O Auto-de-fé de Barcelona


Maurice Lachâtre (Maurice de la Châtre) (1814-1900) era um francês que fora exilado na Espanha, mais precisamente em Barcelona. Lachâtre era um homem de vanguarda, radical defensor da liberdade de expressão, caracterizando-se por ser um típico oriundo dos mais elevados ideais iluministas franceses. Lachâtre era um grande crítico da Igreja Católica, do governo de Napoleão III e da associação entre o governo e a Igreja. Lachâtre era escritor e editor (foi responsável pela publicação da enciclopédia “Novo Dicionário Universal” e do também famoso “A História dos Papas”, que publicara inicialmente nos anos 1842-1843 em 10 volumes) e foi forçado a se exilar na Espanha, justamente em função das obras que publicara, as quais eram tidas como ofensivas aos interesses da Igreja e do governo autoritário de Napoleão III. Lachâtre  viveria na Espanha até o início dos anos 1.870, antes de novo retorno à França, em função da Comuna de Paris. Entretanto, com a derrota desse movimento, voltaria à Espanha.

No início dos anos 1.860, Lachâtre havia estabelecido em Barcelona uma livraria. Maurice Lachâtre era um homem que acompanhava a efervescência cultural da época e estava muito bem informado sobre os fenômenos mediúnicos associados ao chamado “Neo-Espiritualismo” (desde 1.848, quando ocorreram os fenômenos de efeitos físicos de Hydesville) bem como ao Espiritismo propriamente dito. Lachâtre solicitou a Kardec o fornecimento de livros espíritas, para vendê-los na Espanha.

Lachâtre solicitara aproximadamente trezentas (300) obras espíritas a Allan Kardec. Conforme registro na “Revue Spirite” de Novembro de 1861 (TOMO IV), em artigo intitulado “O Resto da Idade Média / Auto-de-fé das Obras Espíritas em Barcelona”, Allan Kardec enviou obras relevantes, tais como “O Livro dos Espíritos”; “O Livro dos Médiuns”; “O que é o Espiritismo”; e volumes da “Revista Espírita”, os quais eram livros codificados pelo próprio Kardec, juntamente com livros importantes relacionados ao Espiritismo como, por exemplo, “A História de Jeanne d`Arc, ditada por ela mesma”, de Ermance Dufaux; “Fragmento de sonata", atribuído ao Espírito de Mozart; "Carta de um católico sobre o Espiritismo" pelo doutor Grand; "A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta", pelo barão de Guldenstubbé; “A Revista Espiritualista” do diretor Piérard.

Todas as tarifas alfandegárias das respectivas obras já tinham sido devidamente pagas. De fato, conforme Allan Kardec explica em “Obras Póstumas” (Segunda parte), “chegados os livros, cobraram-se do destinatário os direitos de importação, mas antes de lhos entregarem, tiveram de deferir o despacho ao bispo, autoridade eclesiástica que, na Espanha, tem a fiscalização dos livros. Achava-se este em Madri, mas na sua volta, em vista do catálogo, ordenou que aquelas obras fossem apreendidas e queimadas na praça pública pelo carrasco”. Portanto, apesar de totalmente legal a importação, o bispo Dom Antonio de Palau Y Termens não aceitou que as mesmas fossem comercializadas alegando que seus conteúdos eram imorais e ofensivos aos interesses da igreja. Dom Palau teria afirmado: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles venham perverter a moral e a religião de outros países".

Lachâtre sugeriu que os livros fossem, então, devolvidos ao remetente na França, no caso, Allan Kardec. Dom Palau respondeu a essa solicitação negativamente, alegando que os interesses da Igreja Católica eram universais e seriam prejudicados independentemente do país em que as respectivas obras fossem disponibilizadas.

No dia nove (9) de Outubro de 1861, na esplanada de Barcelona, às 10h30 da manhã (portanto, poucos dias depois do aniversário de 57 anos do Codificador do Espiritismo (03/10/1861)), as obras foram rasgadas e queimadas em praça pública. Consta que a queima foi executada perante uma multidão, que vaiava o religioso responsável pela incineração (um padre, vestido formalmente com as indumentárias sacerdotais, trazendo uma cruz em uma mão e uma tocha na outra) e seus auxiliares. A vaia teria sido acompanhada por gritos de "Abaixo a inquisição!".

Kardec utiliza pela primeira vez a expressão “Auto-de-fé de Barcelona” para designar esse episódio na edição de novembro de 1.861 da “Revue Spirite”.

Segundo o dicionário (www.notapositiva.com / dicionário_historia) , “os autos-de-fé consistiam em cerimónias mais ou menos públicas onde eram lidas e executadas as sentenças do Tribunal do Santo Ofício (instituição criada pela Inquisição no século XVI). Inicialmente havia dois tipos de autos-de-fé:


1.
Os autos-de-fé que se realizavam no interior do Palácio da Inquisição ou num Convento, destinados exclusivamente aos "reconciliados" (aqueles que eram readmitidos no seio da Igreja e condenados a penas que iam desde penitências espirituais até à prisão e ao desterro;
 

2. Os autos-de-fé que se realizavam na praça pública onde eram condenados não apenas os "reconciliados", mas também os "relaxados" (aqueles que eram entregues à Justiça secular para execução da pena de morte).

Com o passar do tempo, os autos-de-fé passaram a constituir um grandioso espectáculo, realizado com grande pompa segundo um cerimonial rigorosamente estabelecido. Assistiam a estas cerimónias não apenas as autoridades religiosas e civis (muitas vezes o próprio rei estava presente), mas toda a população da cidade, que gritava em júbilo enquanto os condenados eram queimados vivos”.

Consta que o último homem executado em um auto-de-fé havia sido morto em 1.826 pela Inquisição espanhola (teria sido o professor Cayetano Ripoll, condenado após dois anos de julgamento sob a acusação de deísmo. Teria morrido pelo garrote no pelourinho). Logo, podemos inferir que, em 1.861, já não havia “clima” para uma pena de morte por motivos religiosos, pelo menos seguindo trâmites “oficiais”. Esse avanço da sociedade europeia pode ser atribuído, principalmente, ao avanço dos ideais iluministas, sobretudo no que diz respeito aos direitos civis.

Allan Kardec solicitou uma orientação aos Espíritos superiores, considerando a hipótese de fazer valer seus direitos, mas a resposta que foi elaborada pelo próprio “Espírito de Verdade” (Obras Póstumas / Segunda Parte) sugeriu a Allan Kardec que o Codificador não entrasse na justiça, conselho que foi seguido pelo Mestre Lionês. Os Espíritos explicaram a Kardec que o evento geraria uma extraordinária divulgação do Espiritismo, gerando indiretamente uma difusão das obras, apesar da perda material dos livros causada pela intolerância religiosa.

Interessantemente, nove meses depois, Dom Palau desencarna e manifesta-se mediunicamente na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Neste curioso contato espiritual, Dom Palau é recebido muito fraternalmente por Allan Kardec (de fato, Allan Kardec chega até mesmo a fazer comentários elogiosos a Dom Palau). Vejamos os comentários de Dom Palau, Espírito, os quais se encontram registrados na “Revue Spirite” de Agosto de 1.862 (TOMO V):

“... Ajudado por vosso chefe espiritual, pude vir vos ensinar pelo meu exemplo e vos dizer: Não repilais nenhuma das ideias anunciadas, porque um dia, um dia que durará e pesará como um século, essas ideias anunciadas gritarão como a voz do anjo: Caim, que fizeste de teu irmão? Que fizeste de nosso poder, que devia consolar e elevar a Humanidade? O homem que, voluntariamente, vive cego e surdo de espírito, como outros o são de corpo, sofrerá, expiará e renascerá para recomeçar o trabalho intelectual que sua preguiça e seu orgulho lhe fizeram evitar; e essa terrível voz me disse: Queimaste as ideias, e as ideias te queimaram... Orai por mim; orai, porque ela é agradável a Deus, a prece que lhe dirige o perseguido pelo perseguidor”.

“Aquele que foi bispo e que não é mais que um penitente.”

Essa interessante mensagem de Dom Palau, Espírito, foi comentada por Allan Kardec no mesmo texto da Revue Spirite:

“O contraste entre as palavras do Espírito e as do homem nada tem que deva surpreender; todos os dias se vê quem pensa de outro modo depois da morte que durante a vida, uma vez que a venda das ilusões caiu, e é uma incontestável prova de superioridade; os Espíritos inferiores e vulgares persistem nos erros e preconceitos da vida terrestre...”.

Há de se acrescentar uma nota de Allan Kardec registrada em “Obras Póstumas” (Segunda Parte):

“NOTA – De Barcelona foi-me enviado um desenho de aquarela feito por um artista notável, representando a cena do auto-de-fé. Mandei tirar, em ponto menor, uma cópia fotográfica. Possuo também cinzas colhidas no lugar da fogueira, das folhas queimadas. Guardo-os em uma urna de cristal”.

Tais documentos históricos foram guardados pelo Codificador, conforme o mesmo revela em nota de rodapé também em “Obras Póstumas”. Segundo alguns estudiosos, esses documentos teriam sido perdidos quando os nazistas ocuparam a França, sobretudo Paris (1940-1944), durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).


 


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