Diálogo de nascituros
Entre os temas que atravessam os séculos como perguntas
que jamais envelhecem, a inquietação humana diante do
desconhecido ocupa lugar central. O que existe além do
que vemos? O que nos espera depois da travessia que
tanto tememos? A literatura, a filosofia e a
espiritualidade sempre buscaram responder a essas
indagações, ora com a lógica dos pensadores, ora com a
sensibilidade dos poetas. Quando a reflexão se veste de
simplicidade, ganha força ainda maior — porque fala
diretamente ao coração, sem perder a profundidade.
O poema que segue adota uma metáfora engenhosa e terna:
dois nascituros dialogam no ventre materno sobre a
possibilidade de “vida após o parto”. A partir dessa
imagem singela — quase infantil à primeira vista —
desdobra-se uma reflexão madura sobre fé, ceticismo,
esperança e transcendência. O leitor perceberá, nas
entrelinhas, que a discussão dos pequenos irmãos remete
a uma questão muito maior, que diz respeito a todos nós.
É nessa delicada combinação de humor, lirismo e
filosofia que o texto encontra sua força e convida à
leitura atenta.
Vamos ao poema.
Há vida após o parto?
No ventre da mamãe, um nascituro
Provoca o outro acerca do futuro:
— Você acredita, mano, cem por cento,
Que existe vida após o nascimento?
— É claro que se vive após o parto:
Há noutro mundo um espaçoso quarto...
— Bobagem! Está certo quem duvida!
Como seria essa suposta vida?
— Não sei como seria exatamente,
Talvez exista mais luz ambiente...
Com nossos próprios pés caminharemos,
Com nossas bocas é que comeremos...
— Isso é absurdo! Não se pode andar!
Comer com nossas bocas? Nem pensar!
Ser livre após o útero é irreal:
É muito curto o laço umbilical!
— Deve haver algo depois, certamente,
Alguma coisa talvez diferente...
— Ninguém voltou após o nascimento
Para provar o nebuloso evento!
O parto é o fecho, o fim, a despedida
Desta existência escura e comprimida!
— Olhe, eu não sei o que virá após,
Mas a mamãe há de cuidar de nós.
— Mamãe? Onde ela está? Que será isso?!
Você acredita nesse ser postiço?
— Onde ela está? Em toda a nossa volta!
É nossa vida e nossa boa escolta!
Ela nos ama e nutre, dia a dia...
Sem ela nada disto existiria!
— Não acredito! Quem a viu, irmão?
Mãe só existe na imaginação!
— Bem, mas às vezes, durante um soninho,
Eu posso ouvi-la cantando baixinho,
Como se assim, com suave emoção,
Bisbilhotasse o nosso coração
Para saber se nós estamos bem
E transmitir-nos seu amor também...
Então eu sinto o quanto a vida é bela
E que este ninho é só o prelúdio dela...
E assim prosseguem, dialogando nus,
Os dois pimpolhos muito bem nutridos,
Até que sejam, por entre vagidos,
Dados um dia por mamãe à luz...
Nota do autor: Poema
inspirado na página “O cético e o lúcido”, de autor
desconhecido, colhida na internet.
Mário Frigéri é poeta,
escritor, autor e youtuber, com a mente e o coração
voltados para o esplendor do Evangelho e da Doutrina
Espírita. Campinas-SP.
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