Um olhar sobre A Génese
"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento;
instruí-vos, eis o segundo" é a máxima do Espírito da
Verdade em O Evangelho Segundo o Espiritismo (cap.
VI).
Esta máxima sobre a importância da instrução espírita é
um convite à busca contínua pelo conhecimento, essencial
para o desenvolvimento de uma fé raciocinada, que
liberta da ignorância e faz superar as ideias
preconcebidas. A instrução é colocada a par do amor,
porque só o crescimento em amor e sabedoria nos fará
atingir um equilíbrio pleno. Sem conhecimento, a fé mais
não seria do que crença cega em dogmas que pouco sentido
fariam ao ser que pretende evoluir e crescer em
espiritualidade. É pelo conhecimento que chegamos ao
entendimento e, muito importante, melhor compreendemos e
aceitamos Deus, ao vislumbrar, pelo uso da razão e do
raciocínio toda a Sua grandeza. Ou, pelo menos, toda a
grandeza que conseguimos abarcar na nossa pequenez, dado
que muito longe estamos, por enquanto, do
aperfeiçoamento que nos permitirá, um dia, inteligir o
que é Deus.
Para este crescimento em sabedoria, contribuindo para
uma fé esclarecida, os livros da codificação espírita,
de Allan Kardec, constituem um recurso de enorme
preciosidade. Há pouco menos de duzentos anos, têm feito
um incrível trabalho de iluminação, ao trazer à
Humanidade terrena um conjunto valioso, porque muito bem
sistematizado, de conhecimentos e reflexões que, se
estudados com método, permitem alcançar essa compreensão
maior das verdadeiras realidades da vida.
Tive a “sorte” de tomar conhecimento da Doutrina
Espírita na minha juventude, faz já bastante tempo, e de
me dedicar ao seu estudo, quer através dos livros
básicos, quer de outras obras complementares, que me têm
enriquecido de forma que seria muito difícil descrever
neste artigo. No entanto, tenho de confessar que,
durante todos estes anos, há uma obra de Kardec à qual
não dediquei a devida atenção, pois apenas a li, aquando
da minha iniciação, não me tendo, após isso, debruçado
verdadeiramente sobre ela: A Génese. Na
realidade, recorro a esta obra, quando busco
determinados conhecimentos específicos, mas tem-me
faltado o estudo sistematizado, metódico, por forma a
encadear os conhecimentos que, ao longo das suas
páginas, se vão sucedendo, e tirar conclusões mais
aprofundadas. Erro grave, tenho de reconhecer.
Procurando colmatar esta lacuna, lancei-me,
recentemente, ao estudo d'A Génese e aqui
estou eu embrenhada, mais do que na sua leitura, no seu
estudo. E é interessante como, passados estes anos, numa
idade completamente diferente, dou comigo a encontrar
pormenores que, até agora, me tinham passado
despercebidos, ou até menos relevantes, e a descobrir
nessa obra uma riqueza cada vez mais profunda e
imprescindível. É importante este ler e reler, porque,
em fases diferentes da nossa vida, conseguimos
diferentes olhares e entendimentos, e essa perspetiva é
verdadeiramente propícia ao nosso crescimento como seres
espirituais.
Daí ter decidido debruçar-me sobre esta obra que, quanto
mais me aprofundo nas suas páginas, mais me fascina.
Esta obra fundamental, quinta e última obra da
codificação espírita de Allan Kardec, lançada a 6 de
janeiro de 1868, é uma importante referência para quem
busca uma ponte entre fé e razão. Nela, Kardec enfatiza
a importância da razão, da investigação e da ética,
oferecendo-nos uma doutrina que une ciência, filosofia e
espiritualidade. É o tríplice aspeto da Doutrina:
científico, filosófico e religioso (moral). Constitui um
convite a uma reflexão profunda sobre a origem do cosmo,
a natureza humana e o caminho evolutivo da alma, baseada
nesse tríplice aspeto. A sua relevância e atualidade é
enorme, porque oferece uma perspetiva única e racional
sobre a Criação do Universo e a natureza e evolução dos
seres, esclarecendo as grandes interrogações que, de
forma atemporal, povoam a mente humana. Continua a ser,
como na sua origem, uma fonte de inspiração para aqueles
que buscam uma abordagem mais lógica e menos dogmática
da espiritualidade, do que aquela que as diversas
religiões nos têm servido e que já não se “encaixam” no
modelo de respostas que buscamos nos dias de hoje.
Para quem ainda não conhece A Génese, ou,
como eu, sente necessidade de lançar um novo olhar sobre
esta obra kardequiana, aqui fica uma ligeira resenha
sobre o que ali podemos encontrar. O seu título completo
é: A Génese, Os Milagres e as Predições Segundo o
Espiritismo. Está dividida em três partes
fundamentais: A Génese; Os Milagres; As Predições.
Na primeira parte, Kardec usa a ciência da época para
reinterpretar a narrativa bíblica, mostrando que a
criação é um processo contínuo regido por leis naturais
que refletem a vontade divina. Ele argumenta que matéria
e espírito interagem de forma harmoniosa, sem
necessidade de intervenções sobrenaturais arbitrárias.
A segunda parte trata da evolução espiritual. O espírito
nasce simples e ignorante, avançando moral e
intelectualmente ao longo de múltiplas encarnações. Cada
experiência terrena serve como etapa de aprendizado, e a
prática da moralidade – sobretudo o amor e a caridade –
é o motor desse progresso.
A terceira parte desmistifica os milagres. Kardec os vê
como fenômenos naturais ainda não compreendidos,
resultantes de leis superiores que a ciência ainda não
decifrou. Ele também aborda as predições, reforçando a
ideia de que o futuro não é fixo, mas depende da ação
consciente dos seres.
É interessante verificar que, apesar de A Génese constituir
um passo muito além na compreensão de verdades
fundamentais, à luz da revelação espiritual mas também à
luz da ciência, desmistificando conceitos errados como
sobrenatural, milagre, fé dogmática, e
outros nascidos da “ignorância humana”, em parte alguma
Kardec aponta o dedo ou estigmatiza qualquer fação
religiosa ou filosófica, deixando bem patente que tudo
tem sido revelado de acordo com o nosso grau de evolução
e consequente capacidade de entendimento. A propósito
deste assunto, não resisto a deixar aqui um pequeno
excerto transcrito do capítulo I (Caráter da revelação
espírita):
“8. Todas as religiões tiveram seus reveladores e estes,
embora longe estivessem de conhecer toda a verdade,
tinham uma razão de ser providencial, porque eram
apropriados ao tempo e ao meio em que viviam, ao caráter
particular dos povos a quem falavam e aos quais eram
relativamente superiores.
Apesar dos erros das suas doutrinas, não deixaram de
agitar os espíritos e, por isso mesmo, de semear os
germens do progresso, que, mais tarde haviam de
desenvolver-se ou se desenvolverão à luz do
Cristianismo”.
Kardec não só não lança anátema como releva o papel
fundamental que, apesar dos erros e inverdades de que
estiveram revestidos, tiveram para a evolução da
humanidade.
No mesmo capítulo, um pouco mais à frente, esclarece o
papel de revelador do Espiritismo, com todo o caráter de
revelação científica:
“12. O Espiritismo, dando-nos a conhecer o mundo
invisível que nos cerca e no meio do qual vivíamos sem o
suspeitarmos, assim como as leis que o regem, suas
relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos
seres que o habitam e, por conseguinte, o destino da
morte depois da morte, é uma verdadeira revelação, na
aceção científica da palavra.”
Nesta obra doutrinária, Kardec, passo a passo, vai
fazendo apelo às ciências experimentais, e aos
conhecimentos que a ciência, à época, já tinha revelado,
para ir demonstrando, com método e sabedoria, que aquilo
que era tido como milagroso, mágico, sobrenatural, não
era mais do que a aplicação das leis naturais, umas já
conhecidas, outras que a ciência haveria de descobrir,
fruto do trabalho árduo e da inspiração espiritual.
Leva-nos a perceber, de forma esclarecida e não
dogmática, que Deus jamais derrogaria as Suas Leis
porque são imutáveis e perfeitas desde a origem.
Sendo a perfeição, reconhecidamente, um dos atributos
divinos, é também perfeita
toda a Lei que saiu da Sua Sabedoria. Resta ao Homem
estudar, trabalhar, aperfeiçoar-se, crescer em Amor e
Sabedoria, para melhor entender as Leis de Deus e tudo
conhecer em função do equilíbrio, harmonia e ajuste a
essas Leis.
De notar, ainda, que do que posso entender por exemplo
da leitura do 1º excerto que transcrevi acima, mas
também da leitura de toda a obra, A Génese,
como tudo o que o Espiritismo nos faz chegar, não é e
nunca poderá ser a versão final da revelação divina.
Muito mais nos será revelado, noutros contextos e
aprendizagem, à medida que tivermos condições para
entender.
Por enquanto, o que podemos aconselhar é, reforçando o
conselho de Kardec, que estudemos sempre. A Génese pode
ser, e é com toda a certeza, uma das grandes fontes de
inspiração para encontrarmos respostas racionais que
façam crescer a nossa fé e nos ajudem a caminhar de
forma mais consciente pela senda do crescimento
espiritual.
N.R.: A
Génese é a forma com que em Portugal se diz e se
escreve A Gênese, de Allan Kardec.
Maria de Lurdes Duarte reside em Alvarenga, Arouca,
Portugal.
|