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por Maria de Lurdes Duarte

 

Um olhar sobre A Génese

"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo" é a máxima do Espírito da Verdade em O Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. VI).

Esta máxima sobre a importância da instrução espírita é um convite à busca contínua pelo conhecimento, essencial para o desenvolvimento de uma fé raciocinada, que liberta da ignorância e faz superar as ideias preconcebidas. A instrução é colocada a par do amor, porque só o crescimento em amor e sabedoria nos fará atingir um equilíbrio pleno. Sem conhecimento, a fé mais não seria do que crença cega em dogmas que pouco sentido fariam ao ser que pretende evoluir e crescer em espiritualidade. É pelo conhecimento que chegamos ao entendimento e, muito importante, melhor compreendemos e aceitamos Deus, ao vislumbrar, pelo uso da razão e do raciocínio toda a Sua grandeza. Ou, pelo menos, toda a grandeza que conseguimos abarcar na nossa pequenez, dado que muito longe estamos, por enquanto, do aperfeiçoamento que nos permitirá, um dia, inteligir o que é Deus.

Para este crescimento em sabedoria, contribuindo para uma fé esclarecida, os livros da codificação espírita, de Allan Kardec, constituem um recurso de enorme preciosidade. Há pouco menos de duzentos anos, têm feito um incrível trabalho de iluminação, ao trazer à Humanidade terrena um conjunto valioso, porque muito bem sistematizado, de conhecimentos e reflexões que, se estudados com método, permitem alcançar essa compreensão maior das verdadeiras realidades da vida.

Tive a “sorte” de tomar conhecimento da Doutrina Espírita na minha juventude, faz já bastante tempo, e de me dedicar ao seu estudo, quer através dos livros básicos, quer de outras obras complementares, que me têm enriquecido de forma que seria muito difícil descrever neste artigo. No entanto, tenho de confessar que, durante todos estes anos, há uma obra de Kardec à qual não dediquei a devida atenção, pois apenas a li, aquando da minha iniciação, não me tendo, após isso, debruçado verdadeiramente sobre ela: A Génese. Na realidade, recorro a esta obra, quando busco determinados conhecimentos específicos, mas tem-me faltado o estudo sistematizado, metódico, por forma a encadear os conhecimentos que, ao longo das suas páginas, se vão sucedendo, e tirar conclusões mais aprofundadas. Erro grave, tenho de reconhecer.

Procurando colmatar esta lacuna, lancei-me, recentemente, ao estudo d'A Génese e aqui estou eu embrenhada, mais do que na sua leitura, no seu estudo. E é interessante como, passados estes anos, numa idade completamente diferente, dou comigo a encontrar pormenores que, até agora, me tinham passado despercebidos, ou até menos relevantes, e a descobrir nessa obra uma riqueza cada vez mais profunda e imprescindível. É importante este ler e reler, porque, em fases diferentes da nossa vida, conseguimos diferentes olhares e entendimentos, e essa perspetiva é verdadeiramente propícia ao nosso crescimento como seres espirituais.

Daí ter decidido debruçar-me sobre esta obra que, quanto mais me aprofundo nas suas páginas, mais me fascina.

Esta obra fundamental, quinta e última obra da codificação espírita de Allan Kardec, lançada a 6 de janeiro de 1868, é uma importante referência para quem busca uma ponte entre fé e razão. Nela, Kardec enfatiza a importância da razão, da investigação e da ética, oferecendo-nos uma doutrina que une ciência, filosofia e espiritualidade. É o tríplice aspeto da Doutrina: científico, filosófico e religioso (moral). Constitui um convite a uma reflexão profunda sobre a origem do cosmo, a natureza humana e o caminho evolutivo da alma, baseada nesse tríplice aspeto. A sua relevância e atualidade é enorme, porque oferece uma perspetiva única e racional sobre a Criação do Universo e a natureza e evolução dos seres, esclarecendo as grandes interrogações que, de forma atemporal, povoam a mente humana. Continua a ser, como na sua origem, uma fonte de inspiração para aqueles que buscam uma abordagem mais lógica e menos dogmática da espiritualidade, do que aquela que as diversas religiões nos têm servido e que já não se “encaixam” no modelo de respostas que buscamos nos dias de hoje.

Para quem ainda não conhece A Génese, ou, como eu, sente necessidade de lançar um novo olhar sobre esta obra kardequiana, aqui fica uma ligeira resenha sobre o que ali podemos encontrar. O seu título completo é: A Génese, Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. Está dividida em três partes fundamentais: A Génese; Os Milagres; As Predições.

Na primeira parte, Kardec usa a ciência da época para reinterpretar a narrativa bíblica, mostrando que a criação é um processo contínuo regido por leis naturais que refletem a vontade divina. Ele argumenta que matéria e espírito interagem de forma harmoniosa, sem necessidade de intervenções sobrenaturais arbitrárias.

A segunda parte trata da evolução espiritual. O espírito nasce simples e ignorante, avançando moral e intelectualmente ao longo de múltiplas encarnações. Cada experiência terrena serve como etapa de aprendizado, e a prática da moralidade – sobretudo o amor e a caridade – é o motor desse progresso.

A terceira parte desmistifica os milagres. Kardec os vê como fenômenos naturais ainda não compreendidos, resultantes de leis superiores que a ciência ainda não decifrou. Ele também aborda as predições, reforçando a ideia de que o futuro não é fixo, mas depende da ação consciente dos seres.

É interessante verificar que, apesar de A Génese constituir um passo muito além na compreensão de verdades fundamentais, à luz da revelação espiritual mas também à luz da ciência, desmistificando conceitos errados como  sobrenaturalmilagrefé dogmática, e outros nascidos da “ignorância humana”, em parte alguma Kardec aponta o dedo ou estigmatiza qualquer fação religiosa ou filosófica, deixando bem patente que tudo tem sido revelado de acordo com o nosso grau de evolução e consequente capacidade de entendimento. A propósito deste assunto, não resisto a deixar aqui um pequeno excerto transcrito do capítulo I (Caráter da revelação espírita):


“8. Todas as religiões tiveram seus reveladores e estes, embora longe estivessem de conhecer toda a verdade, tinham uma razão de ser providencial, porque eram apropriados ao tempo e ao meio em que viviam, ao caráter particular dos povos a quem falavam e aos quais eram relativamente superiores.

Apesar dos erros das suas doutrinas, não deixaram de agitar os espíritos e, por isso mesmo, de semear os germens do progresso, que, mais tarde haviam de desenvolver-se ou se desenvolverão à luz do Cristianismo”.


Kardec não só não lança anátema como releva o papel fundamental que, apesar dos erros e inverdades de que estiveram revestidos, tiveram para a evolução da humanidade.

No mesmo capítulo, um pouco mais à frente, esclarece o papel de revelador do Espiritismo, com todo o caráter de revelação científica:


“12. O Espiritismo, dando-nos a conhecer o mundo invisível que nos cerca e no meio do qual vivíamos sem o suspeitarmos, assim como as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam e, por conseguinte, o destino da morte depois da morte, é uma verdadeira revelação, na aceção científica da palavra.”


Nesta obra doutrinária, Kardec, passo a passo, vai fazendo apelo às ciências experimentais, e aos conhecimentos que a ciência, à época, já tinha revelado, para ir demonstrando, com método e sabedoria, que aquilo que era tido como milagroso, mágico, sobrenatural, não era mais do que a aplicação das leis naturais, umas já conhecidas, outras que a ciência haveria de descobrir, fruto do trabalho árduo e da inspiração espiritual. Leva-nos a perceber, de forma esclarecida e não dogmática, que Deus jamais derrogaria as Suas Leis porque são imutáveis e perfeitas desde a origem.

Sendo a perfeição, reconhecidamente, um dos atributos divinos, é também perfeita toda a Lei que saiu da Sua Sabedoria. Resta ao Homem estudar, trabalhar, aperfeiçoar-se, crescer em Amor e Sabedoria, para melhor entender as Leis de Deus e tudo conhecer em função do equilíbrio, harmonia e ajuste a essas Leis.

De notar, ainda, que do que posso entender por exemplo da leitura do 1º excerto que transcrevi acima, mas também da leitura de toda a obra, A Génese, como tudo o que o Espiritismo nos faz chegar, não é e nunca poderá ser a versão final da revelação divina. Muito mais nos será revelado, noutros contextos e aprendizagem, à medida que tivermos condições para entender.

Por enquanto, o que podemos aconselhar é, reforçando o conselho de Kardec, que estudemos sempre. A Génese pode ser, e é com toda a certeza, uma das grandes fontes de inspiração para encontrarmos respostas racionais que façam crescer a nossa fé e nos ajudem a caminhar de forma mais consciente pela senda do crescimento espiritual.


N.R.: A Génese é a forma com que em Portugal se diz e se escreve A Gênese, de Allan Kardec.


Maria de Lurdes Duarte reside em Alvarenga, Arouca, Portugal.
 


 
 

     
     

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