Entrevista

por Orson Peter Carrara

Rica experiência espírita pessoal na qual o exemplo dos pais foi marcante


Natural de Junqueirópolis e residente há mais de duas décadas em Dracena, ambos municípios do interior paulista, Divaldo Luiz Fante (foto) é comerciante no ramo de máquinas CNC e vincula-se ao Centro Espírita Irmã Carlota, em Dracena, atuando como vice-presidente da instituição. Espírita desde a infância, colheu nos exemplos dos pais a semeadura que frutificou em trabalho nobre na atualidade, com segurança e muito discernimento. Além da experiência vivida na infância, consolidada na maturidade, Divaldo mantém também um programa semanal de divulgação espírita, de grande repercussão.


Pelo seu nome, podemos deduzir que é espírita de infância, em homenagem de seu pai ao conhecido tribuno espírita. É isso mesmo?

Sim, exatamente! Meu pai era grande admirador de Divaldo Franco e, quando nasci, achou que seria uma bela homenagem ter um filho com o nome dele. Desde pequeno já carregava o “peso” e a bênção de ser chamado Divaldo em um ambiente espírita. Acabei crescendo dentro da Doutrina, e hoje carrego o nome com muito orgulho e responsabilidade. Meu irmão recebeu o nome de Cairbar.

Dessa vivência espírita desde a infância, qual recordação — especialmente quando criança, na convivência com os pais — mais lhe ressalta na memória?

O que mais me marca é meu pai me levando para ajudar na campanha do quilo aos sábados de manhã. Eu era pequeno, mal alcançava a mesa, mas ele me colocava em cima de uma cadeira para que eu pudesse separar as latas de óleo e os pacotes de arroz. Enquanto separávamos, ele me contava histórias de Chico Xavier, de André Luiz, de Eurípedes Barsanulfo… Eu nem entendia tudo, mas ficava encantado. Acho que aprendi ali, na prática, que Espiritismo não é só palestra e passe: é mão na massa e carinho com quem precisa.

E agora, adulto e maduro, o que se sobressai dessa influência que vem desde a infância?

Hoje, o que mais se destaca é que o Espiritismo me deu um norte moral que nenhuma circunstância conseguiu dobrar. Desde pequeno eu via meus pais praticarem o “fazer o bem sem olhar a quem”: levavam comida ao vizinho que estava doente, perdoavam ofensas graves sem guardar mágoa, nunca falavam mal de ninguém dentro de casa. Aquilo entrou tão fundo que, mesmo nas fases em que duvidei de muita coisa, nunca consegui ser desonesto, vingativo ou indiferente ao sofrimento alheio. A Doutrina me deu a teoria, mas meus pais me deram o exemplo vivo. E exemplo não se discute: apenas se repete.

Como estudioso e palestrante espírita, o que gostaria de destacar aos leitores?

Hoje eu destacaria a urgência do perdão e da fraternidade prática. Estamos numa transição planetária que não aceita mais meias palavras: ou aprendemos a amar quem pensa diferente de nós, ou sofreremos todos juntos. O Espiritismo não veio para criar mais uma religião de templos bonitos e discursos vazios. Veio para ensinar que cada criatura que cruza o nosso caminho é oportunidade de resgate ou de missão. Portanto, menos crítica nas redes sociais e mais sopa quente levada ao vizinho; menos debate teológico e mais abraço em quem chora. Esse é o Espiritismo que o mundo precisa ver agora.

Fale-nos da TV Moral Espírita e do programa semanal Vinha de Luz, em Dracena.

A “TV Moral Espírita” é o meu modesto tributo semanal às lições que moldaram minha vida. Todo sábado, às 9h, no Facebook e no YouTube, conversamos sobre moral espírita aplicada ao cotidiano, com um pouco de música e oração para encerrar. É como uma fogueirinha acesa na era digital. Dracena e Junqueirópolis foram berços do Espiritismo no Oeste Paulista, e Divaldo Franco iluminou aquela terra muitas vezes. Foi isso que me inspirou a manter viva a “TV Moral Espírita”, divulgando os trabalhos espíritas de 14 centros espíritas da região. Jesus vive em nós, e precisamos espalhar isso toda semana. Para encontrar esses conteúdos ou acompanhar ao vivo, acesse o canal no YouTube TV Moral Espírita.

Dessa experiência com o programa Vinha de Luz, algo marcante para relatar?

O mais marcante, sem dúvida, é perceber que o programa acontece muito mais “do lado de lá” do que aqui. Várias vezes chegamos ao sábado cansados, com a cabeça cheia de problemas, e pensamos: “Hoje não vai render”. Mas, assim que ligamos as câmeras e fazemos a prece inicial, sentimos literalmente uma energia diferente entrar no ambiente. A fala flui, os exemplos vêm, as palavras parecem não ser nossas. Depois, dezenas de pessoas escrevem: “Você falou exatamente o que eu precisava ouvir hoje”. Isso me confirmou o que Divaldo Franco sempre diz: quando nos colocamos como instrumento, mesmo imperfeitos, os amigos espirituais assumem o comando. O “Vinha de Luz” é prova viva disso, todo sábado.

Fale-nos da atividade espírita de sua família e em sua cidade.

Costumo dizer que nasci dentro de um centro espírita (risos). Meu pai, também oriundo de família espírita, faleceu em 1973, aos 60 anos; minha mãe, igualmente já desencarnada, ambos foram trabalhadores da primeira hora do Centro Espírita Fé, Amor e Caridade, na cidade de Junqueirópolis. Meu pai era um homem cheio de virtudes. Sou da época em que as manifestações obsessivas agressivas eram muito comuns; nas décadas de 1960 e 1970 era frequente aparecerem, em casa, pessoas amarradas sobre carrocerias de caminhão, trator ou carrinhos de tração animal, irmãos totalmente dominados por espíritos perturbados, em busca da ajuda de meu pai, Antônio Fante. Ele pedia que desamarrassem o obsediado e o levava para dentro, a um quarto da casa. Ali se passavam vários minutos, até que saíam os dois conversando e rindo.

Hoje tentamos seguir o caminho do Espiritismo: eu, com palestras; minha esposa, Célia, promovendo grupos de estudo no Centro Espírita Irmã Carlota, em Dracena; meus dois filhos, Luís Antônio, frequentador em Presidente Prudente, e Simone, que segue no Centro Espírita Allan Kardec, em Dracena — todos engajados nos estudos da Doutrina.

Envolvido com a divulgação espírita, como sente a repercussão das ideias espíritas junto ao grande público?

Sinto que o Espiritismo, enfim, está sendo descoberto pelo grande público exatamente como Kardec sonhou: como uma doutrina de bom senso, consolo e lógica. Hoje as pessoas chegam cansadas de dogmas, assustadas com o vazio existencial e procurando respostas que não humilhem a inteligência nem o coração. Quando encontram o Espiritismo, a frase mais comum que ouço é: “Eu sempre pensei assim, só não sabia que isso tinha nome.”

A repercussão é enorme e crescente: milhares assistem toda semana, mensagens chegam de todos os continentes, e o perfil de quem procura mudou — muitos jovens, muitos profissionais de saúde mental, muitos que nunca entraram em um centro, mas que agora fazem do estudo espírita o seu porto seguro. O melhor de tudo é que estão entendendo que Espiritismo não é apenas saber que a vida continua; é descobrir que a vida continua para que a gente melhore. E, quando essa ficha cai, a pessoa não quer mais sair. Sinto, com muita gratidão, que a semente de 1857 finalmente virou floresta e está apenas começando a crescer.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Sim… só uma coisinha, de coração para coração: se você que está lendo isto ainda não deu o primeiro passo, dê hoje. Não precisa entrar em um centro espírita amanhã (embora seja muito bem-vindo). Comece em casa mesmo: pegue um livro do Evangelho, leia um trecho em voz alta, faça uma prece simples agradecendo pelo dia, peça luz para quem você ama e também para quem ainda não consegue amar.

Suas palavras finais.

Que nunca nos esqueçamos disto: o Espiritismo não veio para nos fazer donos da verdade, mas para nos tornar servos do amor. Enquanto houver uma lágrima para enxugar, uma dor para consolar, uma mão que ninguém queira segurar, ainda haverá muito Espiritismo para ser vivido — e muito pouco tempo para ficar apenas falando dele.

Que falemos menos e amemos mais. Que julguemos menos e compreendamos mais. Que rezemos menos com palavras e mais com atitudes. Porque, no fim das contas, o mundo precisa muito menos de espíritas que saibam explicar a reencarnação e muito mais de espíritas que saibam viver o Cristo no dia a dia.

Que Jesus continue nos encontrando no caminho, não apenas nos livros que lemos, mas principalmente nas pessoas que acolhemos.

Um abraço imenso, cheio de luz e gratidão, em nome d’Ele. Fiquem com Deus.



 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita