Artigos

por Ricardo Orestes Forni

 

A lição de Gandhi


“Meu Pai, eu tenho mágoas dessa pessoa. Ajude-me a perdoar, a renunciar à raiva, a não desejar qualquer tipo de punição, a ter um olhar diferente sobre ela. Que eu veja não os seus erros, mas a luz divina que habita o seu ser. E que essa experiência me seja oportunidade para amar um pouco mais.” – Marianne Williamson, no livro Contém Vida, editora InterVidas.


Gandhi, este Espírito de escol, é sabidamente conhecido por suas lições de não violência que culminaram com a libertação do povo da Índia do jugo do povo inglês, de tal maneira que permitiu com essa conduta que a paz não se ausentasse.

Uma passagem aparentemente muito simples desse Espírito mensageiro da candura e da paz ocorreu quando uma mãe foi pedir a ele que orientasse sua filha pequena a não comer açúcar devido ao fato de a criança ser diabética.

Veja bem que utilizei a expressão “orientasse” e não o verbo proibir. São atitudes tremendamente diferentes essas duas posições. Aliás, essa atitude deveria ser a de muitos pais diante de seus filhos, que são Espíritos que retornaram a uma nova reencarnação para serem orientados e não proibidos, em respeito ao livre-arbítrio de cada um.

Gandhi, revelando mais um lance de sua enorme evolução espiritual, pediu que a mãe trouxesse a sua filha depois de um mês à sua presença.

Procedendo segundo essa recomendação, a mulher, aflita porque a diabetes na infância é muito grave, principalmente naquele tempo, sem os recursos médicos da época atual, ouviu, sem entender, ele recomendar a filha que não fizesse uso de açúcar.

Espantada, a mãe indagou por qual motivo ele a fez esperar um mês para dar a orientação à sua filha diante de uma doença tão grave!

Gandhi respondeu àquela mulher que havia um mês que ele fazia uso desse adoçante natural e por isso não se sentia no direito de recomendar à menina o que ele mesmo não fazia.

Confesso que ao narrar esse episódio em uma Casa espírita, para tecer um comentário à luz da Doutrina, muitas pessoas ficaram a se perguntar o que tinha a recomendação feita a uma criança diabética com os ensinamentos da codificação espírita.

Talvez essa dúvida também esteja nas indagações de muitos leitores. Então, é melhor esclarecer.

A primeira atitude que devemos observar é que ele recomendou à criança que não deveria comer açúcar. Não a proibiu, como se fosse o portador da verdade absoluta.

A segunda atitude louvável foi o comportamento de ter assim procedido somente depois que ele fazia o mesmo.

Se ainda não fui claro, vou me expressar de outra forma: que tal se em nosso relacionamento, principalmente dentro de nosso lar, fizéssemos o mesmo? Como seria salutar e de bom alvitre somente esperar daqueles a quem a Providência Divina permitiu reunirmo-nos, nesta atual existência, somente aquilo que já estivéssemos preparados a oferecer. Se aguardássemos do outro como costumamos fazer, somente as qualidades de que também fôssemos possuidores! Já imaginaram o palácio de ternura e paz que se implantaria no interior de nossas casas? E, por extensão, no planeta Terra?

É sempre bom lembrar que o espírita convence a outra pessoa sobre a sua filosofia religiosa na medida em que age de acordo com os ensinamentos da Codificação. Não adianta trazê-los de pronto na memória citando perguntas e respostas d’ O Livro dos Espíritos se a conduta do dia a dia não for condizente com a teoria. Memória boa e conduta incompatível não convence a ninguém daquilo em que dizemos acreditar.

Será que não é essa uma das razões por que ainda estamos longe de um mundo de regeneração tão esperado e sonhado pelos espíritas? Falamos e julgamos saber tanta coisa sobre o planeta regenerado, mas não atentamos para o que temos feito ou deixado de fazer em nosso íntimo para que ele se concretize!

Somente devo esperar encontrar em minha esposa (não estou nem utilizando o verbo exigir!) a qualidade de que também sou detentor!

Tenho dose suficiente de paciência no relacionamento familiar? Se não, preciso entender que o recíproco não deve me decepcionar!

Tenho palavras de incentivo à companheira de jornada que também possui suas limitações exatamente como possuo as minhas? Se não, como esperar o que ainda não tenho condições de proporcionar?

Sei manter as palavras sobre controle quando o ambiente fica tenso em casa, muitas vezes por motivos pequenos? Se não, falta-me o direito de esperar o mesmo.

Tenho tempo para os filhos que desejam trocar alguma ideia sobre um problema em curso na vida deles? Se não tenho, como vou justificar-me perante a consciência quando tiver que prestar contas do que fizemos com esses Espíritos entregues à nossa responsabilidade?

Como tenho me comportado no trânsito congestionado para que eu possa esperar paciência nos outros motoristas?

Devoto respeito e consideração aos meus companheiros de trabalho na lida do dia a dia? Tenho sido amigo deles ou apenas considero-os como meros encontros no ganho do pão de cada dia? O que tenho direito de esperar quando estou com essas companhias?

Vejamos algumas orientações contidas na página do livro em epígrafe de doutor José Carlos De Lucca, intitulada Mais Humanos: “Para se conviver bem com os outros, condição essencial da nossa felicidade, é preciso reconhecer a vulnerabilidade típica da nossa humanidade, tolerar as imperfeições alheias, perdoar a inconsistência de cada um, desenvolver o espírito de fraternidade, remédios que Jesus prescreveu em seu Evangelho, e que representam medidas preventivas contra nossos acessos de egocentrismo. A humildade acende a luz da vitória.

O orgulho é franca derrota!

Para lidarmos bem com as pessoas, sejamos mais humanos!”

Primeiro aprender a sugerir exemplificando e atenuando o nosso orgulho, esse obstáculo contra o qual estamos (estaremos?) lutando há tantos milênios!

Depois exercitar a caridade como a entendia e praticava Jesus: indulgência para com as imperfeições alheias na mesma medida em que somos e ainda seremos necessitados de encontrar nos corações que conosco caminham e caminharão por tempo imprevisível essa mesma caridade.

Mesmo que não sejamos diabéticos, seria de boa conduta assimilar a lição de Gandhi.


  
    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita