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por Anselmo Ferreira Vasconcelos

 

Quando a violência é inevitável


A população brasileira assistiu aturdida, no final de outubro passado, às dantescas cenas de corpos sem vida perfilados, cobertos de maneira improvisada, em uma das áreas mais pobres do Rio de Janeiro. No geral, eles correspondiam a um saldo macabro de 117 criminosos abatidos numa megaoperação policial implementada nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da “cidade maravilhosa”, na qual mais quatro policiais também sucumbiram, perfazendo, assim, 121 mortos na sangrenta batalha urbana.

Como sói acontecer em tais ocasiões, as opiniões emitidas expressavam desde total apoio à iniciativa – incluindo aplausos pelo resultado obtido – até total repúdio, indignação e críticas acerbas, principalmente de certos setores político-partidários de esquerda ou a eles simpatizantes. Independentemente do alinhamento político que se tenha, o fato é que não se pode perder de vista – quando há um mínimo de lógica e bom senso – que chegamos a um ponto vital para o país nesse particular. No Brasil, aliás, impera a mais ampla influência das facções criminosas da América Latina, o que nos deprecia perante o mundo. Não é sem razão que a violência é a principal preocupação dos cidadãos, conforme apontam as pesquisas, apesar de posições estapafúrdias, como a do mais alto dignitário da República, que considera os traficantes como “vítimas dos usuários”.

A gravidade do quadro implica a necessidade de um embate direto contra as organizações criminosas – altamente aparelhadas, influentes e poderosas – ou de se render, de uma vez por todas, ao seu maligno domínio que, a propósito, se expande cada vez mais (só no Rio de Janeiro cerca de 60% das comunidades estão sob ferrenho controle delas e cerca de 19% em todo o país, sem falar de suas ramificações internacionais).

No mesmo lamentável diapasão, vale ressaltar que já faz muito tempo que não podemos caminhar relaxados e despreocupados nas grandes cidades brasileiras – tamanha a violência que nelas vigora. As estatísticas, por sua vez, não mentem quanto ao alto grau de insegurança que atinge os cidadãos. De fato, não nos é mais permitido sequer ostentar uma aliança na mão, pois nem isso os criminosos poupam às vítimas.

As fracas leis brasileiras, por sua vez, além de não protegerem os cidadãos, prejudicam o arriscado trabalho policial (que fica limitado a “enxugar gelo”, como eles mesmos definem) e são eminentemente complacentes com os delinquentes, à medida que lhes facultam rápida libertação por meio das “audiências de custódia”. Aliás, esses indivíduos transgressores da lei são, ilogicamente, beneficiados mesmo quando são portadores de uma extensa folha corrida de delitos e crimes. Não bastasse tal aberração legal, temos ainda o crime organizado, que assumiu proporções alarmantes em todo o território nacional.

O episódio do Rio de Janeiro descortinou, ainda que muito superficialmente, o poder de fogo dessas quadrilhas e sua real disposição. As organizações criminosas, como o Comando Vermelho – com maior evidência naquele estado –, demonstram determinação inabalável em controlar certas áreas geográficas com mão de ferro e impiedosa conduta. Infelizmente, conseguem arregimentar centenas de jovens e adolescentes em suas operações que, por meio do seu livre-arbítrio, preferem seguir a profissão de bandidos a optar por uma vida digna de trabalho e estudo. Como pondera o Espírito Emmanuel, em Palavras de Emmanuel (psicografia de Francisco Cândido Xavier): “Aflições, dificuldades e lutas são forças que compelem à dilatação de poder, ao alargamento do caminho” (ênfase minha).

Mas esses jovens, seduzidos pela vida criminosa, preferem o dinheiro fácil e um falso status pelo qual, aliás, apreciam exibir-se, portando armamento letal que nem as Forças Armadas possuem. Por conseguinte, acabam fatalmente tendo uma vida curta e sem glória, além do agravamento de sua condição espiritual, que, por sinal, não demonstram o menor interesse em melhorar.

Desse modo, cumpre enfatizar que o Espiritismo, no papel de Cristianismo Redivivo, não advoga o uso da violência, mas também não aceita a prática do mal como estilo de vida. Disponibiliza, ao contrário, instrumentos saudáveis às criaturas para que enfrentem as suas agruras com humildade, esforço e trabalho, sempre pautados por conduta ética e princípios elevados. E, nessa ampla visão, não há espaço, em qualquer hipótese, para a defesa de atividades que prejudiquem os nossos semelhantes.

Vender drogas e praticar crimes são meios de subsistência moralmente precários. Os indivíduos (Espíritos) que optam por tão escabroso caminho não parecem estar ainda propensos à realização de qualquer transformação interior. Ao que tudo indica, o ideal do mal está neles profundamente cristalizado e, como tal, não estão aptos nem desejam viver harmoniosamente em sociedade. Como observa o Espírito Emmanuel, também na obra acima citada: “A grande luta não reside no combate com o sangue e a carne, propriamente, mas sim com as nossas disposições espirituais inferiores”.

Quando as coisas chegam a tal ponto de degradação moral e social como o que atualmente vemos, a polícia tem a missão constitucional de intervir para que não sejam, afinal, destruídos os pilares da vida em sociedade. Quando isso ocorre, o bem e o mal forçosamente se enfrentam e, nesta dimensão em que vivemos, a violência torna-se inevitável para que a ordem seja restabelecida, bem como o ideal de civilização seja preservado.

Por fim, tenham em mente os executores da lei que se excedem em seus atos ou se omitem em seu dever, como bem assevera o Espírito Joanna de Ângelis, no livro Vidas Vazias, que “... as Divinas Leis aguardam aqueles que as defraudam para aplicar os corretivos severos que se fazem necessários” (ênfase minha).


 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita