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por Maria de Lurdes Duarte

 

Poderá a ciência “matar” Deus?


Alguns cientistas e pensadores argumentam que a ciência pode explicar os fenômenos naturais sem a necessidade de uma divindade. Que, quando conseguirmos compreender com mais clareza, sob efeito da evolução científica, compreenderemos que tudo no Universo se rege por leis que funcionam sem a necessidade da intervenção de um Deus. E que, então, a Humanidade perceberá o equívoco em que andou no passado e, amadurecida pelo conhecimento, não mais carecerá de ideias religiosas.

Também algumas pessoas do senso comum, ouvimos refletir desse modo, em conversas de circunstância, convencidas de que são autónomas e autossuficientes, exclusivos senhores da sua vida e da sua vontade, sem precisarem das “amarras” a que se prendem os “fracos de espírito”, pois assim consideram todos aqueles que acreditam em algo fora da matéria.

Será? Pois, pelo que me parece, em verdadeiro equívoco lavra quem assim pensa. Uma questão, desde já, se nos pode apresentar: É verdade que tudo no Universo se rege por leis que laboram com precisão, sem precisar de intervenção externa. E porquê? Quem foi/é o autor dessas leis? Fizeram-se sozinhas? De onde lhes vem tal precisão?

A própria ciência nos afirma que não há efeito sem causa. Não terão essas leis, também elas, que ter uma causa? Uma causa inteligente, que lhes possa ter imprimido perfeição, equilíbrio, harmonia, precisão? Não podemos tomar o efeito pela causa, seria um pressuposto completamente anticientífico. Posto isto, a ciência ficará sempre sem ir ao fundo das questões, na busca das causas para as leis que vai descobrindo, pela observação ou pela dedução, se não sair das amarras da matéria e não for mais além, sem preconceitos, nem ideias preconcebidas que excluem tudo o que sai do imediatismo.

Para que a ciência dê esse passo tão necessário, será imprescindível que a humanidade saia do egocentrismo em que se colocou. Por enquanto, continua a ser com dificuldade que aceita não ser o centro do Universo, e que existe alguma coisa/algo acima de si mesmo e dos seus interesses mesquinhos. Mas, dias virão em que o relacionamento entre ciência e religião será aberto e livre de conflitos.

No Espiritismo, encontramos essa visão de complementaridade entre esses dois níveis de conhecimento, ciência e espiritualidade. Em toda a Codificação encontramos Kardec a defender a ideia de que a ciência pode ajudar-nos a entender melhor a complexidade do Universo, e que a Espiritualidade pode fornecer-nos uma perspetiva mais profunda sobre a vida e o Universo.

Em O Livro dos Espíritos vamos encontrar pontos-chave que muito ajudam a esta nossa reflexão:


- A ciência é vista como uma forma de compreender a ordem e a harmonia do universo.

- As leis naturais são consideradas a expressão da vontade Divina.

- A ciência e a fé são apresentadas como complementares, e não como opostas.

O Livro dos Espíritos aborda temas científicos como a evolução, a reencarnação e a natureza dos Espíritos.


A ciência, na visão espírita, acaba por ser uma ferramenta valiosa para melhor entender as leis que regem o Universo, leis essas que mais não são que a expressão da vontade de Deus.

Neste contexto de ideias, não poderá, jamais, essa mesma ciência “matar” a ideia de Deus. Pelo contrário, reforça-a, revitaliza-a, torna-a mais robusta, vivifica-a, libertando-a dos dogmatismos e dos mistérios em que no passado esteve envolvida, para a colocar na posição de Fé raciocinada, validada pela razão, pelo conhecimento.

Mas continuemos com a análise da presença da ciência na Codificação, com a abordagem feita por Kardec. No Evangelho Segundo o Espiritismo, a Fé é apresentada como a confiança na existência de Deus e na imortalidade da alma. Não será a ciência, afinal, ao dar a conhecer as leis que presidiram à formação do Universo e ao proporcionar uma maior compreensão sobre a natureza dos seres e das coisas, um contributo para a certeza de que tem de haver algo maior, a Causa Primária, Inteligência Suprema, por trás de tudo, Causa/Inteligência essa a que chamamos Deus?

Por isso, Kardec defende que a ciência e a Fé devem caminhar juntas, pois a ciência pode ajudar a entender a complexidade do Universo, enquanto a Fé fornece a base espiritual para a vida. No Evangelho Segundo o Espiritismo, são abordados temas como a caridade, o perdão, o fazer aos outros o que desejamos que nos seja feito, a responsabilidade individual, e muitos outros. Na abordagem a esses conceitos, o Espiritismo sai da exclusividade do sentido moral em si mesmo, para analisar os efeitos das consequências dos atos no próprio indivíduo que os pratica, subordinando-os a leis precisas e harmoniosas. Leis Naturais, que nada têm de mágico ou sobrenatural.

Na época de Kardec, estas ideias surgiram como inusitadas, um tanto à frente das cogitações dos cientistas, que se ocupavam com outros interesses. No entanto, mais de um século passado, hoje é a própria ciência convencional que nos vem alertar para a influência que até os nossos pensamentos têm na saúde física e psicológica. E é também essa mesma ciência que reconhece a saúde como um conjunto psicossomático que incluiu o bem-estar espiritual ao lado do físico e que reconhece também a importância da crença religiosa como contributo para o bem-estar e a felicidade.

O Céu e o Inferno, pela voz e o testemunho dos próprios Espíritos vem reforçar a existência de uma vida futura, em que a Lei de Causa e Efeito atua, por forma a reajustar o Ser e o preparar para o seguimento do caminho evolutivo. Mas, nesse aspeto do reconhecimento de vida para além da matéria, pensamos que a ciência convencional tem ainda um longo caminho a percorrer. Mas, quando for capaz de lançar o olhar fora dos convencionalismos materiais, verá, certamente, em si mesma um crescimento exponencial.

Resta-nos refletir sobre o papel da Génese como contributo para que o Espiritismo seja considerado uma Doutrina de tríplice aspeto: ciência, filosofia e religião. Podemos considerar que a Génese é toda ela ciência. Na sua base, está a busca das causas, temática que preenche sobremaneira as cogitações religiosas e filosóficas da Humanidade e que é tão do âmbito da ciência: Como? Porquê? Quando? De que modo? Por quem? Tudo isso podemos encontrar em A Génese. A ciência e a fé, que muitas vezes são vistas como campos separados, nessa obra, mais uma vez, são apresentadas por Kardec como saberes que se complementam.

Nesta obra, de uma forma muito especial, Kardec, pela ação e inspiração dos Espíritos que o auxiliaram na Codificação (nomeadamente pelo Espírito Galileu) leva-nos a perceber que a ciência, ao invés de dispensar a necessidade de Deus, pode nos levar a uma compreensão mais profunda da Criação e da ordem do Universo. Pelo estudo e pela reflexão profunda no conteúdo que esta última obra da Codificação nos traz, facilmente se depreende que as leis naturais são a expressão da vontade divina, e que a ciência é uma forma de entender essa "linguagem" de Deus.

Retomemos a pergunta que serviu de título a esta humilde reflexão: Poderá a ciência “matar” Deus?

Não tenhamos receio de expandir os nossos conhecimentos. Disse Jesus: Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará (João 8:32). Creio que este aviso do Mestre se poderá encaixar sem esforço nesta ideia de que pela evolução da ciência apenas uma coisa poderá acontecer: uma cada vez maior admiração pela grandeza de Deus e pelos atributos que os espíritas lhe reconhecem: Perfeição, Bondade, Sabedoria, Misericórdia, tudo em grau Supremo. Deus, Eterno, Imutável, Imaterial, Único, Omnipotente, Soberanamente Justo e Bom é a Causa Primária de todas as coisas.

Quando a ciência terrena chegar a essa conclusão, só terá a ganhar, porque o conhecimento é infinito e muito haverá sempre a aprender e a descobrir. Pela eternidade.


Maria de Lurdes Duarte reside em Alvarenga, Arouca, Portugal.
 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita