O desencarne de Charles Chaplin
Perante as leis divinas, o rico e o pobre, o bonito e o
feio, o jovem e o velho, o negro e o branco, a mulher e
o homem, o famoso e o anônimo, todos são iguais e deles
será exigido assumir as consequências de suas escolhas.
Depois que o véu da matéria se rasgou, os olhos do gênio
silencioso depararam-se com ruelas, calçadas, bares e
postes muito íntimos.
De repente, o Carlos era apenas o Charles...
A roupagem alegre da fama e das telas cedia lugar ao
homem triste e só.
Ele tinha a impressão de já ter vivido naquele local.
Logo após o desenlace, o espírito demora um tempo pra
superar o instante de perturbação e perceber sua nova
morada.
O poeta acostumou-se com aquela nova vida e foi fácil
lembrar onde estava. Era a Londres dos seus filmes...
A cidade que foi palco de várias de suas obras
inesquecíveis...
Porém, diferente do grande artista, ali estava sentindo
dores, preso a um corpo sem vida e se arrastando, como
mendigo, por aquelas ruas.
As pessoas não o escutavam.
Durante muito tempo, ele, o gênio Charles, ficou vagando
como mendigo, um autêntico esfarrapado espiritual, pelas
ruas, ansioso por explicações
Nos palcos da vida, conquistou troféus, medalhas e
prêmios. Seu sucesso mundial era o prêmio merecido que
ele ganhara pelo seu singular talento, mas a vida não
acontece nos palcos, a vida ocorre fora deles.
Por trás do grande artista, que falava com o olhar e as
mãos, existia um homem cheio de imperfeições morais,
vícios sociais e desajustes sexuais.
Perante as leis divinas, o que fazemos nos palcos tem
valor e aquilata méritos, porém o que fazemos longe dos
holofotes tem mais valor e, na contabilidade cósmica, o
príncipe na Terra se parecia com um mendigo, semelhante
àquele que ele mesmo interpretou.
Talvez seu inconsciente lhe trouxesse o Carlos como uma
representação de quem ele sentia ser de maneira
inconfessa.
É muito comum...
Um artista interpretar nos palcos aquele papel que ele
sente ser, nos palanques da existência.
Ele ainda demoraria um tempo em penúria por Londres até
recobrar sua consciência e, movido pelo arrependimento,
conseguir ser resgatado por seu anjo da guarda.
Se o homem clamava por auxílio como um pedinte de luz e
consolação, o bem que ele fez como artista lhe trouxe
admiradores sem fim e esse carinho foi de inestimável
importância em seu reestabelecimento post mortem.
Guardemos do homem sua arte e saibamos reconhecer, por
trás da arte, o valor da vida humana que não desfila nos
palcos, não circula nos cinemas, mas faz toda a
diferença nos planos maiores do astral.
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