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por Vladimir Alexei

 

O espírita e a reencarnação


Este é um artigo de opinião. Uma reflexão a respeito de como observamos a veiculação de informações espíritas no meio espírita. O estudo da reencarnação é dos mais fascinantes no Espiritismo e por isso merece sempre ser refletido, ainda que a conclusão não seja a esperada...

A Doutrina Espírita apresenta alguns princípios sob os quais se fundamentou seu conhecimento. Deus, Jesus e Espírito são alguns princípios que o Espiritismo estuda com profundidade, embora sem esgotar o assunto. A reencarnação é outro princípio fundamental.

A respeito da reencarnação, porém, parece que houve um recrudescimento sobre o assunto por parte daqueles que divulgam o Espiritismo.

Tornou-se comum vulgarizar-se a afirmação de que fulano foi a reencarnação de beltrano, sem divulgar as possibilidades que um caso sobre reencarnação exige. O caso em tela é um pouco diferente porque está bem fundamentado.

De posse de um livro, muito bem escrito por sinal, uma escrita madura, frases bem elaboradas, em alguns pontos complexas, como os temas tratados, os autores afirmam que Allan Kardec foi Platão. Doutrinariamente é possível, mas chamamos a atenção para o processo investigativo.

O livro foi construído em torno da compreensão que o grupo de pesquisadores teve sobre uma série de documentos históricos que ficaram mais de 150 anos guardados. São milhares de documentos.

É possível que, em meio a esses milhares de documentos, apareçam conteúdos que possam contradizer o que é fartamente divulgado desde o lançamento das obras fundamentais. Não obstante, novamente, a prudência é um convite ao aprofundamento e à consulta de outras obras para que a compreensão seja doutrinária.

Alguém poderia interpretar, por exemplo, que esses documentos ficaram 150 anos sem publicação porque seu papel no processo de divulgação doutrinária não passa de um rascunho e por isso foi guardado, sem, contudo, representar algo mais importante do que as obras de Allan Kardec que foram publicadas. Se assim não fosse, os Espíritos que orientavam os trabalhos de Allan Kardec ter-se-iam manifestado a respeito.

Nesse sentido, as comunicações registradas por Allan Kardec, fruto do seu diálogo com um espírito, e que não fazem parte das obras fundamentais e nem muito menos das Revistas Espíritas, poderiam ser entendidas apenas com um valor histórico, por ser a memória dos trabalhos desenvolvidos pelo fundador do Espiritismo. Assim como temos rascunhos de trabalhos que publicamos e não temos a pretensão de publicar os rascunhos, embora existam.

Por outro lado, a preservação desses documentos manteve o foco nas obras fundamentais e com isso elas seguiram sendo divulgadas, pois tais revelações (reencarnações de Kardec) poderiam atrair um olhar mais curioso, personalista, ofuscando o trabalho principal que era dar publicidade às obras fundamentais. Ainda nessa linha, o fato de ser “rascunho” não impede que sejam informações íntimas, pessoais e por isso poderiam ser tratadas como estratégicas (principalmente do ponto de vista pedagógico, já que Kardec teve a maturidade de preservar o conteúdo principal e “limpar” o máximo possível aquilo que poderia tirar a atenção).

Ainda nessa linha de contraposição, o espírito “Platão” assinar um trabalho desenvolvido por Kardec (que seria Platão reencarnado, por exemplo) poderia ser interpretado como a continuidade de um compromisso assumido no passado. E, nessa mesma perspectiva, se os documentos foram escritos por Allan Kardec, de próprio punho, relatando tais diálogos (Espírito e Kardec), algum peso a mais essa informação precisaria ter.

Em se tratando de reencarnação, todo conteúdo pró e contra determinado processo reencarnatório merece questionamento. Questionamento científico, respeitoso, desejoso de aprofundar nos esclarecimentos visando cobrir lacunas e possíveis dúvidas persistentes.

No meio espírita é comum as pessoas defenderem bandeiras, ou seja, publicam conteúdos a respeito de temas complexos, polêmicos, posicionando-se e, quando uma publicação em contrário ocorre, dificilmente modificam seus trabalhos, seja por orgulho, seja porque ainda insistem na hipótese de estarem certos. E, na maioria das vezes, são defesas sem muita fundamentação científica e por isso a ciência é importante. O papel da ciência não é desconstruir a sua ou a minha crença e sim mostrar como um raciocínio foi construído e de que maneira pode ou não ser validado.

Existem autores que constroem seus argumentos de forma brilhante: utilizam referências legítimas, depoimentos, registros fotográficos e entrevistas, contudo, na hora de interpretar o material, se deixam levar pela dedução perigosa. Você pode reunir diversos documentos, no entanto, esses documentos podem ainda não apresentar o elemento que vai conectar o que você interpreta dos documentos e a tese que defende. Nesse caso, a conclusão ficaria melhor escrita nos seguintes termos: “pode ser”, “sugere”, “existe a possibilidade”, “existem indícios”, “percebe-se a possibilidade” etc. E cientificamente essa conclusão é brilhante!

Por isso admiramos o trabalho de pesquisa do Dr. Hernani Guimarães Andrade. Por isso admiramos também a construção do raciocínio do Hermínio C. Miranda nas obras em que desenvolve a tese reencarnacionista da “simetria” histórica/psicológica.

No entanto, caro leitor, por melhor que seja construído um raciocínio, afirmar quanto à reencarnação é algo temerário. A tese do Hermínio Miranda é questionada por um pesquisador acadêmico em um artigo científico, embora o autor reconheça a importância do trabalho do Hermínio Miranda. A despeito disso, os argumentos utilizados, quando se baseiam em informações mediúnicas, em sua maioria, ainda mais quando o médium é famoso, não necessariamente validam a refutação, afinal, salvo em caso contrário, os escritos utilizados não foram desenvolvidos com esse propósito. Todavia, são argumentos que podem ser validados ou não pela lógica científica.

Um exemplo clássico é a reencarnação de Allan Kardec como Chico Xavier. Por tudo que já li a respeito, interpreto como não sendo o mesmo espírito (Kardec e Chico). Todavia, por mais segurança que tenha nesse entendimento, é perfeitamente possível que ele possa ter sido de acordo com o que se sabe sobre a reencarnação. Por quê? Porque os elementos que comprovam não ser têm o mesmo valor dos elementos que comprovam ser: documentos, depoimentos, fotografias, entrevistas etc. Reencarnação não é uma questão de gosto ou opinião, nem mesmo espiritual.

Quando se argumenta que Allan Kardec foi Platão (ou João Evangelista) e ainda por cima utilizam diálogos do fundador do Espiritismo com um Espírito para validar esse pensamento, a primeira reação é acreditar. Voltamos ao início do artigo: é um documento histórico, rascunho, que mostrou o intercâmbio entre os dois mundos, como era do feitio do fundador do Espiritismo fazer. Kardec mantinha registro do máximo de informações possíveis. Daí a concluir que é uma verdade incontestável, talvez ainda sejam necessárias mais reflexões a respeito.

Por que Allan Kardec informa em O Evangelho Segundo o Espiritismo que Sócrates e Platão foram precursores da Doutrina? Seria “autopromoção”?

Em Prolegômenos, capítulo introdutório de O Livro dos Espíritos, assinam uma série de espíritos que contribuíram com o trabalho de orientação do mundo espiritual, dentre eles, Platão. Novamente, seria “autopromoção”?

A Doutrina explica que é possível existir comunicação espiritual de encarnado, contudo, o motivo desse tipo de comunicação é algo muito mais sutil, singelo e menos profundo quanto a participação na construção de uma nova filosofia de vida, a filosofia espírita. Ainda assim, não se pode concluir que esse raciocínio, embora lógico, seja integralmente correto.

Por outro lado, aqueles que entendem que a reencarnação é legítima (Kardec foi Platão) e confirmada ou validada em reuniões mediúnicas em que o próprio espírito de Allan Kardec teria confirmado ou ainda que outros espíritos o façam, também pode ser aceito e fica a cargo do leitor decidir.

Dessa forma, concluímos que, embora se tenha reunido o máximo de evidências possíveis para comprovar uma reencarnação, pelos métodos empregados na atualidade, dificilmente você terá essa informação validada integralmente, seja porque as comunicações espirituais na atualidade têm sido questionadas, seja porque os elementos reunidos ainda não foram suficientes para se concluir dessa forma.

Ainda assim, pode bastar para você defender a ideia da reencarnação? Sim! É plausível, do contrário, ninguém conversaria ou explicaria sobre a reencarnação. O que no nosso entendimento não seria mais concebido é uma aceitação apenas porque está em livro, ou porque o médium disse ou porque está em documentos guardados há mais de 150 anos. Nenhum desses elementos prescinde de análise adequada.

Na dúvida, parafraseando o Espírito Erasto, mais vale repelir a convicção a respeito de uma possível reencarnação bem fundamentada, embora utilizando fundamentos questionáveis, do que aceitar algo incomprovado até aquele momento como verdade absoluta.


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita