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por Martha Triandafelides Capelotto

 

Da fábula à realidade


Desde os mais remotos tempos, a criatura humana ouviu histórias sobre a intervenção de fadas — apresentadas como gênios tutelares —, sobre palácios ocultos e florestas encantadas. Alimentou-se a crença de que seria possível alcançar, por meio da magia, um mundo de facilidades e alegrias infinitas. Ainda hoje, muitos corações se apegam ao sonho, aguardam heroísmos fáceis e preferem o menor esforço.

Todavia, quando o narrador ajusta suas palavras ao imperativo da Lei de Evolução e passa a fixá-las nas realidades educativas, as mentes ainda imaturas se retraem, contrariadas e aturdidas, sem compreender que a vida — antes idealizada como cenário de facilidades — revela-se, na verdade, vasto campo de trabalho e responsabilidade. Mesmo quando tentam afastar-se dessa realidade, as criaturas são alcançadas pelas leis imutáveis da existência, que gradualmente lhes descortinam as verdades eternas, sem estrépitos, como se a Providência respeitasse a fragilidade das almas ainda presas à ilusão.

Assim, Espíritos sábios e benevolentes renovam as antigas narrativas, ampliando-lhes o sentido e revelando a autêntica visão espiritual, de modo a alargar o horizonte das esperanças humanas.

Com o surgimento da Doutrina dos Espíritos, em 1857, e, posteriormente, com a publicação das obras de André Luiz, psicografadas pelo respeitável médium Francisco Cândido Xavier — o estimado Chico —, revelações de grande relevância chegaram à Humanidade, esclarecendo a realidade espiritual, sobretudo no que se refere à vida futura. Não mais fadas ou gênios benfazejos realizando por nós as tarefas necessárias, mas cada um construindo o próprio destino por meio de seus atos. Não mais céus ociosos nem infernos eternos, mas trabalho e aprendizado incessantes.

A morte física não representa o fim; é apenas mudança de capítulo no livro da evolução e do aperfeiçoamento. Um vasto campo de serviço aguarda os trabalhadores da verdade e do bem. Desafios significativos convocam Espíritos valorosos, encarnados na época presente com a nobre missão de colaborar na preparação de uma nova era, restaurando a fé viva e ampliando o entendimento humano. É necessário resgatar a Religião, muitas vezes confinada a formalismos, e preservar a Ciência de seu uso destrutivo.

Ao Espiritismo cristão cabe, no mundo atual, tarefa grandiosa e sublime. Não basta defini-lo como Consolador da Humanidade; cumpre-lhe também revelar-se como movimento libertador de consciências e corações.

A espiritualidade renovadora percorre o mundo, regenerando-lhe as fontes morais e despertando o ser humano para a realidade de suas próprias conquistas. Novos chamamentos alcançam o homem descrente, apontando-lhe horizontes mais amplos e demonstrando que o Espírito subsiste acima das civilizações transitórias e das guerras sanguinolentas.

Para a realização de tarefas superiores, unem-se encarnados e desencarnados de boa vontade, erguendo uma ponte de luz por meio da qual a Humanidade poderá transpor o abismo da ignorância e da morte. O homem é espírito que habita temporariamente o corpo físico. O perispírito não constitui vaga neblina, mas organização viva que modela as células materiais. A alma, onde quer que esteja, colhe segundo as próprias obras. Laços de amor ou de ódio acompanham-nos em qualquer esfera da existência. A reencarnação é orientada por elevados mentores espirituais. Além do sepulcro, a alma prossegue lutando, aprendendo, aperfeiçoando-se e servindo aos desígnios divinos, avançando continuamente rumo à glória imortal a que o Pai nos destinou.

Recordemos que a revelação da Verdade é sempre progressiva. Se ainda hesitamos em aceitá-la, roguemos ao Criador que nos ilumine e esclareça, a fim de que possamos acompanhar, com consciência e responsabilidade, o progresso da Humanidade.
 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita