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por Mário Frigéri

 

Diálogo de nascituros

Entre os temas que atravessam os séculos como perguntas que jamais envelhecem, a inquietação humana diante do desconhecido ocupa lugar central. O que existe além do que vemos? O que nos espera depois da travessia que tanto tememos? A literatura, a filosofia e a espiritualidade sempre buscaram responder a essas indagações, ora com a lógica dos pensadores, ora com a sensibilidade dos poetas. Quando a reflexão se veste de simplicidade, ganha força ainda maior — porque fala diretamente ao coração, sem perder a profundidade.

O poema que segue adota uma metáfora engenhosa e terna: dois nascituros dialogam no ventre materno sobre a possibilidade de “vida após o parto”. A partir dessa imagem singela — quase infantil à primeira vista — desdobra-se uma reflexão madura sobre fé, ceticismo, esperança e transcendência. O leitor perceberá, nas entrelinhas, que a discussão dos pequenos irmãos remete a uma questão muito maior, que diz respeito a todos nós. É nessa delicada combinação de humor, lirismo e filosofia que o texto encontra sua força e convida à leitura atenta.

Vamos ao poema.

 

Há vida após o parto?

No ventre da mamãe, um nascituro
Provoca o outro acerca do futuro:

— Você acredita, mano, cem por cento,
Que existe vida após o nascimento?

— É claro que se vive após o parto:
Há noutro mundo um espaçoso quarto...

— Bobagem! Está certo quem duvida!
Como seria essa suposta vida?

— Não sei como seria exatamente,
Talvez exista mais luz ambiente...

Com nossos próprios pés caminharemos,
Com nossas bocas é que comeremos...

— Isso é absurdo! Não se pode andar!
Comer com nossas bocas? Nem pensar!

Ser livre após o útero é irreal:
É muito curto o laço umbilical!

— Deve haver algo depois, certamente,
Alguma coisa talvez diferente...

— Ninguém voltou após o nascimento
Para provar o nebuloso evento!

O parto é o fecho, o fim, a despedida
Desta existência escura e comprimida!

— Olhe, eu não sei o que virá após,
Mas a mamãe há de cuidar de nós.

— Mamãe? Onde ela está? Que será isso?!
Você acredita nesse ser postiço?

— Onde ela está? Em toda a nossa volta!
É nossa vida e nossa boa escolta!

Ela nos ama e nutre, dia a dia...
Sem ela nada disto existiria!

— Não acredito! Quem a viu, irmão?
Mãe só existe na imaginação!

— Bem, mas às vezes, durante um soninho,
Eu posso ouvi-la cantando baixinho,

Como se assim, com suave emoção,
Bisbilhotasse o nosso coração

Para saber se nós estamos bem
E transmitir-nos seu amor também...

Então eu sinto o quanto a vida é bela
E que este ninho é só o prelúdio dela...

E assim prosseguem, dialogando nus,
Os dois pimpolhos muito bem nutridos,

Até que sejam, por entre vagidos,
Dados um dia por mamãe à luz...

 

Nota do autor: Poema inspirado na página “O cético e o lúcido”, de autor desconhecido, colhida na internet.

 

Mário Frigéri é poeta, escritor, autor e youtuber, com a mente e o coração voltados para o esplendor do Evangelho e da Doutrina Espírita. Campinas-SP.


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita