A lição de Gandhi
“Meu Pai, eu tenho mágoas dessa pessoa. Ajude-me a
perdoar, a renunciar à raiva, a não desejar qualquer
tipo de punição, a ter um olhar diferente sobre ela. Que
eu veja não os seus erros, mas a luz divina que habita o
seu ser. E que essa experiência me seja oportunidade
para amar um pouco mais.” – Marianne Williamson, no
livro Contém Vida, editora InterVidas.
Gandhi, este Espírito de escol, é sabidamente conhecido
por suas lições de não violência que culminaram com a
libertação do povo da Índia do jugo do povo inglês, de
tal maneira que permitiu com essa conduta que a paz não
se ausentasse.
Uma passagem aparentemente muito simples desse Espírito
mensageiro da candura e da paz ocorreu quando uma mãe
foi pedir a ele que orientasse sua filha pequena a não
comer açúcar devido ao fato de a criança ser diabética.
Veja bem que utilizei a expressão “orientasse” e não o
verbo proibir. São atitudes tremendamente diferentes
essas duas posições. Aliás, essa atitude deveria ser a
de muitos pais diante de seus filhos, que são Espíritos
que retornaram a uma nova reencarnação para serem
orientados e não proibidos, em respeito ao
livre-arbítrio de cada um.
Gandhi, revelando mais um lance de sua enorme evolução
espiritual, pediu que a mãe trouxesse a sua filha depois
de um mês à sua presença.
Procedendo segundo essa recomendação, a mulher, aflita
porque a diabetes na infância é muito grave,
principalmente naquele tempo, sem os recursos médicos da
época atual, ouviu, sem entender, ele recomendar a filha
que não fizesse uso de açúcar.
Espantada, a mãe indagou por qual motivo ele a fez
esperar um mês para dar a orientação à sua filha diante
de uma doença tão grave!
Gandhi respondeu àquela mulher que havia um mês que ele
fazia uso desse adoçante natural e por isso não se
sentia no direito de recomendar à menina o que ele mesmo
não fazia.
Confesso que ao narrar esse episódio em uma Casa
espírita, para tecer um comentário à luz da Doutrina,
muitas pessoas ficaram a se perguntar o que tinha a
recomendação feita a uma criança diabética com os
ensinamentos da codificação espírita.
Talvez essa dúvida também esteja nas indagações de
muitos leitores. Então, é melhor esclarecer.
A primeira atitude que devemos observar é que ele
recomendou à criança que não deveria comer açúcar. Não a
proibiu, como se fosse o portador da verdade absoluta.
A segunda atitude louvável foi o comportamento de ter
assim procedido somente depois que ele fazia o mesmo.
Se ainda não fui claro, vou me expressar de outra forma:
que tal se em nosso relacionamento, principalmente
dentro de nosso lar, fizéssemos o mesmo? Como seria
salutar e de bom alvitre somente esperar daqueles a quem
a Providência Divina permitiu reunirmo-nos, nesta atual
existência, somente aquilo que já estivéssemos
preparados a oferecer. Se aguardássemos do outro como
costumamos fazer, somente as qualidades de que também
fôssemos possuidores! Já imaginaram o palácio de ternura
e paz que se implantaria no interior de nossas casas? E,
por extensão, no planeta Terra?
É sempre bom lembrar que o espírita convence a outra
pessoa sobre a sua filosofia religiosa na medida em que
age de acordo com os ensinamentos da Codificação. Não
adianta trazê-los de pronto na memória citando perguntas
e respostas d’ O Livro dos Espíritos se a conduta
do dia a dia não for condizente com a teoria. Memória
boa e conduta incompatível não convence a ninguém
daquilo em que dizemos acreditar.
Será que não é essa uma das razões por que ainda estamos
longe de um mundo de regeneração tão esperado e sonhado
pelos espíritas? Falamos e julgamos saber tanta coisa
sobre o planeta regenerado, mas não atentamos para o que
temos feito ou deixado de fazer em nosso íntimo para que
ele se concretize!
Somente devo esperar encontrar em minha esposa (não
estou nem utilizando o verbo exigir!) a qualidade de que
também sou detentor!
Tenho dose suficiente de paciência no relacionamento
familiar? Se não, preciso entender que o recíproco não
deve me decepcionar!
Tenho palavras de incentivo à companheira de jornada que
também possui suas limitações exatamente como possuo as
minhas? Se não, como esperar o que ainda não tenho
condições de proporcionar?
Sei manter as palavras sobre controle quando o ambiente
fica tenso em casa, muitas vezes por motivos pequenos?
Se não, falta-me o direito de esperar o mesmo.
Tenho tempo para os filhos que desejam trocar alguma
ideia sobre um problema em curso na vida deles? Se não
tenho, como vou justificar-me perante a consciência
quando tiver que prestar contas do que fizemos com esses
Espíritos entregues à nossa responsabilidade?
Como tenho me comportado no trânsito congestionado para
que eu possa esperar paciência nos outros motoristas?
Devoto respeito e consideração aos meus companheiros de
trabalho na lida do dia a dia? Tenho sido amigo deles ou
apenas considero-os como meros encontros no ganho do pão
de cada dia? O que tenho direito de esperar quando estou
com essas companhias?
Vejamos algumas orientações contidas na página do livro
em epígrafe de doutor José Carlos De Lucca, intitulada Mais
Humanos: “Para se conviver bem com os outros,
condição essencial da nossa felicidade, é preciso
reconhecer a vulnerabilidade típica da nossa humanidade,
tolerar as imperfeições alheias, perdoar a
inconsistência de cada um, desenvolver o espírito de
fraternidade, remédios que Jesus prescreveu em seu
Evangelho, e que representam medidas preventivas contra
nossos acessos de egocentrismo. A humildade acende a luz
da vitória.
O orgulho é franca derrota!
Para lidarmos bem com as pessoas, sejamos mais humanos!”
Primeiro aprender a sugerir exemplificando e atenuando o
nosso orgulho, esse obstáculo contra o qual estamos
(estaremos?) lutando há tantos milênios!
Depois exercitar a caridade como a entendia e praticava
Jesus: indulgência para com as imperfeições alheias na
mesma medida em que somos e ainda seremos necessitados
de encontrar nos corações que conosco caminham e
caminharão por tempo imprevisível essa mesma caridade.
Mesmo que não sejamos diabéticos, seria de boa conduta
assimilar a lição de Gandhi.