Nossas idas e vindas na escola
terrestre
“Portanto, tudo quanto vos disserem, fazei e
observai; mas não façais de acordo com as suas
obras, pois dizem e não fazem.” (Mateus,
23:3)
Nesta passagem, encontramos a questão do ensino
e da prática. Se o ensino adverte e orienta,
descortinando novos horizontes à mente do
aprendiz — que somos todos nós —, somente a
prática é capaz de consolidar nossa
transformação na grande ascensão vibratória rumo
à perfeição.
As revelações sempre surgiram na Terra
provenientes das esferas mais evoluídas da Vida
Espiritual e também por meio de profetas,
filósofos e religiosos, em diversas culturas e
regiões do planeta.
Foi um grande equívoco julgar como bárbaros e
pagãos os povos que ainda não conheciam as
lições sublimes do Seu Evangelho de redenção,
porquanto Sua desvelada assistência sempre
acompanhou — como ainda acompanha — a evolução
das criaturas em todas as latitudes do Orbe.
Cada raça recebeu seus instrutores, que chegaram
trazendo as resplandecências de Sua Glória
Divina.
Todas elas, conhecendo intuitivamente a palavra
das profecias, arquivaram a história de Seus
enviados sob os moldes de Sua Vinda futura, em
virtude das lembranças latentes que guardavam no
coração acerca de Sua palavra nos espaços,
impregnada de esclarecimento e amor.
Os ensinos vão tomando formas e contornos
conforme as épocas e os interesses culturais em
vigor; contudo, por expressarem a Verdade
Divina, aprofundam-se no tempo e retornam à sua
beleza essencial, conforme Jesus nos demonstrou
ao viver a Lei de Amor do Pai.
Isso porque a Lei Divina está inscrita na
própria Lei da Natureza, e o homem pode
conhecê-la sempre que desejar buscá-la.
Exatamente por isso, seus princípios foram
proclamados, em todos os tempos, pelos homens de
bem, encontrando-se também seus elementos na
doutrina moral de todos os povos que já saíram
da barbárie — ainda que, por vezes, incompletos
ou alterados pela ignorância e pela superstição.
Examinemos diariamente nossa lavoura afetiva.
Observemos se estamos exigindo flores prematuras
ou frutos antecipados. Coloquemo-nos na posição
de planta em jardim alheio, reparando os
cuidados que ela exige e, dessa forma, não
desdenhemos resgatar nossas dívidas de amor para
com os outros.
Lembremo-nos do apóstolo Paulo, na Carta aos
Hebreus (6:1):
“Deixando os rudimentos da Doutrina de Jesus,
prossigamos até a perfeição, abstendo-nos de
repetir muitos arrependimentos, porque então não
passaremos de autores de obras mortas.”
O livre-arbítrio expressa o respeito do Criador
em relação a Seus filhos, mas é pelo seu uso
irrefletido que os seres se equivocam, gerando
malefícios para si e para seus semelhantes.
O determinismo divino constitui-se de uma única
Lei: a do Amor para a comunidade universal.
Todavia, confiando mais em si mesmo do que em
Deus, o homem transforma sua fragilidade em foco
de ações contrárias a essa Lei, efetuando, desse
modo, intervenção na harmonia divina. Eis o mal.
A mais alta aquisição íntima do ser é seu poder
de decisão, destacando-se de grupos afins com os
quais, em regime de comunhão compulsória e
inconsciente, exercitou a sobrevivência
elementar, desenvolvendo, assim, os alicerces de
sua projeção mental, passando a escolher e a
seguir o que lhe aprouver. Por isso, as
revelações sérias e bem fundamentadas em
exemplos e testemunhos constituem caminhos de
luz abertos a todos.
“Esqueçamos todas as expressões inferiores do
dia de ontem e avancemos para os dias iluminados
que nos esperam.”
Eis a essência do aviso fraternal de Paulo à
comunidade de Filipos (3:13–14).
Se Moisés abriu a era da consciência desperta
para os homens, inaugurando, com a divulgação
das Tábuas da Lei, a fase de expiação e provas
da Terra em sentido universal, aqueles que se
apoderaram de sua competência e de seu dom nem
sempre corresponderam, pois ambicionavam o poder
e a respeitabilidade do grande legislador.
Indiscutivelmente, a atualidade reclama ensinos
edificantes, mas nada compreenderá sem
demonstrações práticas. Desde a Antiguidade,
considera a sabedoria que a realização mais
difícil do homem encarnado é viver e morrer fiel
ao supremo bem.
O Espiritismo oferece os meios de comprovação,
indicando os caracteres pelos quais se
reconhecem os bons Espíritos, que se revelam
sempre pela moral e jamais por manifestações
materiais. É no discernimento entre os bons e os
maus Espíritos que podem ser aplicadas as
palavras de Jesus:
“Reconhece-se a qualidade da árvore pelo fruto;
uma boa árvore não pode produzir maus frutos,
nem a árvore má produzir bons frutos.”
Quando a mensagem do Evangelho, à luz da
Revelação Espírita, adentrar os corações
humanos, o jogo das vaidades e das ambições
indignas não mais encontrará almas
desprevenidas, pois a simplicidade do Mestre, em
Espírito e Verdade, fará triunfar o sentimento
verdadeiro da fé em sua legítima expressão de
fraternidade.
O Espiritismo tornar-se-á crença comum e marcará
nova era na História da Humanidade. Contudo,
haverá grandes lutas a sustentar, mais contra os
interesses do que contra a convicção.
As ideias modificam-se pouco a pouco, e serão
necessárias gerações para que os traços dos
velhos hábitos se apaguem completamente. Cada
coisa a seu tempo.
Somos todos chamados, pela bênção do Cristo, a
fazer luz no mundo das consciências, começando
por nós mesmos. Dissipemos as trevas do
materialismo ante a Verdade, não pelo espírito
de força, mas pela força do Espírito a
expressar-se em serviço, fraternidade,
entendimento e educação.
Em tudo o que sentirmos, pensarmos, falarmos ou
fizermos, doemos aos outros o melhor de nós
mesmos, reconhecendo que as árvores são
valorizadas pelos próprios frutos. Cada árvore
recebe — e receberá invariavelmente — atenção e
auxílio do pomicultor conforme os frutos que
venha a produzir.
Bibliografia:
KARDEC, Allan. O Evangelho
Segundo o Espiritismo. Editora IDE, 365ª
ed., Araras/SP, 2009. Cap. 21, item 7.
KARDEC, Allan. O Livro dos
Espíritos. Editora FEESP, 16ª ed., São
Paulo/SP, 2015. Questões 626, 798, 800 e 801.
XAVIER, Cândido Francisco (pelo
Espírito Emmanuel). A Caminho da Luz.
Editora FEB, 38ª ed., Brasília/DF. Cap. 9 — “A
Gênese das Religiões”.