A recusa de Buda
Buda meditava tranquilamente sob a sombra de uma árvore
muito grande quando um homem que sentia uma inveja
desconfortável dele se aproximou e começou a agredi-lo
com todas as palavras que conhecia oriundas de seu
sentimento desequilibrado.
Entretanto, o líder espiritual não respondeu a nenhuma
das ofensas recebidas.
Depois que o agressor esgotou todos os meios para
ofendê-lo, Buda perguntou a ele se quando recebia uma
visita em sua casa servia, como mandava a tradição,
bebidas e comidas.
Diante da resposta afirmativa do visitante, Buda
perguntou o que ele fazia se a visita se recusasse a
qualquer bebida ou alimento oferecidos.
Prontamente o indagado respondeu que bebia e comia tudo
o que fora recusado pelo visitante.
Correto, respondeu Buda, agora diante de todas as suas
tentativas de ofender-me, faço o mesmo: não aceito nada
o que seu coração me oferece e coloco seus sentimentos
de ódio à sua disposição para que você faça com o ele o
que julgar melhor.
Ao recusar pacificamente as agressões orais do homem que
tinha inveja dele, Buda não permitiu ser envolvido pelas
vibrações negativas emitidas por aquela pessoa, não
estabelecendo sintonia com o mal.
Lembramo-nos da grande figura de Mahatma Gandhi que,
recebendo uma bofetada de um soldado inglês e indo ao
chão, levantou-se sem nenhuma atitude de revide ou
autodefesa e continuou a olhar no rosto do agressor.
Essa atitude irritou o soldado, que repetiu a ofensa
através de outra agressão igual à primeira, prostrando
Gandhi novamente ao solo.
Esse Espírito de escol que veio libertar a Índia da
escravidão do povo inglês levantou-se mais uma vez e
ficou contemplando pacificamente o soldado, que,
desconcertado pela sua atitude, perguntou a Gandhi onde
ele aprendera a não revidar uma ofensa, a não ser
covarde na opinião do agressor.
O líder espiritual do povo hindu olhou para o peito do
soldado tomado pela cólera diante de tamanha calma, em
que havia um crucifixo pendurado. Apontou para a cruz e
respondeu muito calmo: Foi esse aí que você traz no
peito quem me ensinou a não revidar as ofensas.
Como Gandhi, outro pacificador e lutador pelos direitos
do povo negro nos Estados Unidos, pastor Martin Luther
King, pagou com a vida na defesa dos seus ideais pelos
direitos de seus irmãos negros daquele país.
Quantos outros usaram a “arma” da não violência em
defesa das suas convicções?
Consultando o capítulo IX do Evangelho Segundo O
Espiritismo, encontramos uma mensagem de um Espírito
protetor sobre a cólera que muito atende ao propósito
deste artigo:
Em seu frenesi, o homem colérico se volta contra tudo,
contra a natureza bruta, os objetos inanimados que ele
quebra, porque não lhe obedecem. Ah! se nesse momentos
ele pudesse se ver a sangue-frio, teria medo de si
mesmo, ou se acharia ridículo! Que ele julgue por isso a
impressão que deve causar a outras pessoas. Mesmo que
não fosse senão por respeito a si mesmo, deveria
esforçar-se por vencer a tendência que faz dele objeto
de piedade.
Se ele pensasse que a cólera não remedia nada, que
altera a saúde, e até lhe compromete a vida, veria que
ele próprio é sua primeira vítima. Mas, acima de tudo,
uma consideração deveria detê-lo: o pensamento de que
ele torna infelizes todos os que o cercam. Se tem
coração, não lhe causa remorso fazer sofrer os seres que
mais ama? E que desgosto mortal se, num acesso de
irritação, cometesse um ato pelo qual poderia
arrepender-se por toda a vida!
Esta última ponderação sobre a irritação que esse
Espírito protetor nos faz, remete-nos aos inúmeros
crimes cometidos no recinto que deveria ser abençoado do
próprio lar! Quantas discussões que vão minando a paz e
o equilíbrio do ambiente doméstico acabando por separar
um casal com as inúmeras consequências negativas para os
filhos, mesmo com a guarda compartilhada?!
Um momento de irritação nos lembra dos crimes cometidos
no trânsito onde uma simples palavra mal colocada é o
estopim para que se chegue a um crime que deixam órfãos
e viúvas. O agressor se acha na posse do direito supremo
e o agredido dá abrigo, aceita as provocações que
culminam em tragédias que poderiam ser evitadas.
Quantas palavras infelizes provocadas pela irritação num
jogo de futebol onde o objetivo deveria ser o de um
divertimento que conferisse algumas horas de descanso ao
corpo e para a mente! Que proporcionasse a
confraternização das pessoas ali reunidas, e acaba se
transformando em uma praça de guerra como se estivessem
ali presentes grandes inimigos em uma disputa de guerra
entre desconhecidos e ferozes contendores!
No próprio ambiente de trabalho onde se labuta para a
conquista do pão honesto de cada dia, a aceitação de uma
palavra mal colocada desencadeia um mecanismo
descontrolado que passa a ser comandado por um
sentimento de irritação que poderia ser abortado se não
houvesse a recepção do mesmo.
Até na Casa espírita ( pasmem!) a irritação consegue
“adeptos”. Muitas vezes ela fica camuflada, fica
subclínica, mas marcando presença nos sentimentos mais
profundos.
O agressor, quando não consegue sintonia com aquele que
deseja atingir, fica em seus sentimentos com o veneno
que procurou em vão distribuir.
Um fogo sem a presença do oxigênio anula-se por si
próprio. A irritação não alimentada acaba por se
extinguir porque falta-lhe combustível.
Jesus que foi feito prisioneiro sem nenhum crime
cometido, que recebeu chibatadas pelo corpo, que foi
esbofeteado em pleno rosto, que teve sobre sua cabeça
uma coroa de espinhos de roseira silvestre que crescia
nos muros de Jerusalém, que foi submetido à escolha
entre ele e um criminoso como Barrabás, que carregou um
pesado madeiro até o alto do Gólgota e sofreu o suplício
infamante da cruz, não teve nenhum momento de irritação
para revidar de alguma maneira a nenhum dos seus
agressores.
E como se não bastasse o seu silêncio diante de tantas
agressões, seu lábios se entreabriram rogando ao Pai o
perdão para todos nós que de alguma maneira continuamos
a responder com ingratidão e indiferença ao seu convite
para termos uma conduta condizente de sermos
considerados como ovelhas do seu rebanho.
Somente assim conseguiremos a paz que buscamos nos
outros sem a devida permissão para que ela nasça antes
de mais nada dentro de nós mesmos!