Entrevista

por Orson Peter Carrara

Uma experiência de psicografia: obra reúne mensagens recebidas ao longo do tempo


Natural de Campo Grande (MS), onde também reside, Luiz Fernando Grijó (foto) é engenheiro civil e vincula-se ao Grupo Espírita Recanto da Prece Dr. Eurípedes Barsanulfo, de sua cidade, no qual atua como voluntário. Em suas respostas, relata a experiência psicográfica, o aprendizado e o conforto encontrados na Doutrina Espírita.

 

Como conheceu o Espiritismo?

Por meio da busca íntima por respostas existenciais. Recebi de presente O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, cujas páginas percorri avidamente até o final, guardando no coração a certeza da imortalidade da alma, tamanha a lógica impressa naquela obra singular.

Embora oriundo de berço católico, havia em mim um impulso inexplicável que me levava a admirar a venerável figura de Chico Xavier e a desejar conhecê-lo, apesar das remotas probabilidades. À época, ainda estudante, restava-me apenas vê-lo brevemente em alguma reportagem transmitida pela televisão.

E como foi a percepção das possibilidades mediúnicas na psicografia?

De maneira muito natural. Adentrei o Espiritismo pela via do coração. Creio que a mediunidade foi sendo conquistada e administrada em gotas homeopáticas do elixir da boa vontade.

Desde assistir a palestras edificantes até servir água fluidificada, aplicar passe magnético, participar da confecção da Pomada Vovô Pedro, colaborar nos trabalhos assistenciais da sopa e na distribuição de pães, integrar reuniões mediúnicas de desobsessão e exercitar, despretensiosamente, a psicografia — tudo isso compôs um roteiro de trabalho e persistência.

Esse percurso possibilitou a formação e a humanização do médium dentro dos princípios do amor ao servir, propósito maior da tarefa que desempenho junto aos amigos espirituais que, por bondade, relevam minhas imperfeições íntimas e contornam obstáculos para que, em parceria, possamos apresentar ao leitor a sugestão de uma leitura edificante.

E como foi a elaboração do livro, considerando tratar-se de mensagens esparsas recebidas ao longo do tempo?

Como um menino que coleciona figurinhas em um álbum, assim procedi com as mensagens. Guardei, durante muito tempo, cada frase recebida. Observei sua lenta evolução, alcançando, em poucas palavras, uma essência lógica e dinâmica que nos convida à reflexão.

Ao mesmo tempo que economizam tempo — recurso tão escasso nos dias atuais — as mensagens suscitam inquietantes perguntas sobre como estamos utilizando as facilidades de que dispomos e se somos, de fato, os construtores de nossa própria felicidade.

A organização do livro ocorreu de forma natural. Após um encontro espiritual com o benfeitor André Luiz, conforme relato nas páginas iniciais, recebi a informação de que a obra havia sido aprovada no mundo espiritual. Passamos, então, a catalogar as mensagens e a atribuir-lhes títulos, respeitando a orientação de Chico Xavier quanto à forma e ao tamanho adequados ao propósito escolhido.

O comovente prefácio está assinado pelo idealista e dedicado amigo de Campo Grande, Carlos Sanches. Fale-nos dos vínculos com esse notável espírita.

Creio que nosso vínculo foi construído pela admiração mútua que nutrimos pela figura ímpar de Chico Xavier. Do desejo de estarmos sempre que possível com ele surgiram muitas viagens a Uberaba, extremamente proveitosas.

Assim consolidamos, pela prática e divulgação da Doutrina Espírita, a simpatia dos amigos espirituais que nos assistem, cada qual dentro de suas habilidades. Particularmente, admiro o casal Carlos e Beth Sanches pela dedicação exemplar à divulgação da Doutrina e dos preceitos cristãos. Muito aprendi e continuo aprendendo com eles. Levo em meu coração profunda gratidão pelos momentos preciosos compartilhados.

Em sua apresentação da obra, você menciona dúvidas quanto à publicação do livro. Fale-nos desse processo.

Ao contemplar a vastidão da literatura espírita existente, parecer-me-ia pretensão imaginar ter algo a acrescentar à magnífica coleção de obras de que dispomos — e que certamente exigirão muitas reencarnações para estudo aprofundado.

Sempre recordei a célebre frase:
“Quando o servidor está pronto, o serviço aparece.”

Esperei, portanto, muitas primaveras, com paciência e resignação, até o consentimento dos amigos espirituais.

O que lhe foi mais marcante nessas psicografias?

A forma como ocorrem. Trabalho o dia inteiro com números e planilhas orçamentárias de obras de engenharia. Nos dias de reunião, após enfrentar o trânsito no horário de pico, inicio os trabalhos no horário previamente ajustado.

Então, como em um passe de mágica, alcanço sintonia para escrever sobre temas que não fizeram parte do meu cotidiano. Isso me impressiona profundamente. As mensagens vêm de forma pública: leio-as ao término das reuniões, omitindo apenas os nomes de quem as assina, para que a atenção se concentre no conteúdo, não na autoria.

As mensagens são breves e compactas. Eram recebidas uma por reunião ou várias?

É aleatório. Em algumas reuniões, recebo várias mensagens de um mesmo autor; em outras, são intercaladas. Após a leitura, passo-as a limpo no computador e permanecem arquivadas, aguardando propósito maior.

A seleção para o livro não seguiu a ordem cronológica de recebimento. Foram extraídas de diversas épocas, segundo escolha dos espíritos comunicantes.

Destaco também o belo trabalho da equipe da Editora EME, que soube conferir vida e expressão ao material. Não sou escritor; limito-me a registrar o que escuto, com as naturais limitações de compreensão que ainda carrego.

Como era sua identificação e percepção dos espíritos comunicantes?

Da maneira mais natural possível. Recordo-me da expressão de Chico Xavier: “O telefone toca de lá para cá.” Se não houver necessidade de acrescentar algo à lição do Evangelho ou aos comentários da noite, nada é escrito.

Quando estou presente à reunião, procuro estar integralmente atento e entrego a mente às inspirações que chegam. É um momento de alegria, no qual me desligo das preocupações diárias para absorver ensinamentos da Vida Maior.

Às vezes identifico visualmente a presença; em outras, apenas escuto. Quando as mensagens são de cunho pessoal, sinto emoções que não me pertencem, mas ao coração que se comunica. Lágrimas, por vezes, são compartilhadas nesse encontro de almas afins.

Durante muito tempo, a identificação por nomes conhecidos causava-me inquietação. Não me julgava apto a recebê-los. Um dia, porém, compreendi que os nomes são apenas referências de estilo e não garantem, por si, a essência da mensagem. Não é a embalagem que importa, mas o conteúdo. É ele que fala ao coração e nos orienta para melhores escolhas diante do inevitável retorno à vida espiritual.

Algo marcante que gostaria de destacar aos leitores?

Que Jesus, em sua infinita misericórdia, permita que as sensações experimentadas ao receber as mensagens tenham impregnado cada palavra com as vibrações dos amigos espirituais, que compartilham experiências, acertos e erros, para que possamos trilhar caminho menos oneroso e alcançar a paz da consciência tranquila e do dever cristão cumprido.

Algo mais a acrescentar?

Minha eterna gratidão a todos os amigos e companheiros de jornada que oferecem tempo e paciência às singelas anotações apresentadas. Se ao menos uma palavra alcançar um coração no momento oportuno, já terá valido todo o esforço.

Não nos esqueçamos de estudar a obra magnífica de Allan Kardec e a complementar de Chico Xavier. Ambas nos conduzem ao caminho da redenção, sinalizado por Jesus, nosso Guia e Mestre.

Para quem quiser adquirir a obra, como proceder?

Como os direitos autorais pertencem à Editora EME e são revertidos a instituições assistenciais, a forma mais prática é acessar diretamente a editora.

Suas palavras finais.

Meus sinceros agradecimentos a todos que nos acompanharam nesta despretensiosa entrevista. Que os leitores encontrem, nas páginas do livro, frases que lhes alcancem o coração e lhes proporcionem reflexões fecundas.


 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita