A revelação
espírita, por apoiar-se em fatos, é e será
sempre progressiva
Algum tempo atrás recebi de um leitor a seguinte
pergunta:
Se entendi direito, não há animais no plano
espiritual. (L.M., cap. XXV, item 283, pergunta,
36ª.) Como explicar os animais descritos em
vários livros da obra de André Luiz? (Vide, por
exemplo, o capítulo 5 do livro Ação e Reação)
A dúvida suscitada pelo leitor advém da ideia –
que reputamos equivocada – de que a revelação
espírita se resume somente ao que Allan Kardec
consignou em suas obras. Tudo o que nos veio por
meio de outros Espíritos e outros médiuns, ou
mesmo como resultado das pesquisas psíquicas,
não poderia, de acordo com tal pensamento, ser
incorporado ao conjunto dos ensinos espíritas.
Ora, não é essa a proposta que o próprio
Codificador consignou em sua última obra.
Vejamos:
Um último caráter da revelação espírita, a
ressaltar das condições mesmas em que ela se
produz, é que, apoiando-se em fatos, tem que
ser, e não pode deixar de ser, essencialmente
progressiva, como todas as ciências de
observação. Pela sua substância, alia-se à
Ciência que, sendo a exposição das leis da
Natureza, com relação a certa ordem de fatos,
não pode ser contrária às leis de Deus, autor
daquelas leis. As descobertas que a Ciência
realiza, longe de o rebaixarem, glorificam a
Deus; unicamente destroem o que os homens
edificaram sobre as falsas ideias que formaram
de Deus. [Negritamos.]
O Espiritismo, pois, não estabelece como
princípio absoluto senão o que se acha
evidentemente demonstrado, ou o que ressalta
logicamente da observação. Entendendo com todos
os ramos da economia social, aos quais dá o
apoio das suas próprias descobertas, assimilará
sempre todas as doutrinas progressivas, de
qualquer ordem que sejam, desde que hajam
assumido o estado de verdades práticas e
abandonado o domínio da utopia, sem o que ele se
suicidaria. Deixando de ser o que é, mentiria à
sua origem e ao seu fim providencial. Caminhando
de par com o progresso, o Espiritismo jamais
será ultrapassado, porque, se novas descobertas
lhe demonstrassem estar em erro acerca de um
ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto.
Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.
(A Gênese, cap. I, item 55.)
Allan Kardec não somente propôs como cumpriu, no
curso de suas próprias pesquisas, o procedimento
sugerido, quando reexaminou, primeiro na Revista
Espírita, depois na obra A Gênese, o tema
“possessão”, fenômeno por ele rejeitado
sumariamente em duas obras: O Livro dos
Espíritos, questão 474, e O Livro dos
Médiuns, cap. XXIII, n. 241.
Fruto de novas observações que fez a respeito
das manifestações espíritas, o Codificador,
retificando o equívoco cometido, escreveu então:
47. Na
obsessão, o Espírito atua exteriormente, com a
ajuda do seu perispírito, que ele identifica com
o do encarnado, ficando este afinal enlaçado por
uma como teia e constrangido a proceder contra a
sua vontade. Na possessão, em vez de agir
exteriormente, o Espírito atuante se substitui,
por assim dizer, ao Espírito encarnado; toma-lhe
o corpo para domicílio, sem que este, no
entanto, seja abandonado pelo seu dono, pois que
isso só se pode dar pela morte. A possessão,
conseguintemente, é sempre temporária e
intermitente, porque um Espírito desencarnado
não pode tomar definitivamente o lugar de um
encarnado, pela razão de que a união molecular
do perispírito e do corpo só se pode operar no
momento da concepção. (Cap. XI, nº 18.) De posse
momentânea do corpo do encarnado, o Espírito se
serve dele como se seu próprio fora: fala pela
sua boca, vê pelos seus olhos, opera com seus
braços, conforme o faria se estivesse vivo. Não
é como na mediunidade falante, em que o Espírito
encarnado fala transmitindo o pensamento de um
desencarnado; no caso da possessão é mesmo o
último que fala e obra; quem o haja conhecido em
vida, reconhece-lhe a linguagem, a voz, os
gestos e até a expressão da fisionomia.
48. Na obsessão há sempre um Espírito malfeitor.
Na possessão pode tratar-se de um Espírito bom
que queira falar e que, para causar maior
impressão nos ouvintes, toma do corpo de um
encarnado, que voluntariamente lho empresta,
como emprestaria seu fato a outro encarnado.
Isso se verifica sem qualquer perturbação ou
incômodo, durante o tempo em que o Espírito
encarnado se acha em liberdade, como no estado
de emancipação, conservando-se este último ao
lado do seu substituto para ouvi-lo. Quando é
mau o Espírito possessor, as coisas se passam de
outro modo. Ele não toma moderadamente o corpo
do encarnado, arrebata-o, se este não possui
bastante força moral para lhe resistir. Fá-lo
por maldade para com este, a quem tortura e
martiriza de todas as formas, indo ao extremo de
tentar exterminá-lo, já por estrangulação, já
atirando-o ao fogo ou a outros lugares
perigosos. Servindo-se dos órgãos e dos membros
do infeliz paciente, blasfema, injuria e
maltrata os que o cercam; entrega-se a
excentricidades e a atos que apresentam todos os
caracteres da loucura furiosa. (A Gênese, cap.
XIV, itens 47 e 48.)
Com relação ao ponto fundamental da pergunta
enviada pelo leitor, afirmamos que há, sim,
algumas espécies animais no plano espiritual.
Embora a quase totalidade deles reencarne quase
de imediato, alguns permanecem – com seu corpo
espiritual – no plano extrafísico, onde
desenvolvem tarefas adequadas à experiência que
adquiriram.
Nesse sentido, os relatos são muitos e feitos
por pessoas idôneas e capacitadas.
A professora Irvênia Prada tratou do assunto no
artigo “Os animais têm alma e são também seres
em evolução”, publicado na edição n. 9 da
revista O Consolador. Para acessar o
artigo, clique
aqui
O artigo citado fundamenta-se em fatos. Um deles
foi extraído do livro "Testemunhos de Chico
Xavier", de Suely Caldas Schubert, em que se lê
o seguinte depoimento de Chico: "Em 1939, o meu
irmão José deixou-me um desses amigos fiéis (um
cão). Chamava-se Lorde e fez-se meu
companheiro... Em 1945, depois de longa
enfermidade, veio a falecer. Mas, no último
instante, vi o Espírito de meu irmão
aproximar-se e arrebatá-lo ao corpo inerte e,
durante alguns meses, quando o José, em
Espírito, vinha ter comigo, era sempre
acompanhado por ele... A vida é uma luz que se
alarga para todos..."
Na Revista Espírita de maio de 1865, o próprio
Codificador publicou uma carta de um
correspondente radicado em Dieppe, o qual alude
à manifestação da cadelinha Mika, então
desencarnada, fato esse que foi percebido pelo
autor do relato, por sua mulher e por uma filha
que dormia no quarto ao lado. Aludindo ao
assunto em uma comunicação mediúnica dada na
noite de 21 de abril de 1865, por intermédio do
médium Sr. E. Vézy, publicada no mesmo número da
Revista Espírita, um Espírito disse textualmente
que a manifestação relatada podia, sim, ocorrer,
embora fosse passageira.
O pesquisador espírita Ernesto Bozzano, autor do
livro Animali e manifestazioni metapsichici,
de 1923, muitos anos antes do surgimento das
obras de André Luiz, relata vários casos de
almas de animais que foram vistas ou ouvidas por
uma ou mais pessoas, valendo ressaltar que o
Padre Germano, personagem principal do clássico Memórias
do Padre Germano, sempre se apresentou,
tanto para Chico Xavier quanto para Divaldo
Franco, acompanhado de seu fiel amigo Sultão.
Divaldo Franco em uma entrevista publicada na
edição 51 d’O Consolador, declarou:
“Pessoalmente, já tive diversas experiências com
animais, especialmente cães desencarnados, que
permanecem na erraticidade desde há algum
tempo”. Para acessar a entrevista, clique
neste link
Em 1918, no cap. 6 do seu livro Espiritismo
para crianças, Cairbar Schutel escreveu:
“Então existem lá casas, árvores, flores,
parques, animais? E por que não? Depois que lá
chegarmos veremos tudo isso, e, na proporção do
nosso adiantamento, encontraremos, além dessas
esferas, outros mundos ainda mais aperfeiçoados
e rarefeitos”.
Verifica-se, por todo o exposto, que as
informações contidas nas obras de André Luiz não
são descrições “delirantes”, pois descrevem tão
somente o que em várias partes do mundo pôde ser
observado, ou seja, que existem, sim, animais
desencarnados no plano espiritual, embora sua
reencarnação “quase imediata” constitua a regra
na quase totalidade dos casos.