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por João Márcio F. Cruz

 

O desencarne de Charles Chaplin


Perante as leis divinas, o rico e o pobre, o bonito e o feio, o jovem e o velho, o negro e o branco, a mulher e o homem, o famoso e o anônimo, todos são iguais e deles será exigido assumir as consequências de suas escolhas.

Depois que o véu da matéria se rasgou, os olhos do gênio silencioso depararam-se com ruelas, calçadas, bares e postes muito íntimos.

De repente, o Carlos era apenas o Charles...

A roupagem alegre da fama e das telas cedia lugar ao homem triste e só.

Ele tinha a impressão de já ter vivido naquele local.

Logo após o desenlace, o espírito demora um tempo pra superar o instante de perturbação e perceber sua nova morada.

O poeta acostumou-se com aquela nova vida e foi fácil lembrar onde estava. Era a Londres dos seus filmes...

A cidade que foi palco de várias de suas obras inesquecíveis...

Porém, diferente do grande artista, ali estava sentindo dores, preso a um corpo sem vida e se arrastando, como mendigo, por aquelas ruas.

As pessoas não o escutavam.

Durante muito tempo, ele, o gênio Charles, ficou vagando como mendigo, um autêntico esfarrapado espiritual, pelas ruas, ansioso por explicações

Nos palcos da vida, conquistou troféus, medalhas e prêmios. Seu sucesso mundial era o prêmio merecido que ele ganhara pelo seu singular talento, mas a vida não acontece nos palcos, a vida ocorre fora deles.

Por trás do grande artista, que falava com o olhar e as mãos, existia um homem cheio de imperfeições morais, vícios sociais e desajustes sexuais.

Perante as leis divinas, o que fazemos nos palcos tem valor e aquilata méritos, porém o que fazemos longe dos holofotes tem mais valor e, na contabilidade cósmica, o príncipe na Terra se parecia com um mendigo, semelhante àquele que ele mesmo interpretou.

Talvez seu inconsciente lhe trouxesse o Carlos como uma representação de quem ele sentia ser de maneira inconfessa.

É muito comum...

Um artista interpretar nos palcos aquele papel que ele sente ser, nos palanques da existência.

Ele ainda demoraria um tempo em penúria por Londres até recobrar sua consciência e, movido pelo arrependimento, conseguir ser resgatado por seu anjo da guarda.

Se o homem clamava por auxílio como um pedinte de luz e consolação, o bem que ele fez como artista lhe trouxe admiradores sem fim e esse carinho foi de inestimável importância em seu reestabelecimento post mortem.

Guardemos do homem sua arte e saibamos reconhecer, por trás da arte, o valor da vida humana que não desfila nos palcos, não circula nos cinemas, mas faz toda a diferença nos planos maiores do astral.
 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita