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por Eder Andrade

 

Dificuldade de transformação


“Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.”
(Romanos 7:19)


A passagem acima descreve a luta íntima do apóstolo Paulo contra o pecado. Ele reconhece a dificuldade de realizar o bem que deseja, ao mesmo tempo que se vê repetidamente praticando o mal que não quer. O versículo expressa, com profundidade, o conflito entre o ideal moral e os arrastamentos inferiores ainda persistentes no espírito humano.

Todos nós, espíritos em processo de transformação moral, atravessamos grandes desafios nesta encarnação e somos constantemente testados no cotidiano.

Allan Kardec oferece reflexão significativa sobre o amadurecimento moral do espírito encarnado ao considerar o momento histórico e espiritual da revelação cristã:


Se o Cristo não disse tudo quanto poderia dizer, é que julgou conveniente deixar certas verdades na sombra, até que os homens chegassem ao estado de compreendê-las. Como Ele próprio o confessou, seu ensino era incompleto, pois anunciava a vinda daquele que o completaria; previra, pois, que suas palavras não seriam bem interpretadas e que os homens se desviariam do seu ensino; em suma, que desfariam o que Ele fez, uma vez que todas as coisas hão de ser restabelecidas; ora, só se restabelece aquilo que foi desfeito.¹


O conhecimento da verdade é proporcional à nossa evolução intelectual e espiritual. As revelações divinas manifestam-se quando estamos aptos a assimilá-las e a suportar-lhes o conteúdo. A verdade nos libertará à medida que evoluirmos e adquirirmos capacidade de vivenciá-la na prática do bem.

Segundo o mentor Gúbio, no livro Ação e Reação, o simples ato de encarnar e desencarnar não promove, por si só, a evolução do espírito. Essa transformação ocorre por meio das experiências adquiridas ao longo das reencarnações.²

O espírito reencarnado, no convívio com o semelhante, pode educar-se e capacitar-se para enfrentar os desafios da vida material, dando testemunho real da própria aprendizagem. Não basta desejar evoluir; é indispensável empreender esforço contínuo de modificação íntima. Essa regra aplica-se a todos nós.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec orienta:


Reconhece-se o verdadeiro espírita por sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar suas más tendências.³


Conhecer a verdade é etapa importante; vivenciá-la no dia a dia constitui desafio muito maior. Trata-se de esforço pessoal para superar tendências e inclinações inferiores — tarefa de grandes proporções para muitos encarnados.

André Luiz relata, no livro Os Mensageiros, que diversos espíritos, embora bem preparados para reencarnar, fracassaram em suas experiências, reunindo-se posteriormente em assembleia de médiuns que não obtiveram êxito. Entre os relatos, destaca-se o caso de Joel:


Assistentes amigos desdobraram-se em obséquios para me favorecer, e parti para a Terra com todos os requisitos indispensáveis ao êxito de minhas obrigações. Infelizmente, porém... — Mas por que — indaguei — perdeu as realizações? Tão só em virtude da sensibilidade adquirida?

Joel sorriu e obtemperou: — Não perdi pela sensibilidade, mas pelo seu mau uso.⁴


Assim como Joel, muitos médiuns sucumbiram à vaidade, ao orgulho e à prepotência. Podemos aprender com os erros alheios; contudo, é indispensável cultivar resiliência, perseverança e humildade.

O planeta Terra encontra-se envolto em psicosfera densa, na qual energias deletérias acentuam tendências materialistas e arrastamentos de ordem moral.

Emmanuel, com sua habitual sabedoria, convida-nos à capacitação espiritual por meio da leitura edificante e esclarece que, em um mundo de provas e expiações, é natural enfrentar assédios e dificuldades ao longo da jornada:


Não passarás, assim, no mundo, sem tempestades e nevoeiros, sem o fel das provas ásperas ou sem o assédio das tentações.

Buscando o bem, jornadearás, como é justo, entre pedras e abismos, pântanos e espinheiros.

Todavia, recomendou-nos o Mestre: “não se turbe o vosso coração”, porque o coração puro e intrépido é garantia de consciência limpa e reta, e quem dispõe de consciência limpa e reta vence toda perturbação e toda treva, por trazer em si mesmo a luz irradiante para o caminho.⁵


Independentemente da crença religiosa, aqueles que buscam o amadurecimento moral e a própria iluminação interior procuram adotar filosofias de vida que consideram esclarecedoras para o aprimoramento pessoal.

As dificuldades do apóstolo Paulo refletem os conflitos do homem contemporâneo. Do mesmo modo, as experiências de Joel e de muitos médiuns que fracassaram representam situações em que espíritos cederam aos próprios arrastamentos e más inclinações. Todos temos fraquezas e pontos vulneráveis que precisam ser vigiados com oração e vigilância.

Como afirma Emmanuel em Palavras de Vida Eterna: “Não passarás, assim, no mundo sem tempestades e nevoeiros”. A jornada não será fácil. Exigirá de cada um de nós renúncia, resignação, resiliência e humildade — provas proporcionais ao compromisso moral assumido por cada espírito.


Referências:

¹ Kardec, Allan. A Gênese (1868); Cap. I, item 26 – Caráter da Revelação Espírita. FEB.

² Xavier, Francisco Cândido. Ação e Reação (1957); Cap. 2 – Comentários do Instrutor. FEB.

³ Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864); Cap. XVII – Sede Perfeitos, item 4 – Os Bons Espíritas. FEB.

⁴ Xavier, Francisco Cândido. Os Mensageiros (1944); Cap. 10 – A experiência de Joel. FEB.

⁵ Xavier, Francisco Cândido. Palavras de Vida Eterna (1964); Cap. 36 – Coração Puro. FEB.


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita