Poderá a ciência “matar” Deus?
Alguns cientistas e pensadores argumentam que a ciência
pode explicar os fenômenos naturais sem a necessidade de
uma divindade. Que, quando conseguirmos compreender com
mais clareza, sob efeito da evolução científica,
compreenderemos que tudo no Universo se rege por leis
que funcionam sem a necessidade da intervenção de um
Deus. E que, então, a Humanidade perceberá o equívoco em
que andou no passado e, amadurecida pelo conhecimento,
não mais carecerá de ideias religiosas.
Também algumas pessoas do senso comum, ouvimos refletir
desse modo, em conversas de circunstância, convencidas
de que são autónomas e autossuficientes, exclusivos
senhores da sua vida e da sua vontade, sem precisarem
das “amarras” a que se prendem os “fracos de espírito”,
pois assim consideram todos aqueles que acreditam em
algo fora da matéria.
Será? Pois, pelo que me parece, em verdadeiro equívoco
lavra quem assim pensa. Uma questão, desde já, se nos
pode apresentar: É verdade que tudo no Universo se rege
por leis que laboram com precisão, sem precisar de
intervenção externa. E porquê? Quem foi/é o autor dessas
leis? Fizeram-se sozinhas? De onde lhes vem tal
precisão?
A própria ciência nos afirma que não há efeito sem
causa. Não terão essas leis, também elas, que ter uma
causa? Uma causa inteligente, que lhes possa ter
imprimido perfeição, equilíbrio, harmonia, precisão? Não
podemos tomar o efeito pela causa, seria um pressuposto
completamente anticientífico. Posto isto, a ciência
ficará sempre sem ir ao fundo das questões, na busca das
causas para as leis que vai descobrindo, pela observação
ou pela dedução, se não sair das amarras da matéria e
não for mais além, sem preconceitos, nem ideias
preconcebidas que excluem tudo o que sai do imediatismo.
Para que a ciência dê esse passo tão necessário, será
imprescindível que a humanidade saia do egocentrismo em
que se colocou. Por enquanto, continua a ser com
dificuldade que aceita não ser o centro do Universo, e
que existe alguma coisa/algo acima de si mesmo e dos
seus interesses mesquinhos. Mas, dias virão em que o
relacionamento entre ciência e religião será aberto e
livre de conflitos.
No Espiritismo, encontramos essa visão de
complementaridade entre esses dois níveis de
conhecimento, ciência e espiritualidade. Em toda a
Codificação encontramos Kardec a defender a ideia de que
a ciência pode ajudar-nos a entender melhor a
complexidade do Universo, e que a Espiritualidade pode
fornecer-nos uma perspetiva mais profunda sobre a vida e
o Universo.
Em O Livro dos Espíritos vamos encontrar
pontos-chave que muito ajudam a esta nossa reflexão:
- A ciência é vista como uma forma de compreender a
ordem e a harmonia do universo.
- As leis naturais são consideradas a expressão da
vontade Divina.
- A ciência e a fé são apresentadas como complementares,
e não como opostas.
- O Livro dos Espíritos aborda temas científicos
como a evolução, a reencarnação e a natureza dos
Espíritos.
A ciência, na visão espírita, acaba por ser uma
ferramenta valiosa para melhor entender as leis que
regem o Universo, leis essas que mais não são que a
expressão da vontade de Deus.
Neste contexto de ideias, não poderá, jamais, essa mesma
ciência “matar” a ideia de Deus. Pelo contrário,
reforça-a, revitaliza-a, torna-a mais robusta,
vivifica-a, libertando-a dos dogmatismos e dos mistérios
em que no passado esteve envolvida, para a colocar na
posição de Fé raciocinada, validada pela razão, pelo
conhecimento.
Mas continuemos com a análise da presença da ciência na
Codificação, com a abordagem feita por Kardec. No
Evangelho Segundo o Espiritismo, a Fé é apresentada como
a confiança na existência de Deus e na imortalidade da
alma. Não será a ciência, afinal, ao dar a conhecer as
leis que presidiram à formação do Universo e ao
proporcionar uma maior compreensão sobre a natureza dos
seres e das coisas, um contributo para a certeza de que
tem de haver algo maior, a Causa Primária, Inteligência
Suprema, por trás de tudo, Causa/Inteligência essa a que
chamamos Deus?
Por isso, Kardec defende que a ciência e a Fé devem
caminhar juntas, pois a ciência pode ajudar a entender a
complexidade do Universo, enquanto a Fé fornece a base
espiritual para a vida. No Evangelho Segundo o
Espiritismo, são abordados temas como a caridade, o
perdão, o fazer aos outros o que desejamos que nos seja
feito, a responsabilidade individual, e muitos outros.
Na abordagem a esses conceitos, o Espiritismo sai da
exclusividade do sentido moral em si mesmo, para
analisar os efeitos das consequências dos atos no
próprio indivíduo que os pratica, subordinando-os a leis
precisas e harmoniosas. Leis Naturais, que nada têm de
mágico ou sobrenatural.
Na época de Kardec, estas ideias surgiram como
inusitadas, um tanto à frente das cogitações dos
cientistas, que se ocupavam com outros interesses. No
entanto, mais de um século passado, hoje é a própria
ciência convencional que nos vem alertar para a
influência que até os nossos pensamentos têm na saúde
física e psicológica. E é também essa mesma ciência que
reconhece a saúde como um conjunto psicossomático que
incluiu o bem-estar espiritual ao lado do físico e que
reconhece também a importância da crença religiosa como
contributo para o bem-estar e a felicidade.
O Céu e o Inferno,
pela voz e o testemunho dos próprios Espíritos vem
reforçar a existência de uma vida futura, em que a Lei
de Causa e Efeito atua, por forma a reajustar o Ser e o
preparar para o seguimento do caminho evolutivo. Mas,
nesse aspeto do reconhecimento de vida para além da
matéria, pensamos que a ciência convencional tem ainda
um longo caminho a percorrer. Mas, quando for capaz de
lançar o olhar fora dos convencionalismos materiais,
verá, certamente, em si mesma um crescimento
exponencial.
Resta-nos refletir sobre o papel da Génese como
contributo para que o Espiritismo seja considerado uma
Doutrina de tríplice aspeto: ciência, filosofia e
religião. Podemos considerar que a Génese é toda
ela ciência. Na sua base, está a busca das causas,
temática que preenche sobremaneira as cogitações
religiosas e filosóficas da Humanidade e que é tão do
âmbito da ciência: Como? Porquê? Quando? De que modo?
Por quem? Tudo isso podemos encontrar em A Génese.
A ciência e a fé, que muitas vezes são vistas como
campos separados, nessa obra, mais uma vez, são
apresentadas por Kardec como saberes que se
complementam.
Nesta obra, de uma forma muito especial, Kardec, pela
ação e inspiração dos Espíritos que o auxiliaram na
Codificação (nomeadamente pelo Espírito Galileu)
leva-nos a perceber que a ciência, ao invés de dispensar
a necessidade de Deus, pode nos levar a uma compreensão
mais profunda da Criação e da ordem do Universo. Pelo
estudo e pela reflexão profunda no conteúdo que esta
última obra da Codificação nos traz, facilmente se
depreende que as leis naturais são a expressão da
vontade divina, e que a ciência é uma forma de entender
essa "linguagem" de Deus.
Retomemos a pergunta que serviu de título a esta humilde
reflexão: Poderá a ciência “matar” Deus?
Não tenhamos receio de expandir os nossos conhecimentos.
Disse Jesus: Conhecereis a verdade e a verdade vos
libertará (João 8:32). Creio que este aviso do Mestre se
poderá encaixar sem esforço nesta ideia de que pela
evolução da ciência apenas uma coisa poderá acontecer:
uma cada vez maior admiração pela grandeza de Deus e
pelos atributos que os espíritas lhe reconhecem:
Perfeição, Bondade, Sabedoria, Misericórdia, tudo em
grau Supremo. Deus, Eterno, Imutável, Imaterial, Único,
Omnipotente, Soberanamente Justo e Bom é a Causa
Primária de todas as coisas.
Quando a ciência terrena chegar a essa conclusão, só
terá a ganhar, porque o conhecimento é infinito e muito
haverá sempre a aprender e a descobrir. Pela eternidade.
Maria de
Lurdes Duarte reside em Alvarenga, Arouca, Portugal.
|