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Elucidações importantes sobre a vivência
do evangelho
No livro Ave, Cristo!, autoria de Emmanuel
através da mediunidade de Chico Xavier, encontramos
expressivo diálogo entre os personagens Irmão Corvino e
Quinto Varro, ambos cristãos, que podemos ler na íntegra
no capítulo 2 da primeira parte, do qual vamos extrair
para nossa edificação espiritual algumas falas de
Corvino que, diante da narrativa de sofrimentos em sua
vida particular, feita por Varro, ele indagou:
“Varro, aceitaste o Evangelho para que Jesus se
transforme em teu servidor ou para que te convertas em
servidor de Jesus?”
Corvino é um ancião, pessoa mais idosa e calejada nas
lides evangélicas sob perseguição do Império Romano nos
primeiros tempos do Cristianismo, motivo pelo qual, como
se fosse um pai preocupado com o filho, lança a pergunta
de profundo significado. Varro ainda é jovem, embora
casado e com um filho e, pego de surpresa, suspira e
informa que seu desejo é “o ingresso nas fileiras dos
escravos do Senhor”. Diante dessa resposta, Corvino
arremata:
“Então, meu filho, cogitemos dos desígnios do Cristo
e olvidemos nossos desejos.”
Devemos confessar que muitas vezes nos situamos na
multidão dos pedintes de Jesus, querendo submetê-lo aos
nossos desejos, aos nossos caprichos, ao nosso querer.
Desejamos, em ardentes pedidos, que ele nos cure, que
ele nos livre do mal, que ele nos favoreça nisso ou
naquilo, que ele nos proteja, enfim, estamos sempre
pedindo, solicitando, esquecidos que Jesus é o Cristo,
ou seja, o enviado de Deus para nos descortinar a lei de
amor, motivo pelo qual ele é o Messias. É justamente
diante dos desafios existenciais que temos de provar
nossa adesão a Jesus, ou seja, nossa fidelidade ao
Evangelho, com a prática dos seus ensinos morais, mesmo
arrastando dor e sofrimento, pois devem prevalecer “os
desígnios do Cristo”, e não o que desejamos.
Como na sequência, Varro questionasse como extinguir o
mal sem combatê-lo, sem tecer armas contra o mesmo,
insinuando que devêssemos utilizar mesmo da palavra
contra quem nos faz o mal, Corvino elucida:
“Acreditas, porém, que possamos vencê-lo (o mal) à
força de palavras bem feitas? Admites, porventura, que o
Mestre haja descido das Alturas, simplesmente para
falar? Jesus viveu as próprias lições, guerreando a
sombra com a luz que irradiava de si mesmo, até ao
derradeiro sacrifício. Achamo-nos num mundo envolvido em
trevas e não possuímos outras tochas para clareá-lo,
senão a nossa alma, que precisamos inflamar no
verdadeiro amor. O Evangelho não é somente uma
propaganda de ideias libertadoras. Acima de tudo, é a
construção dum mundo novo pela edificação moral do novo
homem.”
As palavras de Corvino são muito profundos e nos lançam
a graves reflexões. Não vamos renovar o mundo sem a
nossa renovação íntima. Não vamos convencer as pessoas
sobre as verdades do Evangelho, apenas falando,
argumentando, mas sim com o nosso exemplo de vivência
dos seus ensinos. Para isso precisamos cultivar o amor
ao próximo e praticar a caridade, como aprendemos com o
Espiritismo, que revive em espírito e verdade o
Evangelho.
Não são de palavras bonitas e inflamadas que precisamos,
mas sim da alma renovada sob as bênçãos dos ensinos
morais de Jesus, pois de discursos e livros estamos
repletos, desde os primeiros cristãos, carecendo,
entretanto, de verdadeiros discípulos, ou seja, daquelas
pessoas que em contato com a sublimidade da Boa Nova, se
deixam iluminar e passam a ser trabalhadores incansáveis
da vinha do Senhor, sem esmorecimento, respondendo ao
mal com o exemplo do bem para todos.
Encontramos então, na narrativa, esta frase bem
significativa de Corvino:
“O Cristianismo, para redimir as criaturas, exige uma
vanguarda de espíritos decididos a executar-lhe o plano
de ação.”
Será que estamos nessa vanguarda? Será que estamos
decididos a colocar em ação, em nossa vida, os preceitos
cristãos? Ou ainda estamos acomodados às circunstâncias
e ao nosso querer egoísta? Temos visto muitas pessoas se
dizerem adeptas do Espiritismo, mas acomodando os
ensinos da doutrina ao seu querer, ao seu pensamento, e
quando fazem isso, igualmente acomodam a si o Evangelho,
adaptando-o a interpretações que até mesmo validam
procedimentos que não são cristãos, o que é uma
aberração, tudo para justificar porque ainda não
realizaram sua transformação moral.
Como o jovem Quinto Varro ainda persistisse no
questionamento, envolvido em dúvidas diante do seu
sofrimento de ordem familiar, Corvino, depois de longa
pausa, elucida:
“Não te submetas ao frio do desengano, anulando os
próprio recursos. A dor pode ser comparada a volumosa
corrente de um rio, suscetível de conduzir-nos à
felicidade na terra firme, ou de afogar-nos, quando não
sabemos sobrenadar. Ouve-nos. O Evangelho não é apenas
um trilho de acesso ao júbilo celestial, depois da
morte. É uma luz para a nossa existência neste mundo
mesmo, que devemos transformar em Reino de Deus.”
Temos nessa fala magnífico roteiro de conduta cristã
diante dos acontecimentos da vida. Mesmo momentaneamente
abalados, pegos mesmo de surpresa, devemos respirar com
profundidade, acalmar-nos e continuar a proceder como
quem abraçou doutrina imorredoura, que é a luz do nosso
caminhar terreno, contrapondo-nos a qualquer
desequilíbrio, na confiança irrestrita em Jesus, que
nunca nos abandona, mas espera que nos mantenhamos fiéis
a ele, na vivência do Evangelho em todas as situações.
Não é o fato de dizermos abraçar o Evangelho que já
estaremos em rota de nossa salvação, rumo ao paraíso
celeste. O que atesta de nós são as obras, que, de fato,
medem o nosso merecimento. Quanto mais amor ao próximo,
mais perto estaremos da perfeição; quanto menos amor ao
próximo, mais perto estaremos do início da jornada
evolutiva.
Nesse momento da história, Corvino encerra suas
ponderações com uma fala que devemos guardar no coração:
“Jesus não falava simplesmente ao homem que passa,
mas, acima de tudo, ao espírito imperecível. Em certo
passo dos seus sublimes ensinamentos, adverte: “melhor
será entrares na vida aleijado que, tendo duas mãos, te
aproveitares delas para a descida às regiões
inferiores”. Refere-se o Cristo ao mundo, como escola em
que procuramos o nosso próprio burilamento. Cada qual de
nós vem à Terra, com os problemas de que necessita. A
provação é remédio salutar. A dificuldade é degrau na
grande subida.”
Como aprendemos com o Espiritismo, o acaso não existe,
tudo tem sua razão de ser, pois se assim não fosse, Deus
não seria justo, e ele é a justiça perfeita. Assim, cada
um traz sua bagagem pretérita e as provas e expiações
pelas quais deve passar, sempre com o objetivo de
reparar o passado e construir um novo futuro, visando o
aperfeiçoamento que nos levará ao estado de pureza
espiritual a que somos destinados pela bondade divina,
por isso a visão que o planeta Terra é uma escola para o
espírito imortal.
Finalizamos estas reflexões sobre a vivência do
Evangelho com as últimas palavras de Corvino
direcionadas a Quinto Varro, que, em verdade, também se
nos direcionam, tal a sua importância:
“O homem luta e padece para aprender a reaprender,
aperfeiçoando-se cada vez mais. A Terra não é o único
teatro da vida. Não disse o próprio Senhor – a quem
pretendemos servir – que “existem muitas moradas na Casa
de Nosso Pai”? O trabalho é a escada luminosa para
outras esferas, onde nos reencontraremos, como pássaros
que, depois de se perderem uns dos outros, sob as
rajadas do inverno, se reagrupam de novo ao sol
abençoado da primavera.”
Nada se perde, tudo é lição aproveitável. Se, de fato,
desejamos ser servidores de Jesus, peguemos nossa cruz e
sigamos, na certeza que o amanhã, diante da nossa
perseverança na vivência do amor e do bem, nos sorrirá
com a felicidade e a paz de quem conquistou a si mesmo e
venceu o mundo, como o fez nosso Mestre e Senhor.
Marcus De Mario é escritor, educador,
palestrante; coordena o Seara de Luz, grupo on-line de
estudo espírita; edita o canal Orientação Espírita no
YouTube; é editor-chefe da Revista Educação Espírita;
produz e apresenta programas espíritas na internet;
possui 40 livros publicados.
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