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por Marcus De Mario

Elucidações importantes sobre a vivência do evangelho


No livro Ave, Cristo!, autoria de Emmanuel através da mediunidade de Chico Xavier, encontramos expressivo diálogo entre os personagens Irmão Corvino e Quinto Varro, ambos cristãos, que podemos ler na íntegra no capítulo 2 da primeira parte, do qual vamos extrair para nossa edificação espiritual algumas falas de Corvino que, diante da narrativa de sofrimentos em sua vida particular, feita por Varro, ele indagou:

Varro, aceitaste o Evangelho para que Jesus se transforme em teu servidor ou para que te convertas em servidor de Jesus?

Corvino é um ancião, pessoa mais idosa e calejada nas lides evangélicas sob perseguição do Império Romano nos primeiros tempos do Cristianismo, motivo pelo qual, como se fosse um pai preocupado com o filho, lança a pergunta de profundo significado. Varro ainda é jovem, embora casado e com um filho e, pego de surpresa, suspira e informa que seu desejo é “o ingresso nas fileiras dos escravos do Senhor”. Diante dessa resposta, Corvino arremata:

Então, meu filho, cogitemos dos desígnios do Cristo e olvidemos nossos desejos.

Devemos confessar que muitas vezes nos situamos na multidão dos pedintes de Jesus, querendo submetê-lo aos nossos desejos, aos nossos caprichos, ao nosso querer. Desejamos, em ardentes pedidos, que ele nos cure, que ele nos livre do mal, que ele nos favoreça nisso ou naquilo, que ele nos proteja, enfim, estamos sempre pedindo, solicitando, esquecidos que Jesus é o Cristo, ou seja, o enviado de Deus para nos descortinar a lei de amor, motivo pelo qual ele é o Messias. É justamente diante dos desafios existenciais que temos de provar nossa adesão a Jesus, ou seja, nossa fidelidade ao Evangelho, com a prática dos seus ensinos morais, mesmo arrastando dor e sofrimento, pois devem prevalecer “os desígnios do Cristo”, e não o que desejamos.

Como na sequência, Varro questionasse como extinguir o mal sem combatê-lo, sem tecer armas contra o mesmo, insinuando que devêssemos utilizar mesmo da palavra contra quem nos faz o mal, Corvino elucida:

Acreditas, porém, que possamos vencê-lo (o mal) à força de palavras bem feitas? Admites, porventura, que o Mestre haja descido das Alturas, simplesmente para falar? Jesus viveu as próprias lições, guerreando a sombra com a luz que irradiava de si mesmo, até ao derradeiro sacrifício. Achamo-nos num mundo envolvido em trevas e não possuímos outras tochas para clareá-lo, senão a nossa alma, que precisamos inflamar no verdadeiro amor. O Evangelho não é somente uma propaganda de ideias libertadoras. Acima de tudo, é a construção dum mundo novo pela edificação moral do novo homem.

As palavras de Corvino são muito profundos e nos lançam a graves reflexões. Não vamos renovar o mundo sem a nossa renovação íntima. Não vamos convencer as pessoas sobre as verdades do Evangelho, apenas falando, argumentando, mas sim com o nosso exemplo de vivência dos seus ensinos. Para isso precisamos cultivar o amor ao próximo e praticar a caridade, como aprendemos com o Espiritismo, que revive em espírito e verdade o Evangelho.

Não são de palavras bonitas e inflamadas que precisamos, mas sim da alma renovada sob as bênçãos dos ensinos morais de Jesus, pois de discursos e livros estamos repletos, desde os primeiros cristãos, carecendo, entretanto, de verdadeiros discípulos, ou seja, daquelas pessoas que em contato com a sublimidade da Boa Nova, se deixam iluminar e passam a ser trabalhadores incansáveis da vinha do Senhor, sem esmorecimento, respondendo ao mal com o exemplo do bem para todos.

Encontramos então, na narrativa, esta frase bem significativa de Corvino:

O Cristianismo, para redimir as criaturas, exige uma vanguarda de espíritos decididos a executar-lhe o plano de ação.

Será que estamos nessa vanguarda? Será que estamos decididos a colocar em ação, em nossa vida, os preceitos cristãos? Ou ainda estamos acomodados às circunstâncias e ao nosso querer egoísta? Temos visto muitas pessoas se dizerem adeptas do Espiritismo, mas acomodando os ensinos da doutrina ao seu querer, ao seu pensamento, e quando fazem isso, igualmente acomodam a si o Evangelho, adaptando-o a interpretações que até mesmo validam procedimentos que não são cristãos, o que é uma aberração, tudo para justificar porque ainda não realizaram sua transformação moral.

Como o jovem Quinto Varro ainda persistisse no questionamento, envolvido em dúvidas diante do seu sofrimento de ordem familiar, Corvino, depois de longa pausa, elucida:

Não te submetas ao frio do desengano, anulando os próprio recursos. A dor pode ser comparada a volumosa corrente de um rio, suscetível de conduzir-nos à felicidade na terra firme, ou de afogar-nos, quando não sabemos sobrenadar. Ouve-nos. O Evangelho não é apenas um trilho de acesso ao júbilo celestial, depois da morte. É uma luz para a nossa existência neste mundo mesmo, que devemos transformar em Reino de Deus.

Temos nessa fala magnífico roteiro de conduta cristã diante dos acontecimentos da vida. Mesmo momentaneamente abalados, pegos mesmo de surpresa, devemos respirar com profundidade, acalmar-nos e continuar a proceder como quem abraçou doutrina imorredoura, que é a luz do nosso caminhar terreno, contrapondo-nos a qualquer desequilíbrio, na confiança irrestrita em Jesus, que nunca nos abandona, mas espera que nos mantenhamos fiéis a ele, na vivência do Evangelho em todas as situações.

Não é o fato de dizermos abraçar o Evangelho que já estaremos em rota de nossa salvação, rumo ao paraíso celeste. O que atesta de nós são as obras, que, de fato, medem o nosso merecimento. Quanto mais amor ao próximo, mais perto estaremos da perfeição; quanto menos amor ao próximo, mais perto estaremos do início da jornada evolutiva.

Nesse momento da história, Corvino encerra suas ponderações com uma fala que devemos guardar no coração:

Jesus não falava simplesmente ao homem que passa, mas, acima de tudo, ao espírito imperecível. Em certo passo dos seus sublimes ensinamentos, adverte: “melhor será entrares na vida aleijado que, tendo duas mãos, te aproveitares delas para a descida às regiões inferiores”. Refere-se o Cristo ao mundo, como escola em que procuramos o nosso próprio burilamento. Cada qual de nós vem à Terra, com os problemas de que necessita. A provação é remédio salutar. A dificuldade é degrau na grande subida.

Como aprendemos com o Espiritismo, o acaso não existe, tudo tem sua razão de ser, pois se assim não fosse, Deus não seria justo, e ele é a justiça perfeita. Assim, cada um traz sua bagagem pretérita e as provas e expiações pelas quais deve passar, sempre com o objetivo de reparar o passado e construir um novo futuro, visando o aperfeiçoamento que nos levará ao estado de pureza espiritual a que somos destinados pela bondade divina, por isso a visão que o planeta Terra é uma escola para o espírito imortal.

Finalizamos estas reflexões sobre a vivência do Evangelho com as últimas palavras de  Corvino direcionadas a Quinto Varro, que, em verdade, também se nos direcionam, tal a sua importância:

O homem luta e padece para aprender a reaprender, aperfeiçoando-se cada vez mais. A Terra não é o único teatro da vida. Não disse o próprio Senhor – a quem pretendemos servir – que “existem muitas moradas na Casa de Nosso Pai”? O trabalho é a escada luminosa para outras esferas, onde nos reencontraremos, como pássaros que, depois de se perderem uns dos outros, sob as rajadas do inverno, se reagrupam de novo ao sol abençoado da primavera.

Nada se perde, tudo é lição aproveitável. Se, de fato, desejamos ser servidores de Jesus, peguemos nossa cruz e sigamos, na certeza que o amanhã, diante da nossa perseverança na vivência do amor e do bem, nos sorrirá com a felicidade e a paz de quem conquistou a si mesmo e venceu o mundo, como o fez nosso Mestre e Senhor.

 

Marcus De Mario é escritor, educador, palestrante; coordena o Seara de Luz, grupo on-line de estudo espírita; edita o canal Orientação Espírita no YouTube; é editor-chefe da Revista Educação Espírita; produz e apresenta programas espíritas na internet; possui 40 livros publicados.

 

 

     
     

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