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por Ricardo Orestes Forni

 

A recusa de Buda


Buda meditava tranquilamente sob a sombra de uma árvore muito grande quando um homem que sentia uma inveja desconfortável dele se aproximou e começou a agredi-lo com todas as palavras que conhecia oriundas de seu sentimento desequilibrado.

Entretanto, o líder espiritual não respondeu a nenhuma das ofensas recebidas.

Depois que o agressor esgotou todos os meios para ofendê-lo, Buda perguntou a ele se quando recebia uma visita em sua casa servia, como mandava a tradição, bebidas e comidas.

Diante da resposta afirmativa do visitante, Buda perguntou o que ele fazia se a visita se recusasse a qualquer bebida ou alimento oferecidos.

Prontamente o indagado respondeu que bebia e comia tudo o que fora recusado pelo visitante.

Correto, respondeu Buda, agora diante de todas as suas tentativas de ofender-me, faço o mesmo: não aceito nada o que seu coração me oferece e coloco seus sentimentos de ódio à sua disposição para que você faça com o ele o que julgar melhor.

Ao recusar pacificamente as agressões orais do homem que tinha inveja dele, Buda não permitiu ser envolvido pelas vibrações negativas emitidas por aquela pessoa, não estabelecendo sintonia com o mal.

Lembramo-nos da grande figura de Mahatma Gandhi que, recebendo uma bofetada de um soldado inglês e indo ao chão, levantou-se sem nenhuma atitude de revide ou autodefesa e continuou a olhar no rosto do agressor.

Essa atitude irritou o soldado, que repetiu a ofensa através de outra agressão igual à primeira, prostrando Gandhi novamente ao solo.

Esse Espírito de escol que veio libertar a Índia da escravidão do povo inglês levantou-se mais uma vez e ficou contemplando pacificamente o soldado, que, desconcertado pela sua atitude, perguntou a Gandhi onde ele aprendera a não revidar uma ofensa, a não ser covarde na opinião do agressor.

O líder espiritual do povo hindu olhou para o peito do soldado tomado pela cólera diante de tamanha calma, em que havia um crucifixo pendurado. Apontou para a cruz e respondeu muito calmo: Foi esse aí que você traz no peito quem me ensinou a não revidar as ofensas.

Como Gandhi, outro pacificador e lutador pelos direitos do povo negro nos Estados Unidos, pastor Martin Luther King, pagou com a vida na defesa dos seus ideais pelos direitos de seus irmãos negros daquele país.

Quantos outros usaram a “arma” da não violência em defesa das suas convicções?

Consultando o capítulo IX do Evangelho Segundo O Espiritismo, encontramos uma mensagem de um Espírito protetor sobre a cólera que muito atende ao propósito deste artigo:

Em seu frenesi, o homem colérico se volta contra tudo, contra a natureza bruta, os objetos inanimados que ele quebra, porque não lhe obedecem. Ah! se nesse momentos ele pudesse se ver a sangue-frio, teria medo de si mesmo, ou se acharia ridículo! Que ele julgue por isso a impressão que deve causar a outras pessoas. Mesmo que não fosse senão por respeito a si mesmo, deveria esforçar-se por vencer a tendência que faz dele objeto de piedade.

Se ele pensasse que a cólera não remedia nada, que altera a saúde, e até lhe compromete a vida, veria que ele próprio é sua primeira vítima. Mas, acima de tudo, uma consideração deveria detê-lo: o pensamento de que ele torna infelizes todos os que o cercam. Se tem coração, não lhe causa remorso fazer sofrer os seres que mais ama? E que desgosto mortal se, num acesso de irritação, cometesse um ato pelo qual poderia arrepender-se por toda a vida!

Esta última ponderação sobre a irritação que esse Espírito protetor nos faz, remete-nos aos inúmeros crimes cometidos no recinto que deveria ser abençoado do próprio lar! Quantas discussões que vão minando a paz e o equilíbrio do ambiente doméstico acabando por separar um casal com as inúmeras consequências negativas para os filhos, mesmo com a guarda compartilhada?!

Um momento de irritação nos lembra dos crimes cometidos no trânsito onde uma simples palavra mal colocada é o estopim para que se chegue a um crime que deixam órfãos e viúvas. O agressor se acha na posse do direito supremo e o agredido dá abrigo, aceita as provocações que culminam em tragédias que poderiam ser evitadas.

Quantas palavras infelizes provocadas pela irritação num jogo de futebol onde o objetivo deveria ser o de um divertimento que conferisse algumas horas de descanso ao corpo e para a mente! Que proporcionasse a confraternização das pessoas ali reunidas, e acaba se transformando em uma praça de guerra como se estivessem ali presentes grandes inimigos em uma disputa de guerra entre desconhecidos e ferozes contendores!

No próprio ambiente de trabalho onde se labuta para a conquista do pão honesto de cada dia, a aceitação de uma palavra mal colocada desencadeia um mecanismo descontrolado que passa a ser comandado por um sentimento de irritação que poderia ser abortado se não houvesse a recepção do mesmo.

Até na Casa espírita ( pasmem!) a irritação consegue “adeptos”. Muitas vezes ela fica camuflada, fica subclínica, mas marcando presença nos sentimentos mais profundos.

O agressor, quando não consegue sintonia com aquele que deseja atingir, fica em seus sentimentos com o veneno que procurou em vão distribuir.

Um fogo sem a presença do oxigênio anula-se por si próprio. A irritação não alimentada acaba por se extinguir porque falta-lhe combustível.

Jesus que foi feito prisioneiro sem nenhum crime cometido, que recebeu chibatadas pelo corpo, que foi esbofeteado em pleno rosto, que teve sobre sua cabeça uma coroa de espinhos de roseira silvestre que crescia nos muros de Jerusalém, que foi submetido à escolha entre ele e um criminoso como Barrabás, que carregou um pesado madeiro até o alto do Gólgota e sofreu o suplício infamante da cruz, não teve nenhum momento de irritação para revidar de alguma maneira a nenhum dos seus agressores.

E como se não bastasse o seu silêncio diante de tantas agressões, seu lábios se entreabriram rogando ao Pai o perdão para todos nós que de alguma maneira continuamos a responder com ingratidão e indiferença ao seu convite para termos uma conduta condizente de sermos considerados como ovelhas do seu rebanho.

Somente assim conseguiremos a paz que buscamos nos outros sem a devida permissão para que ela nasça antes de mais nada dentro de nós mesmos!
  
    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita