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por Ricardo Baesso de Oliveira

 

Caridade segundo Kardec


O vocábulo ágape é visto 116 vezes no original grego do Novo Testamento. Tem sido traduzido como amor, mas um tipo particular de amor — universal e incondicional. A Vulgata traduziu a palavra ágape por caritas (caro, nobre), e caritas chegou até nós como caridade.

Kardec teve o cuidado de examinar atentamente o conceito de caridade em vários momentos de sua obra. Talvez o texto mais revelador do seu pensamento seja o item 893 de O Livro dos Espíritos:

A pergunta é formulada assim:

Qual a mais meritória de todas as virtudes?

A resposta:

Todas as virtudes têm seu mérito, porque todas são sinais de progresso no caminho do bem. Há virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento dos maus pendores. Mas a sublimidade da virtude consiste no sacrifício do interesse pessoal pelo bem do próximo, sem segundas intenções. A mais meritória é a que se baseia na mais desinteressada caridade.

O grifo é nosso e mostra que Kardec define a caridade por meio de três fundamentos:

1 – Sacrifício do interesse pessoal

O ato caridoso implica, obrigatoriamente, algo de perda, de abnegação, renúncia e sacrifício. Perda material (ajuda em dinheiro ou algo semelhante) ou perda espiritual (tempo, atenção etc.).

2 – Bem do próximo

Trata-se do fundamento da utilidade, segundo o princípio de que ser bom é ser útil. Apenas os atos que trazem benefício a outras pessoas, interferindo positivamente em seu bem-estar, podem ser considerados caridade.

3 – Sem segundas intenções

A caridade legítima deve ser acompanhada do espírito de gratuidade. Se nossa ação, mesmo sendo benéfica para outros, é movida por algum tipo de interesse (retorno material, prestígio ou merecimento espiritual), o sentido da caridade se desfaz.

Diante do exposto, podemos estabelecer diferenças entre simplesmente fazer o bem e ser efetivamente caridoso.

Grandes proprietários rurais eram muito “bons” para com seus empregados. Levavam-nos ao médico quando enfermos, compravam-lhes o remédio ou coisas equivalentes; no entanto, os empregados viviam em regime de escravidão, trabalhando de sol a sol, sem folga semanal, férias etc. Pode-se considerar como caridade o bem que eventualmente faziam? Obviamente, não!

Um vereador que monta uma clínica de fisioterapia no bairro para atender gratuitamente os moradores faz uma coisa boa, mas pode ser considerado caridoso? Não, pois seu interesse é granjear votos no próximo pleito.

Um adolescente que vai visitar idosos em uma casa de repouso, obrigado pelos pais, demonstra um comportamento pró-social, mas não pode ser considerado como caridade, pois é movido pelo espírito de subordinação aos pais.

Recordo-me de uma paciente antiga que me disse, certa vez:

— Dr. Ricardo, rezo muito pelo senhor... para que tenha uma vida longa e possa cuidar da gente!

Baseado no conceito kardequiano, retruquei prontamente:

— Mas, dona fulana, a senhora não está rezando por mim... está rezando pela senhora mesma!
 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita