O espírita e a reencarnação
Este é um artigo de opinião. Uma reflexão a respeito de
como observamos a veiculação de informações espíritas no
meio espírita. O estudo da reencarnação é dos mais
fascinantes no Espiritismo e por isso merece sempre ser
refletido, ainda que a conclusão não seja a esperada...
A Doutrina Espírita apresenta alguns princípios sob os
quais se fundamentou seu conhecimento. Deus, Jesus e
Espírito são alguns princípios que o Espiritismo estuda
com profundidade, embora sem esgotar o assunto. A
reencarnação é outro princípio fundamental.
A respeito da reencarnação, porém, parece que houve um
recrudescimento sobre o assunto por parte daqueles que
divulgam o Espiritismo.
Tornou-se comum vulgarizar-se a afirmação de que fulano
foi a reencarnação de beltrano, sem divulgar as
possibilidades que um caso sobre reencarnação exige. O
caso em tela é um pouco diferente porque está bem
fundamentado.
De posse de um livro, muito bem escrito por sinal, uma
escrita madura, frases bem elaboradas, em alguns pontos
complexas, como os temas tratados, os autores afirmam
que Allan Kardec foi Platão. Doutrinariamente é
possível, mas chamamos a atenção para o processo
investigativo.
O livro foi construído em torno da compreensão que o
grupo de pesquisadores teve sobre uma série de
documentos históricos que ficaram mais de 150 anos
guardados. São milhares de documentos.
É possível que, em meio a esses milhares de documentos,
apareçam conteúdos que possam contradizer o que é
fartamente divulgado desde o lançamento das obras
fundamentais. Não obstante, novamente, a prudência é um
convite ao aprofundamento e à consulta de outras obras
para que a compreensão seja doutrinária.
Alguém poderia interpretar, por exemplo, que esses
documentos ficaram 150 anos sem publicação porque seu
papel no processo de divulgação doutrinária não passa de
um rascunho e por isso foi guardado, sem, contudo,
representar algo mais importante do que as obras de
Allan Kardec que foram publicadas. Se assim não fosse,
os Espíritos que orientavam os trabalhos de Allan Kardec
ter-se-iam manifestado a respeito.
Nesse sentido, as comunicações registradas por Allan
Kardec, fruto do seu diálogo com um espírito, e que não
fazem parte das obras fundamentais e nem muito menos das
Revistas Espíritas, poderiam ser entendidas apenas com
um valor histórico, por ser a memória dos trabalhos
desenvolvidos pelo fundador do Espiritismo. Assim como
temos rascunhos de trabalhos que publicamos e não temos
a pretensão de publicar os rascunhos, embora existam.
Por outro lado, a preservação desses documentos manteve
o foco nas obras fundamentais e com isso elas seguiram
sendo divulgadas, pois tais revelações (reencarnações de
Kardec) poderiam atrair um olhar mais curioso,
personalista, ofuscando o trabalho principal que era dar
publicidade às obras fundamentais. Ainda nessa linha, o
fato de ser “rascunho” não impede que sejam informações
íntimas, pessoais e por isso poderiam ser tratadas como
estratégicas (principalmente do ponto de vista
pedagógico, já que Kardec teve a maturidade de preservar
o conteúdo principal e “limpar” o máximo possível aquilo
que poderia tirar a atenção).
Ainda nessa linha de contraposição, o espírito “Platão”
assinar um trabalho desenvolvido por Kardec (que seria
Platão reencarnado, por exemplo) poderia ser
interpretado como a continuidade de um compromisso
assumido no passado. E, nessa mesma perspectiva, se os
documentos foram escritos por Allan Kardec, de próprio
punho, relatando tais diálogos (Espírito e Kardec),
algum peso a mais essa informação precisaria ter.
Em se tratando de reencarnação, todo conteúdo pró e
contra determinado processo reencarnatório merece
questionamento. Questionamento científico, respeitoso,
desejoso de aprofundar nos esclarecimentos visando
cobrir lacunas e possíveis dúvidas persistentes.
No meio espírita é comum as pessoas defenderem
bandeiras, ou seja, publicam conteúdos a respeito de
temas complexos, polêmicos, posicionando-se e, quando
uma publicação em contrário ocorre, dificilmente
modificam seus trabalhos, seja por orgulho, seja porque
ainda insistem na hipótese de estarem certos. E, na
maioria das vezes, são defesas sem muita fundamentação
científica e por isso a ciência é importante. O papel da
ciência não é desconstruir a sua ou a minha crença e sim
mostrar como um raciocínio foi construído e de que
maneira pode ou não ser validado.
Existem autores que constroem seus argumentos de forma
brilhante: utilizam referências legítimas, depoimentos,
registros fotográficos e entrevistas, contudo, na hora
de interpretar o material, se deixam levar pela dedução
perigosa. Você pode reunir diversos documentos, no
entanto, esses documentos podem ainda não apresentar o
elemento que vai conectar o que você interpreta dos
documentos e a tese que defende. Nesse caso, a conclusão
ficaria melhor escrita nos seguintes termos: “pode ser”,
“sugere”, “existe a possibilidade”, “existem indícios”,
“percebe-se a possibilidade” etc. E cientificamente essa
conclusão é brilhante!
Por isso admiramos o trabalho de pesquisa do Dr. Hernani
Guimarães Andrade. Por isso admiramos também a
construção do raciocínio do Hermínio C. Miranda nas
obras em que desenvolve a tese reencarnacionista da
“simetria” histórica/psicológica.
No entanto, caro leitor, por melhor que seja construído
um raciocínio, afirmar quanto à reencarnação é algo
temerário. A tese do Hermínio Miranda é questionada por
um pesquisador acadêmico em um artigo científico, embora
o autor reconheça a importância do trabalho do Hermínio
Miranda. A despeito disso, os argumentos utilizados,
quando se baseiam em informações mediúnicas, em sua
maioria, ainda mais quando o médium é famoso, não
necessariamente validam a refutação, afinal, salvo em
caso contrário, os escritos utilizados não foram
desenvolvidos com esse propósito. Todavia, são
argumentos que podem ser validados ou não pela lógica
científica.
Um exemplo clássico é a reencarnação de Allan Kardec
como Chico Xavier. Por tudo que já li a respeito,
interpreto como não sendo o mesmo espírito (Kardec e
Chico). Todavia, por mais segurança que tenha nesse
entendimento, é perfeitamente possível que ele possa ter
sido de acordo com o que se sabe sobre a reencarnação.
Por quê? Porque os elementos que comprovam não ser têm o
mesmo valor dos elementos que comprovam ser: documentos,
depoimentos, fotografias, entrevistas etc. Reencarnação
não é uma questão de gosto ou opinião, nem mesmo
espiritual.
Quando se argumenta que Allan Kardec foi Platão (ou João
Evangelista) e ainda por cima utilizam diálogos do
fundador do Espiritismo com um Espírito para validar
esse pensamento, a primeira reação é acreditar. Voltamos
ao início do artigo: é um documento histórico, rascunho,
que mostrou o intercâmbio entre os dois mundos, como era
do feitio do fundador do Espiritismo fazer. Kardec
mantinha registro do máximo de informações possíveis.
Daí a concluir que é uma verdade incontestável, talvez
ainda sejam necessárias mais reflexões a respeito.
Por que Allan Kardec informa em O Evangelho Segundo o
Espiritismo que Sócrates e Platão foram precursores
da Doutrina? Seria “autopromoção”?
Em Prolegômenos, capítulo introdutório de O Livro dos
Espíritos, assinam uma série de espíritos que
contribuíram com o trabalho de orientação do mundo
espiritual, dentre eles, Platão. Novamente, seria
“autopromoção”?
A Doutrina explica que é possível existir comunicação
espiritual de encarnado, contudo, o motivo desse tipo de
comunicação é algo muito mais sutil, singelo e menos
profundo quanto a participação na construção de uma nova
filosofia de vida, a filosofia espírita. Ainda assim,
não se pode concluir que esse raciocínio, embora lógico,
seja integralmente correto.
Por outro lado, aqueles que entendem que a reencarnação
é legítima (Kardec foi Platão) e confirmada ou validada
em reuniões mediúnicas em que o próprio espírito de
Allan Kardec teria confirmado ou ainda que outros
espíritos o façam, também pode ser aceito e fica a cargo
do leitor decidir.
Dessa forma, concluímos que, embora se tenha reunido o
máximo de evidências possíveis para comprovar uma
reencarnação, pelos métodos empregados na atualidade,
dificilmente você terá essa informação validada
integralmente, seja porque as comunicações espirituais
na atualidade têm sido questionadas, seja porque os
elementos reunidos ainda não foram suficientes para se
concluir dessa forma.
Ainda assim, pode bastar para você defender a ideia da
reencarnação? Sim! É plausível, do contrário, ninguém
conversaria ou explicaria sobre a reencarnação. O que no
nosso entendimento não seria mais concebido é uma
aceitação apenas porque está em livro, ou porque o
médium disse ou porque está em documentos guardados há
mais de 150 anos. Nenhum desses elementos prescinde de
análise adequada.
Na dúvida, parafraseando o Espírito Erasto, mais vale
repelir a convicção a respeito de uma possível
reencarnação bem fundamentada, embora utilizando
fundamentos questionáveis, do que aceitar algo
incomprovado até aquele momento como verdade absoluta.